Como é a história de um candidato em busca da aprovação no concurso de Oficial de Chancelaria? Ora drama, ora comédia, ora tragédia, mas sempre uma boa história. Cada vez mais, vamos nos dando conta de quanto a trajetória de cada candidato é um épico a parte.
Quem escreve hoje é a Claudia. Com um 1 ano de estudos para o concurso de Oficial de Chancelaria, ela tem história de dar inveja a muito veterano de CACD: largou o que lhe parecia seu “emprego dos sonhos” para investir pesado no OFCHAN, conquistou de pouquinho em pouquinho confiança para partir também para o CACD e a ABIN, passou por momentos difíceis no dia do CACD e acabou não indo fazer a prova só para depois encontrar forças para retomar os estudos (sabe onde?) em uma obra clássica de um filósofo. Quer saber qual? É só ler até o fim essa história verdadeiramente inspiradora.
Buscando aprovação no concurso de Oficial de Chancelaria
Primeiramente, gostaria de agradecer a quem está aqui “perdendo” um pouquinho de tempo para ler a respeito da vida de mais um desconhecido que se aventura na via sacra do MRE.
Há exatamente 1 ano atrás começava oficialmente a minha jornada, que apesar de um pouco atrapalhada, estava no maior gás.
Eu tinha ingressado em um multinacional alemã em maio daquele mesmo ano e até setembro estava no céu. Era meu sonho. Usaria meus idiomas, utilizaria os conhecimentos da minha formação e além de tudo, trabalhava a 15 minutos da minha casa. O que mais eu poderia querer?
Eis que o tempo foi passando e as coisas começaram a ficar um tantinho diferentes do que foi proposto na entrevista. Comecei a ficar com a pulga atrás da orelha, mas fui levando bem já que no começo de qualquer coisa nada é como a gente espera. Aí passou mais um tempinho e as coisas continuaram iguais…
A frustração tomou conta muito rápido, embora eu tenha tentado desde o início fazer o possível para ser a melhor funcionária do mundo. Se eu estava desmotivada, tentava ver o lado bom das coisas. Mas quando você passa 9h do seu dia fazendo sempre o mesmo trabalho operacional, sua criatividade tende a esvanecer aos poucos e você se cansa. Resumidamente, minha função era de pós-vendas. Ou seja, SAP.
Para quem já teve o mínimo de contato com essa ferramenta e é formado em tecnologia da informação, ciências da computação, ok. Mas eu sou formada em Marketing. Vocês imaginam isso?
Mas agora você, leitor, deve estar se perguntando: “Mas que diabos! Marketing?”
Acredite você ou não, a grade da minha faculdade parecia de uma faculdade de Relações Internacionais. E eu, é claro, achava isso lindo. Na época da faculdade, inclusive, eu fui aquela aluna Hermione que fez monitoria, coaching, isso, aquilo, palestra, blábláblá. No último semestre, então, eu só tive Economia e Negócios Internacionais. Fora as atividades da faculdade, eu estudava alemão e francês.
Me formei, voltei de São Paulo para minha cidade (é no interior e é como o Condado dos Hobbits) e demorei um tanto para conseguir meu emprego. Dei aulas de inglês por menos de 6 meses e enfim estava lá sentada com meu grande amigo SAP. Eu era tão irritantemente organizadinha que fiz um tutorial para essa pendenga. Ficou pra posteridade.
Pois bem, depois dessa volta ao passado, voltemos ao lugar que eu estava: Triste, desmotivada, mas com materiais na mão pra estudar para um concurso que eu nem sabia que existia. Eu imaginava uma profissão ideal pra mim, mas não sabia que ela estava nesse mundo, até que meu namorado (formado em relações internacionais) disse que além da Diplomacia existia Oficial de Chancelaria. Eu já sabia do Itamaraty, mas não imaginava que existisse outra coisa. Dessa forma, os dois começaram a estudar juntos.
Fato é que fiquei tão empolgada que mal podia ver a hora de sair do trabalho e estudar. Mas, como eu sempre fui cautelosa e organizada antes de dar qualquer passo, eu comecei a pesquisar. Abri um Instagram para concursos e comecei a ver o mundo de gente que estava por ali estudando, mas não encontrava ninguém de ofchan. Tudo bem que hoje em dia eu sei que o povo todo está no Facebook, mas eu não quero outra rede social.
Enfim, no dia 19 de setembro de 2014 eu comecei a estudar pra valer. Como eu sabia que a possibilidade do concurso demorar era grande, decidi estudar só Português e Atualidades nos primeiros 4 meses. Eu via que tinha muita gente que ainda trocava “onde” por “aonde” e achei que seria prudente ser o melhor que eu pudesse.
Além do mais, há todo um terrorismo on-line de que a maioria das pessoas que fazem Oficial de Chancelaria são de Letras, então eu usava toda a minha energia nesse começo. Na primeira semana de dezembro eu conheci o Clipping e senti uma boa diferença nos estudos. Eu lia e assistia jornal todos os dias, mas não é nada comparado ao que foi o Clipping (não estou ganhando pela propaganda, tô sendo sincera mesmo).
O tempo passou e eu comecei a sentir que estudando das 19h-21h eu não ia passar nem na frente do Itamaraty.
