Foi épica a aula gratuita sobre Economia Política do Coronavírus, realizada pelo Petit Journal em parceria com o Clipping… Milhares de participantes, centenas de comentários pipocando ao vivo e uma pilha de reflexões muito especiais que todos levaram para casa.
Como forma de agradecemos a todos pelo carinho, reunimos neste artigo uma curadoria com um resumo dos principais pontos da aula.
Veja os principais takeaways. 🧡👇
1. Breve histórico: saúde e RI
A história é marcada por doenças. Conflitos internacionais foram abreviados ou prolongados por doenças, que são consideradas o “terceiro exército”. As péssimas condições sanitárias do front de batalha propiciam o surgimento de doenças que não diferenciam bandeiras ou uniformes.
- Na Guerra do Peloponeso, 1/3 da população de Atenas morreu em decorrência de doenças;
- Nas Guerras Napoleônicas, morreram 8x mais britânicos em razão de doenças, como a cólera, do que devido aos conflitos armados;
- Na I Guerra Mundial, devido a um surto de gripe espanhola nos navios, as tropas brasileiras tiveram de parar em Dakar, no Senegal, e foram chegar na Europa 1 dia antes da assinatura do armistício. No retorno ao Brasil, trouxeram o vírus que acabou matando o presidente eleito Rodrigues Alves, em 1918;
2. Pandemia e globalização
Mas se já não vivemos outras pandemias antes, por que a comoção agora?
Porque essa pandemia diferencia-se de todas as outras, devido às características contemporâneas do mundo globalizado e interconectado.
Se o que permitiu o rápido contágio da gripe espanhola foi a I Guerra Mundial, a particularidade da COVID-19 é a globalização. Devido à intensificação dos fluxos de movimento, tanto de pessoas quanto de bens, e à “porosidade” das fronteiras, o vírus espalha-se mais rapidamente.
- A China é o país que mais faz comércio no mundo, o que facilitou a expansão do vírus para outros países;
- Depois da China, onde o vírus espalhou-se primeiro? Justamente para as regiões mais globalizadas do mundo: Europa Ocidental e costa Oeste dos EUA;
- No Brasil, o vírus chega, justamente, por meio de São Paulo, centro urbano brasileiro que tem o maior número de conexões internacionais, que se insere melhor na globalização;
- Até o momento, a África é o continente menos afetadas pelo pandemia, pois é a que menos se beneficia da globalização.
3. Pandemia e multilateralismo
Outra característica do mundo contemporâneo que contribui para o agravamento da crise do coronavírus é enfraquecimento do multilateralismo. Vivemos num momento em que a soberania e o nacionalismo são revalorizados, o que incentiva ações unilaterais e dificulta a coordenação no sistema internacional.
O que levou a revalorização do nacionalismo? Esse discurso vem ganhando respaldo em países desenvolvidos, onde uma parcela considerável da população, sobretudo da classe média, perdeu bem-estar, devido a transferências de plantas produtivas para países em desenvolvimento, sobretudo para o Leste asiático, levando seus empregos embora.
Mais nacionalismo e menos multilateralismo levam a um cenário de:
- Concorrência > cooperação = disputa por equipamentos e insumos médicos;
- Dificuldade na difusão de informações confiáveis;
- Disputas de narrativas acerca da origem do vírus e da responsabilidade de cada Estado;
4. Como enfrentar um problema global com respostas locais?
Historicamente, o multilateralismo é resultado da construção de alternativas após traumas coletivos, em especial após guerras importantes;
- Congresso de Viena (1815), após as Guerras Napoleônicas;
- Liga das Nações (1919), após a I Guerra Mundial;
- Nações Unidas (1945), após a II Guerra Mundial;
A Crise de 2008 foi enfrentada de maneira coordenada, com as autoridades nacionais definindo ações conjuntas por meio do G8, G20 e BRICS. Apesar disso, enquanto o sistema financeiro foi preservado, a percepção generalizada de trabalhadores de classe média dos países desenvolvidos é de que foram eles que pagaram o preço.
- Contradição: o multilateralismo foi essencial para superar a Crise de 2008, mas a crise de certa forma enfraqueceu o multilateralismo.
5. Mundo após a pandemia
Mais uma vez: o mundo sairá completamente diferente dessa crise. Mas o que mudará mais? Isso dependerá das respostas que as sociedades vão dar a uma série de questionamentos para os quais as repostas ainda são incertas. Teremos:
- Mais unilateralismo ou multilateralismo?
- Mais Democracia liberal (Ocidente) ou mais autoritarismo (China, Hungria, Rússia)?
- Mais ou menos Estado?
- Mais Soluções globais efetivas, mas que demandam cessão de soberania, ou soluções domésticas soberanas, porém ineficazes?
