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Entrevista com diplomata Maurício Costa

Enquanto cai a madrugada e os candidatos sonham alto com a vaga, os refletores do Palácio do Itamaraty permanecem acesos. Maurício também. Em frente ao projetor que lança imagens sob a sua parede da sala, Maurício inicia a terceira parte de sua tripla rotina: a de crítico cinematográfico. A madrugada é o tempo que resta para intercalar os 10 filmes que costuma assistir semanalmente. Tendo sido aluno do crítico Pablo Villaça, Maurício escreve, também às madrugadas, os textos e resenhas críticas que vem publicando no seu blog Razão de Aspecto, que mantém junto a seu antigo colega de turma no IRBr e agora companheiro de profissão no Itamaraty, Daniel Guilarducci. Pela manhã e tarde, segue imerso em questões prioritárias para a agenda da PEB na Coordenação Geral de Assuntos Econômicos da América do Sul. E à noite, antes de se lançar aos filmes novamente, ainda acompanha com carinho a dramática novela de muitos de seus alunos de coaching na luta por uma vaga no MRE.  Veja como ficou nosso bate-papo

Além de diplomata de carreira, professor de Redação e orientador de Coaching; você se dedica à crítica cinematográfica no Razão de Aspecto. Celso Amorim dirigiu a Embrafilme no início da década de 80, chegou a trabalhar em alguns projetos com o cineasta Ruy Guerra. Edgard Telles Ribeiro, autor do clássico “O punho e a renda”, também é diplomata e cineasta. Por que parece haver sempre essa relação tão estreita entre o cinema e a diplomacia?
 

As duas atividades demandam muita sensibilidade daqueles que a exercem. Não se trata somente do cinema, mas também da literatura, da música e das artes.  Entre os grandes diplomatas artistas, estão Guimarães Rosa, Vinícius de Moraes, José Guilherme Merquior, por exemplo. De certa forma, o cinema e as demais formas de arte são cosmopolitas e universais, da mesma forma que a diplomacia. O mundo é, ao mesmo tempo, o espaço da narrativa cinematográfica e o da ação da diplomacia.

Aproveitando um pouco desse seu duplo métier, que bons filmes recomendaria para quem quer entender melhor os bastidores da diplomacia?
 

O melhor filme sobre diplomacia em todos os tempos foi Os Treze Dias que Abalaram o Mundo, que trata sobre a crise dos mísseis, lançado no ano 2000. Tempos e situações de crise extrema são sempre muito úteis para entender-se a necessidade da negociação e o sentido da diplomacia.  Este filme influenciou fortemente minha decisão de me tornar diplomata.

Recentemente, o Atlas inovou ao oferecer a modalidade de coaching. É uma metodologia bem diferente da oferecida pelos demais cursinhos preparatórios e da que o próprio Atlas oferecia até então. Essa mudança de método é algum reflexo na mudança no nível de concorrência do próprio CACD? Em que consiste o coaching?

Na verdade, o programa de coaching é oferecido pelo Atlas desde 2008, apesar de ter passado por diversas alterações de estrutura pedagógica, para adaptar-se àquilo que o CACD exige. Desde 2008, tivemos resultados excelentes, com mais de 30 alunos do programa aprovados e com o pódio completo: 1º colocado em 2010, segundo colocado em 2009, terceiro colocado em 2013. Em todos os anos, em todas as turmas, tivemos alunos do programa aprovados no CACD. 

O programa de coaching sempre atinge bons resultados porque tem um método coerente e consistente, cuja ênfase está no melhor resultado individual, e não no melhor produto comercial. Os princípios básicos são mantidos: ganhar densidade de conhecimento, aprofundar o conhecimento e consolidar o conhecimento. Essas etapas são cumpridas por meio de desenvolvimento de leituras básicas, de leituras específicas, de aulas selecionadas e da solução de exercícios, cada uma delas no tempo certo. Não ser pode precipitar as coisas: para testar seu conhecimento, ele precisa ser consistente. Por essa razão, desenvolvo método no qual os exercícios são formas de consolidação e de revisão do conhecimento, ao contrário de ser a forma de ganhar conhecimento. De nada adianta para os candidatos e candidatas superarem o TPS, mas fracassarem nas etapas posteriores por falta de consistência. Este é um erro muito comum, infelizmente. O programa tem três formatos diferentes: a) Coaching Regular: 3 módulos de 12 encontros cada, em grupo, além dos módulo de revisão e de terceira fase; b) Coaching Exclusivo: 24 encontros individuais de uma hora, com atendimento exclusivo e individual; c) Coaching bibliográfico: Listas mensais de 10 (dez) questões de C/E ou de múltipla escolha com gabarito comentado de todas as disciplinas do TPS. As listas mensais serão elaboradas com base em obras da bibliografia obrigatória: uma obra da bibliografia obrigatória de cada disciplina para cada lista.

