Todo candidato a diplomata tem suas histórias: pequenas tragédias, grandes dramas ou altas confusões (quase sempre envolvendo o CESPE). A rotina é dura, o caminho é longo. Mas é dessas provações diárias que são feitas histórias espetaculares de aprovação, como a da Marianna, que saiu do 154° lugar para o 6° lugar geral, após de não somente ter logrado a maior nota geral nas provas discursivas mas também de ter ganho uma das maiores pontuações da história do concurso com recursos (veja guia de como recorrer ao CESPE aqui).
Para desvendar melhor os meandros dessa aprovação épica. Dividimos o post em 3 partes:
- 1) Raio X do desempenho;
- 2) Vídeo com depoimento;
- 3) Entrevista com 10 perguntas.
1. Raio X do aprovado
Vamos às informações sobre o desempenho da Marianna no CACD:
Prova de Redação
Antes dos recursos:
- Redação: desempenho de 61%
Depois dos recursos:
- Redação: desempenho de 65%
Provas Discursivas
Antes dos recursos:
- Economia: desempenho de 78%
- História do Brasil: desempenho de 69%
- Direito Internacional: desempenho de 88%
- PI e GEO: desempenho de 66%
- Francês e Espanhol: desempenho de 66%
- Inglês: desempenho de 71%
Depois dos recursos:
- Economia: desempenho de 71%
- História do Brasil: desempenho de 90%
- Direito Internacional: desempenho de 88%
- PI e GEO: desempenho de 71%
- Francês e Espanhol: desempenho de 66%
- Inglês: desempenho de 71%
? Marianna ficou em 1° lugar geral nas provas discursivas
Prova Objetiva (TPS)
Marianna tirou uma nota de 46,25 pontos na prova objetiva, o que corresponde a um desempenho de 63%.
#2. Depoimento sobre o Clipping
#3. Entrevista
Clipping: Todo ano, todo aprovado no CACD passa pela cerimônia que os candidatos chamam de “baile do inbox”. Logo que sai o resultado, os aprovados têm seus facebooks inundados por pedidos de amizade e mensagens do tipo : “você poderia me dar umas dicas de como passar?”. Como você tem lidado com esse momento celebridade?
Marianna: Olha, confesso que de todas as coisas que eu pensei que o CACD podia me dar, jamais imaginei esses 15 minutos de fama! (risos) De fato, muita gente tem me adicionado, tanto para mandar mensagens de carinho quanto para pedir dicas de estudos. Apesar de estar muito na correria desde o resultado oficial, providenciando exames, documentos, mudança de cidade, comemoração e até um tapa no visu (não sei vocês, mas meu eu cacdista mal tinha tempo de pentear o cabelo!), estou tentando dar atenção pra todos. Primeiro porque já estive nessa posição e sei como é bacana quando a pessoa tem o carinho de gastar uns minutinhos do tempo dela dando dicas que podem ser muito valiosas, e segundo porque sempre me inspiro no Igor Trabuco e nessa situação não tem sido diferente. Ele me disse, esses dias, falando sobre o trabalho dele, que se as pessoas chegam até ele pra pedir/perguntar algo, é porque já venceram algumas barreiras, como a vergonha de ir procurar alguém desconhecido ou conhecido apenas virtualmente. E se essa pessoa já passou por isso, você ainda vai tratá-la mal ou ignorá-la? O mínimo que se pode fazer é tratar com respeito e atenção, né?
Clipping: Sua aprovação é um case de sucesso incrível. Em 2016, você bateu uma série de recordes. Você recebeu um balde de água fria com uma das notas mais modestas na prova de Redação. Dias depois, você pulou para a aprovação com a maior nota geral na terceira fase após ter ganho 22 pontos com recursos, o que lhe garantiu o 6° lugar. Como você recebeu a notícia dessa reviravolta?
Marianna: Com muito susto. Foi uma montanha russa de feelings. Logo após as últimas provas, teve o resultado de francês/espanhol, que me animou demais, porque essa prova geralmente é diferencial. Semanas depois, o baque de português. Quando vi os 61, fiquei mal, achei que não ia dar… Mas se teve um trem que aprendi nesse concurso foi a ser resiliente e a saber que nada, NADA, está definido antes do resultado oficial.