6. Economia: projeções
Não é uma crise econômica, mas uma crise sanitária com impactos econômicos cuja dimensão exata ainda não é conhecida, mas que certamente serão dramáticos.
O cenário é de retração do PIB mundial.
Algumas projeções da retração até o momento:
- Mundo: – 1.9%
- EUA: – 3.3%
- Zona do Euro: – 4.2%
- Reino Unido: – 3.9%
- China: 1.5% (6.6% era a previsão inicial)
7. Particularidades da crise atual
Em crises econômicas tradicionais, costuma haver um descolamento entre a oferta e a demanda. Há um excesso de oferta num cenário de escassez de demanda ou o inverso, com uma oferta que não é capaz de suprir a demanda. Esse descasamento resulta em crises.
A crise sanitária da COVID-19 implica numa crise econômica tanto de demanda quanto de oferta, levando a um desmoronamento de toda a economia, o que nunca ocorreu antes.
Por ser uma situação excepcional, não é possível encontrar soluções olhando para crises passadas.
8. Comparando as crises…
1929 é uma crise de produção, causada pelos excessos dos anos 20. Com uma produção excessiva e uma demanda escassa, formaram-se estoques elevados, queda acentuada na produção, demissão e redução da demanda, o que retroalimenta a crise.
- Causas bem definidas.
- Remédio claro: elevação dos gastos públicos, para expandir a demanda;
2008 é uma crise financeira, causada pelo excesso de alavancagem dos bancos norte-americanos, que emprestaram para pessoas que não tinham como pagar, gerando “créditos podres”. Sem conseguirem reaver o dinheiro emprestado, bancos começam a falir.
- Causas bem definidas.
- Remédio claro: intervenção dos bancos centrais para liberar dinheiro para o sistema financeiro.
2020 é uma crise econômica que decorre de uma crise sanitária. Para conter o número de mortes, as pessoas devem ficar em casa. Empresas reduzem a produção e pessoas deixam consumir.
- Causas bem definidas
- Remédio incerto: com a demanda e a oferta paralisadas, em um contexto de isolamento social, governos só conseguem conter os danos. Não há como alavancar a economia, apenas tentar conservar o capital humano e evitar que empresas fechem.
9. Brasil & COVID-19
O consumo representa mais de 60% do PIB brasileiro, o que torna a situação aqui mais dramática, porque o contexto de isolamento social reduz fortemente essa variável do PIB. Poupança em proporção do PIB é muito baixa, de modo que as pessoas não tem reserva para continuar consumindo.
Para evitar um maior agravamento da crise econômica, o governo brasileiro vem tomando as seguintes ações:
- Redução da taxa SELIC a 3,75%, baixa histórica;
- Linha de crédito de R$ 40 bilhões para pequenas e médias empresas, para que elas possam arcar com suas despesas de folha de pagamento;
- Medida Provisória n. 936: permite a redução salarial proporcional à redução da jornada de trabalho e a suspensão do contrato de trabalho, desde que seja garantida a estabilidade do emprego pelo mesmo período. Governo entra arcando com um % do seguro desemprego proporcional à redução do salário;
- Renda emergencial de R$600 reais para trabalhadores informais.
- Estado de calamidade pública: permite a elevação dos gastos públicos, sem comprometer o teto de gastos ou descumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal;
- Orçamento de guerra: separaR as despesas referentes ao enfrentamento da pandemia das despesas tradicionais do governo.
- Adiamento do pagamento de impostos (IR passou de abril para junho);
10. EUA & COVID-19
A economia norte-americana vem sendo fortemente afetada pela crise. Até a crise atual, o recorde de pedidos de auxílio desemprego nos EUA era de 695 mil. Nas duas últimas semanas de isolamento, houve 10 milhões de pedidos.
Até o momento, a principal medida aprovada pelo governo dos EUA é o pacote de pacote de US$ 2 trilhões, quantia que representa 10% do PIB norte-americano. O Plano Marshall representava 4-5% do PIB dos EUA.
Mas para onde vai isso tudo?
- Transferências diretas para famílias;
- Ampliação do seguro-desemprego estendido;
- Incentivos para manutenção do emprego;
- Empréstimos e doações para empresas;
- Transferências para governos locais;
Não para por aí! O FED praticamente zerou a taxa de juros base e anunciou que comprará todos os títulos do Tesouro, independentemente da data de validade.
Também ofereceu para seis países, entre eles o Brasil, uma linha de crédito em dólares com garantias em moeda local.
Assista à aula na íntegra

Clique aqui para acessar os slides da aula. 😉
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+Rastreador de políticas macroeconômicas do FMI: FMI – (leitura de 5 minutos): Nessa plataforma é possível acessar de forma atualizada as principais medidas que vem sendo tomadas.
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