O que torna o nosso programa de coaching irreproduzível é o acompanhamento individual, em diversos níveis, que permite a adaptação do cronograma e das tarefas de acordo com o rendimento e com as dificuldades de cada candidato. No módulo que se encerrou no dia 25 de novembro, por exemplo, tivemos alunos que cumpriram 10 tarefas, outros alunos cumpriram mais de 20, mas cada um deles cumpriu todo o programa de todas as disciplinas do TPS. Claro, se o rendimento for menor, as adaptações serão maiores. O programa, entretanto, não vende método padronizado e único, caso contrário, basta uma lista de leituras. Mantêm-se os princípios básicos, a coerência do método, a atualização dos temas e da bibliografia para o CACD, o auxílio na elaboração de toda a estratégia e no cronograma de estudos, a exigência de disciplina e de comprometimento. Assim, o programa tem ótimos resultados para o curso e para os seus alunos. Atualmente, estamos começando o terceiro módulo do coaching regular. O coaching exclusivo teve todas as vagas ocupadas, mas poderão ser abertas novas vagas em 2015. O coaching bibliográfico deverá ser oferecido no primeiro semestre de 2015.

A propósito, o Victor Toniolo, que foi seu aluno de coaching ano passado, escreveu um texto para o Clipping CACD sobre como funciona o trâmite do Edital. Você, que ficou famoso, por prever as notas de corte com precisão cirúrgica, não arriscaria um previsão da data do Edital?

 Aposto na primeira quinzena de janeiro, mas é apenas uma aposta. Não é uma informação.

Suas aulas telepresenciais para a preparação para prova de 2ª fase de redação são conhecidas pela ênfase no conteúdo, nas estruturas argumentativas, enquanto outros cursinhos dão mais ênfase à forma, às estruturas de gramática. Dizem que o candidato deve argumentar bem e escrever de acordo com uma das mais ortodoxas gramáticas – a do Celso Cunha. Mas na prática se você prima demais pela ortodoxia da forma fica meio travado para transmitir certas ideias. Como fica essa equação?

 Bem, para a segunda fase, não recomendo o uso da gramática de Celso Cunha, mas, sim da de Evanildo Bechara. Nesta etapa, o que está em questão em relação à forma é a norma culta. O texto tem de ser escrito com clareza, correção e coerência, para que seja entendido por qualquer falante da língua portuguesa. Não há espaço para coloquialismos, rebuscamento, jargão ou qualquer tipo de experimentalismo. O uso de figuras de linguagem deve se restrito ao máximo, de forma a evitar ambiguidades. Além disso, é imprescindível compreender que texto bem escrito é texto elaborado com fluidez. Os esquemas herméticos levam grande número de candidatos a terem resultados pífios nos aspectos macroestruturais
(conteúdo e estruturação), por serem extremamente simplistas. Como sempre esclareço nas minhas aulas e como esclareci em meu Manual de Redação – cuja primeira edição está esgotada -, o uso de listinhas de palavras proibidas, de fórmula fixa, de conclusões repetitivas e de argumentos superficiais e genéricos fazem candidatos com muito potencial escreverem muito pior do que poderiam.

Suas aulas ficaram famosas pelas impiedosas análises de espelhos de provas anteriores. Dá para ser “diplomático” diante de uma dissertação extremamente mal redigida?

Considerando diversos relatos dos milhares de alunos que já tive, não me considero impiedoso. Em todas as análises, procuro mostrar os defeitos, mesmo em redações excelentes, e os méritos, mesmo em textos de nível mais baixo. Procuro manter-me sempre na análise objetiva daquilo que está sendo discutido.

O Edital condena de forma explícita o uso de “fórmulas prontas e adestramento” na prova de redação. Mas não teria o próprio processo de preparação algo de “adestramento”? Muito do que se escreve na hora da prova de 2ª e até de 3ª etapa não chega a ser uma espécie de colagem, uma reprodução “adestrada” do que se escreveu ao longo dos exercícios nos cursos preparatórios para o CACD?

Esta é uma ótima pergunta. Minha resposta é não. Este é um dos maiores erros dos candidatos em todas as etapas discursivas. Ao adotarem essa estratégia, estarão sempre desperdiçando pontos preciosos para a sua classificação final. Se, nos concursos de 100 vagas, esta era uma estratégia arriscada, nos concursos a partir de 2011, passou a ser uma estratégia “suicida”. Não é mais suficiente alcançar a nota mínima ou ficar na média geral. Como menos de 80% de média, as chances de aprovação são muito reduzidas. Para fazer uma média tão alta, é preciso destacar-se.