Passei a chegar 1h mais cedo na empresa para poder ler. Meu almoço passou a ser na mesa, assim eu ganhava mais 1h. Totalizei 4-5h no dia, mas em casa eu estudava morta e no trabalho sempre havia uma interrupção ou outra. Você estava naquela linha de raciocínio maravilhosa e alguém chegava para te pedir alguma coisa.
Fora quando eu estava lá lendo sobre algo X e alguém chegava para me perguntar qual era a utilidade daquele livro. Não preciso nem dizer que peguei fama de antissocial no trabalho, não é? Ter uma vida dupla não é fácil. Eu não podia dizer que eu tinha objetivos maiores e foi bem difícil lidar com isso, já que não se pode sair por aí revelando que você tem pretensões diferentes das dali.
Veio janeiro e com ele o edital do concurso para escrevente do TJSP. Eu vi ali uma boa oportunidade de estudar com edital, ir a uma prova, testar meus conhecimentos e ver como era meu psicológico no dia.
Agora, lembre-se: eu sou formada em Marketing. Não tinha o mínimo de contato e/ou conhecimento de Direito. A prova do TJ tinha Direito Civil, Penal, Constitucional, Administrativo, Processual Penal e Normas da Corregedoria do Estado. Fora Português, Informática, Lógica e Matemática. Estudei 83 dias sem parar, sem final de semana, sem passeio, sem academia, sem dormir 8h por noite. Foi tudo sem.
Na verdade eu tive um “com”. Meu namorado e eu estávamos estudando juntos, afinal, o exercício da função se daria em Santos, que é a cidade em que ele mora. Seria um bom salário e continuaríamos a estudar para ofchan. Três meses depois eu estava morta , mas com a sensação de que tinha feito algo bom pra mim. Quando saiu o gabarito eu quis morrer.
Me achei um lixo, senti vergonha, achei que eu era burra e todas aquelas coisas que um concurseiro faz quando vê um maldito gabarito. Fiz 75 e marquei 5 erradas no gabarito porque olhei meu relógio errado! Acredita nisso? Juvenil mesmo. Achei que tinha 1h a mais…na hora que eu vi que faltavam 10 minutos pra entregar eu simplesmente fui riscando tudo.
Hoje eu vejo que isso tudo foi ótimo e não me acho mais uma mula.
Uma semana depois da prova eu enxuguei as lágrimas e engrenei no ofchan. Adicionei a ABIN e o CACD porque comecei a perceber que eu era capaz daquilo também. No começo eu achava que eu não seria candidata para aquilo. Fato é que eu sempre pensei que estudantes do CACD eram deuses do Olimpo e que não havia nada que não soubessem. Pensando nisso eu acabei decidindo: “Aah é? Então vamos jogar o jogo assim também”.
Acontece que tudo é lindo quando você paga de valentona. O trabalho estava me atrapalhando demais. A situação chegou a ficar insustentável depois de um problema que nem vale a pena comentar aqui. Eu realmente não conseguia mais ficar lá e aquilo estava mais que evidente. Como eu sabia que meu tempo por lá seria menor do que o de “Pepino, O Breve” eu fui juntando todo o salário que podia para me manter quando enfim tomasse minha decisão.
31 de julho foi o dia em que eu dei tchau para uma página da minha vida e comecei a escrever outra. E olha que começou diferente, viu? Logo no Domingo tinha a prova do CACD e eu não fui. Por quê? Pois no mesmo dia o meu pai acaba internado na UTI com nada mais nada menos que 99% de chance de ter ido embora. E aí, rapaz? Aí você vê o que realmente importa na sua vida.
Quando ele saiu do hospital, mais saudável do que nunca, eu voltei a pensar em um livro que li do Sêneca, “A Brevidade da Vida”. Eu li esse livro um dia antes de começar a estudar e foi ele que me deu o ânimo que eu precisava. Se você não leu, leia.
Agora começa algo muito novo em um ano que passou tão rápido. Passo 8h do meu dia estudando e nem vejo a hora passar, pois estudar as matérias – principalmente do CACD – é aquele tipo de coisas que me apraz. Não há aquele peso de “jura que eu vou ter que ler esses artigos e decorar as penas pra quem é punido por Peculato? ”
Eu poderia ficar aqui horas falando de dicas de estudo, motivação, “nunca desista dos seus sonhos” e mimimi, mas isso é tão desnecessário… Não é óbvio que, se você enfiou algo na cabeça, é porque sabia que de alguma forma conseguiria conquistá-la?
Meu lema sempre foi e sempre será o mesmo e, honestamente, indico isso para você quando estiver meio desanimado.
Começou, termine.
Só saia do CACD pela porta de entrada do Itamaraty.
Bons estudos!
Claudia é formada em Marketing e tem especializações em Gestão de Marca. Mora no interior de São Paulo e tem um humilde Instagram de estudos. É filha de uma chilena e um ítalo-brasileiro, dois irmãos e um coelho. Fala inglês, espanhol, alemão, francês e ensaia uma outra língua. Jurou que não sai do páreo até não ver seu nome na lista. Seu grande sonho é fazer parte da ACNUR”
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