Daí, mesmo desanimada, me empenhei muito nos recursos da segunda e já adiantei os da terceira fase mesmo sem ter as provas. Essa, aliás, é uma dica que queria dar, porque me adiantou bastante a vida já ter tudo rascunhado quando saiu o provisório. Fiquei agoniada esperando o provisório, achei que no máximo eu conseguiria ficar ali no limbo dos 30 e poucos e lutar com tudo por pontinhos nos recursos. Quando saiu, lembro de ligar pro Luigi Bonafé e só conseguir dizer uma frase: “tá errado, erraram na conta, tá errado!“.
O décimo quinto lugar foi uma surpresa, mas não consegui comemorar muito, porque, como disse, aprendi que o CACD nunca é previsível. Quando saiu o oficial, foi um mix de euforia com susto muito intenso! Ganhei 22 pontos de recursos e subi para o sexto lugar, colocação que nunca, nem nos meus sonhos mais otimistas, eu podia sonhar em ficar.
Clipping: Apesar de ser hoje possível estudar online, estar geograficamente isolado de outros candidatos e de grandes centros de preparação é visto por muitos como uma grande dificuldade. Você é mineira de Juiz de Fora, mas acabou vindo para Belo Horizonte berço do Clipping e de tantos outros aprovados estudar. Por quê?
Marianna: Quando comecei a preparação, em setembro de 2013, meu plano era me mudar pra um dos polos da troika – RJ, SP ou BsB. Por questões de organização, a ideia era mudar no início de 2014. Até lá, iria adiantar a preparação como pudesse.
Como em JF não havia cursinho ainda (abriu bem nessa época, na verdade), fui morar uns meses com meu pai em BH para fazer alguns regulares no telepresencial que havia lá.
Deu tão certo que acabei mudando os planos e ficando por três anos! Além de o tele ter me dado uma base super boa (no início eu tinha medo de ser pouco efetivo, mas funcionou muito bem), 2014/15 foram meio que os anos em que os cursinhos físicos começaram a dar uma caída e os online começaram a bombar ainda mais. Então já não fazia mais sentido sair de BH pra isso. Hoje eu não recomendo a ninguém mudar de cidade por causa da preparação, o mercado online tá super rico em opções e fazer aulas de casa é muito confortável, poupa tempo de deslocamento, etc.
Clipping: Pergunta jabá: como o Clipping te ajudou na aprovação para o CACD?
Marianna: O Clipping me ajudou naquilo que é mais difícil conseguir com os cursinhos e/ou sozinho, na minha opinião: atualidades de PI. Por mais que você tenha uma base incrível nessa matéria, se seu regular foi um ano antes do TPS e você não mais atualizou o caderno, é bem difícil ir bem na primeira fase. E PI tem um peso enorme no TPS, né?
Também achava difícil me manter atualizada sozinha porque é um mundo de notícias todos os dias e é muito difícil filtrar e absorver em pouco tempo. Em suma, com o Clipping, consegui manter a atualização de forma efetiva, sobretudo em PI, gastando pouco tempo. Mas não vou dar mais spoilers porque
vai ter vídeo disso em breve 😛
Clipping: Muitos candidatos consideram que, apesar da lisura do concurso, há um incômodo grau de aleatoriedade, tanto na prova objetiva quanto na parte discursiva. CACD tem pouco de loteria?
Marianna: Olha, eu nunca gostei que falassem que CACD é loteria, porque sempre achei meio falta de respeito com os aprovados – nunca conheci um que não fosse realmente inteligente e não merecesse o resultado. Há, no entanto, duas ressalvas.
A primeira é que, em 2016, especialmente, achei que o TPS teve um viés bastante lotérico, sim. A prova foi tão maluca que acabou perdendo uma das únicas coisas que ainda fazia bem: selecionar com alguma meritocracia (apesar do desgaste desse termo, acho que ele cabe aqui). Com isso, muita gente boa ficou de fora. E o fato de todos os aprovados no concurso já terem feito a terceira fase antes (nenhum ali era calouro) é, acho, um pouco reflexo disso: como a gama de aprovados no TPS foi muito variada, acabou ganhando vantagem comparativa quem já tinha experiência das fases avançadas.
A outra ressalva é que, com as poucas vagas, a fase final do concurso, a briga entre a galera que ficou entre os 40 primeiros no resultado provisório, é, também, lotérica. Só tem gente muito boa e muito preparada entre esses 40 primeiros, e o que define quais deles vão ou ficam acaba sendo um detalhe a mais de BPM6 que um lembrou e o outro não, uma palavra que um traduziu corretamente e o outro não, por exemplo.