Para destacar-se, suas respostas precisam ir além do adestramento, que é basicamente o mesmo para todos os candidatos. Para ir além do adestramento, precisa-se de densidade de conhecimento. Muitos candidatos e muitas candidatas já fizeram a terceira fase e a quarta fases diversas vezes e não conseguem ser aprovados por tentarem repetir a mesma fórmula que já não deu certo. Posso afirmar que meus alunos sabem o que não devem fazer e têm obtido excelentes resultados.

A mesma pergunta que fizemos ao João Daniel, o coordenador pedagógico do Clio, semana passada fazemos a você agora. Se você tivesse autonomia total para reformular o CACD, o que mudaria?

Incluiria espanhol no TPS. A maioria das nossas fronteiras é com países falantes de espanhol, com quem temos intensas relações políticas e econômicas. Também incluiria temas consulares para além daqueles já contemplados pela prova de direito, no TPS e na terceira fase, e exigiria administração pública de forma muito clara e direta na primeira e na terceira fases. Manteria a “espinha dorsal da prova” em relação ao número de fases e ao formato das provas discursivas.

Não é nossa intenção politizar esse nosso bate-papo além da conta. Mas considerando que você faz parte do conselho deliberativo do Sinditamaraty, não tem como não falarmos de certas coisas. Já são 5 anos sem concurso de OfChan, as poucas vagas disponibilizadas para o CACD estão aquém do necessário para repor o quadro de servidores, há meses o auxílio-moradia está atrasado, quem ingressa agora na carreira espera cerca de 13 anos para ser promovido de Terceiro para Segundo secretário enquanto o normal seria um decurso de 5 anos, fala-se agora na criação do cargo de Adido Comercial. No curso do processo de preparação para o CACD, os candidatos aprendem a admirar e respeitar a instituição e seus servidores a ponto de sacrificarem-se cotidianamente por anos na esperança de um dia ingressar na carreira. O sentimento de muitos dos candidatos hoje é de “profunda apreensão”. O que está acontecendo?

Passamos por uma fase difícil, mas que é consequência da interrupção da ampliação dos quadros do ministério após 2010. Ainda que a Lei 12.601 tenha sido sancionada, os quadros foram reduzidos, e não aumentados. Esse processo está levando ao fortalecimento do sindicato, por meio da sindicalização crescente de diplomatas, especialmente os mais jovens. Há mobilização permanente em busca da solução desses problemas, e confiamos que o diálogo com a Administração poderá alcançar resultados satisfatórios. Vamos também defender nossa posição na Esplanada, contra qualquer tipo de retirada de competências e de desvalorização das carreiras.

Não posso deixar de expressar uma ideia importante: apesar do momento difícil, a carreira de diplomata é gratificante e vale a pena o sacrifício.

No DOE 1.0, que é uma ferramenta do Clipping CACD que reúne e organiza o conteúdo de notas e discursos oficiais por tema, tem uma seção específica sobre o CACD. Tiramos isto de lá:

[“O ritmo e a forma da incorporação de novos funcionários serão objeto de exame cuidadoso pela Administração, mas o compromisso com uma adequada dotação em matéria de recursos humanos é uma imposição da realidade. Estarei atento para que os ajustes funcionais que implementemos e para que a gestão do dia-a-dia da Casa reflitam os legítimos anseios funcionais de todos os integrantes do nosso Serviço Exterior.” Discurso do Ministro Antônio de Aguiar Patriota na cerimônia de posse do Embaixador Ruy Nogueira como Secretário Geral das Relações Exteriores. Brasília, 06 de janeiro de 2011. “]

Essa fala tem 4 anos. Pode-se dizer que de lá para cá, ainda que parcialmente, os anseios funcionais dos integrantes da Casa foram contemplados?

Infelizmente, não, mas confio que esse cenário mudará em breve.

Agora para encerrar,  aquele bate-bola estilo de “De frente com Gabi”. Daqui para frente não vale ser diplomático. 

Um filme que te decepcionou:

 Poderoso Chefão 2. O primeiro é muito melhor.

Uma missão em que gostaria de servir:

Los Angeles.

Um lugar em Brasília:

Pontão do Lago Sul.

Um diretor de cinema:

Lars Von Trier e Woody Allen, empatados.

Uma vitória do grêmio:

A batalha dos Aflitos. Eu vi o Grêmio ganhar 2 brasileiros, 4 copas do Brasil, 2 libertadores, um mundial e diversos outros campeonatos menores, mas nenhuma vitória foi tão heroica e improvável quanto esta. Naquele dia, decidi que nunca mais me
declararia ateu, porque milagres existem.

O Itamaraty hoje:

Essencial para a defesa dos interesses do Brasil. 

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