Clipping: Isso nos leva àquela pergunta clássica do Clipping. Se lhe fosse dada autonomia completa para reformular o CACD completamente. O que ficaria como está e o que mudaria?
Marianna: Não me matem por não dizer: “EXTINÇÃO TOTAL DO TPS!” (risos). Eu manteria a estrutura das duas primeiras fases, apesar de terem defeitos. Modificaria, no entanto, a terceira….
Acabaria com as traduções e o summary de inglês, porque acho que não medem conhecimento muito bem e a correção acaba sendo subjetiva e pouco isonômica. Colocaria, de repente, duas essays.
Aumentaria também as questões de PI e de GEO para quatro, como era antes. E incluiria uma prova inteira de HM – é uma matéria muito importante pra ter um peso tão pequeno no concurso.
Sobre francês e espanhol, não voltaria com as discursivas, mas tentaria torná-las um pouco mais objetivas, sobretudo espanhol.
Clipping: Todo candidato tem aquele momento reflexivo após a reprovação em que cogita “onde foi que errei?” Você já teve o seu em 2015, quando, apesar de ter ido para a terceira fase, não ficou entre os aprovados. Que lições tirou desse balanço?
Marianna: Esse balanço foi essencial pro meu ano de 2016 e é a ele que devo a aprovação.
Por isso, recomendo a todos os candidatos que estão nesse momento de ressaca moral da reprovação que usem essa frustração como energia para analisar detidamente os erros e os acertos.
Meu lema no CACD sempre foi o famigerado
“em time que tá ganhando não se mexe”
Por isso, mantive, em 2016, tudo o que deu certo em 2015: usei a mesma estratégia de estudo de TPS e das discursivas de PI, GEO, ECO e DIP – minha nota foi muito boa nelas em 2015.
Procurei uma nova estratégia naquilo em que tinha ido mal: segunda fase e ING, HB, FRA e ESP de terceira. Me dediquei mais a essas matérias e procurei inovar no método, estudando com base no diagnóstico do porquê tinha ido mal nelas. E, ainda bem, deu certo!
Clipping: Tem um vídeo bem legal do Prof. Igor Trabuco, do Clio, que ele fala sobre as diferentes motivações para se seguir a carreira diplomática. Fato é que dos candidatos àquela clássica “por que você quer ser diplomata?” É natural que todo candidato acabe tendo que moldar uma resposta padrão para parentes e amigos para essa indagação. Qual é a sua?
Marianna: A minha é: “porque me identifico muito com os valores da diplomacia brasileira e me sentiria muito realizada promovendo esses princípios no mundo“.
Apesar de ser uma resposta padrão, é muito verdadeira: eu jamais seria feliz trabalhando com algo em que sentisse que não faço diferença efetiva pra vida das pessoas. E eu realmente acredito no potencial da democracia, dos Direitos Humanos, da paz, do multilateralismo, da cooperação Sul-Sul e dessas coisas todas que a gente decora pra mudar o mundo.
Clipping: Qual vai ser o destino do seu material, fichamentos e livros que te acompanhou durante tanto tempo?
Tenho poucos livros, se eu tiver lido 3 inteiros pro CACD é muito. Daí vou ficar com os poucos que tenho, até porque quero ler todos eles agora – apesar de saber Casa Grande & Senzala quase de cór (graças a essa incrível habilidade que o CACD nos dá de falar com propriedade daquilo que nunca lemos), por exemplo, é um livro que raramente saiu da minha prateleira.
Fichamentos eu não posso oferecer pra ninguém porque vai atrapalhar mais do que ajudar – escrevo de uma forma, digamos, sui generis. Os muitos textos que tenho impressos e em PDF, aí sim, pretendo doar e compartilhar com quem tiver interesse.
Momento bate-bola para fechar a entrevista:
Uma banda: My Brightest Diamond
Uma ferramenta do Clipping: Seleção de notícias nacionais
Um livro: Ensaio sobre a Cegueira
Uma diplomata inspiradora: Maria Luiza Viotti, claro!
O momento mais baixo astral de todos esses anos estudando CACD: reprovação em 2015 – por mais que eu esperasse, a gente sempre sente um baita desânimo de ter que começar tudo de novo…
A cor do seu vestido no dia da posse: Surpresa 😛
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