[icon name=icon-quote-left]Diplomata atualmente lotado junto à Missão Permanente do Brasil nas Nações Unidas, chefiada pelo Embaixador Antonio Patriota, Thomaz Napoleão teve como primeiro posto no exterior a Embaixada do Brasil em Islamabade. Ingressou no Itamaraty em 2009 e, paralelamente ao curso de formação no Instituto Rio Branco, passou pela Secretaria de Planejamento Diplomático do MRE, unidade que assessorava o então ministro das Relações Exteriores Celso Amorim. Já são cerca de 5 anos dedicados à carreira diplomatíca, mas a experiência de Thomaz com temas internacionais vem de outras datas e de outros ofícios. Antes de ingressar em 1º lugar no Itamaraty, atuou como Assessor Internacional do MEC e, desde estudante , já organizava simulações das Nações Unidas no Brasil, na Rússia, na Turquia e na França. Como fotógrafo documental, vem expondo desde 2005. Seus portfólios podem ser acessados em http://napoleaophoto.com/
[icon name=icon-quote-left] Hoje se fala muito em twitdiplomacy, facebook diplomacy. No entanto, poucos diplomatas brasileiros usam de forma estratégica as redes sociais para expressarem opiniões, para falarem de suas rotinas de trabalho, etc. Você, ao contrário, mostra bastante desenvoltura no meio digital. Quais são os benefícios e os riscos a que um diplomata se sujeita por estar ativamente conectado às redes sociais?
[icon name=icon-user] Nos debates sobre privacidade digital na ONU, o Brasil postula que os direitos humanos e as obrigações internacionais dos Estados são igualmente válidos no mundo “real”, fora da internet, e nos ambientes virtuais. Da mesma forma, acredito que não há distinção entre as atividades “online” e “offline” de um diplomata. Representamos o Brasil 24 horas por dia, queiramos ou não. Sem detrimento de nossas opiniões pessoais, que também são sagradas, precisamos acordar para o fato de que tudo o que escrevemos pode e deve ser objeto de escrutínio na sociedade. Afinal, política externa também é política pública.
Se a exposição midiática é inevitável, é preciso usá-la de maneira positiva e pró-ativa, pautando o debate público e promovendo nossos valores, interesses e perspectivas. Defender-se e reagir já não basta. Devemos legitimar nossas ações não apenas externamente, perante outros Estados, mas também na esfera doméstica, junto à imprensa, à sociedade civil e à academia. Para um diplomata, esse é um aprendizado permanente. Um exercício às vezes arriscado, mas indispensável.
[icon name=icon-quote-left] Falando ainda em internet e redes sociais, você foi editor do Blog Jovens Diplomatas, que surgiu em 2011. Nesse época, o Itamaraty nem tinha ainda chegado a institucionalizar seu conceito recente de Diplomacia Pública. Ao contrário do Foreign Office britânico, que encoraja e orienta os diplomatas a manterem blogs pessoais e expressarem opiniões pessoais dentro do site oficial do Foreign Office (http://blogs.fco.gov.uk/ ), o Itamaraty optou por um blog impessoal, dentro do site oficial do MRE, o Blog Diplomacia Pública. Você acredita que iniciativas que o Jovens Diplomatas podem inspirar maneiras mais criativas de explorar canais de diálogo entre o MRE e a sociedade civil?
[icon name=icon-quote-left] Creio e espero que sim. O objetivo do blog era – e ainda é, pois ele continua na ativa, hoje em transição para uma nova geração de autores – desmistificar o cotidiano e a prática de nossa carreira para o grande público. Era particularmente necessário derrubar as noções obsoletas, preconcebidas e nocivas da diplomacia como algo vagamente glamouroso e nababesco. Nos meus anos em Islamabade e em Nova York, passei muito mais tempo lidando com gente comum, como jornalistas, estudantes e até refugiados, do que com Presidentes, Ministros e magnatas. O blog conta histórias assim.
Cabe aqui uma observação importante: embora o blog seja independente e não-oficial, sua criação foi endossada pelo Itamaraty, por meio da Assessoria de Imprensa do Gabinete, em meados de 2011. Nossa proposta sempre foi apoiar e complementar – jamais contradizer – as mídias sociais do MRE, algumas das quais já existiam.
[icon name=icon-quote-left] Antes de entrar para a carreira, você teve uma experiência profissional diversificada, tendo atuado com repórter e como Assessor Internacional do MEC, por exemplo. Boa parte dos candidatos dedicam-se integralmente aos estudos para o CACD e, ao passarem, tem o cargo de terceiro-secretário como primeira experiência profissional. Existe uma diferença de perfil entre o diplomata recém-empossado que optou por se focar 100% no CACD e o diplomata recém-empossado que já traz uma bagagem profissional?
[icon name=icon-user] Sem dúvida. Ainda que a diplomacia tenha ritmo e lógica particulares, difíceis de comparar com qualquer outra carreira, quem já foi exposto às rotinas, às hierarquias e às pressões do mercado de trabalho poderá se adaptar melhor ao dia-a-dia do Itamaraty. Além disso, é muito positivo ter conhecimento anterior – seja teórico ou empírico – de assuntos vitais em política externa, como segurança internacional, direitos humanos e comércio exterior.
Mas não convém exagerar a importância disso tudo; quem entra no MRE logo após a faculdade pode perfeitamente aprender, na prática e aos poucos, todas as ferramentas necessárias para a carreira.
[icon name=icon-quote-left] Ainda sobre o CACD, convidamos você a responder a pergunta que fazemos a todos nossos entrevistados: se lhe fosse dada autonomia total para reformular o concurso de admissão à carreira diplomática, o que manteria e o que mudaria?
[icon name=icon-user] Penso, de modo geral, que o atual formato do concurso é adequado e contribui para manter a excelência e o profissionalismo de nosso serviço exterior. Ainda assim, seria possível aprimorar alguns aspectos, gradualmente.
Como disse na questão anterior, a vivência profissional e a bagagem acadêmica dos diplomatas são elementos importantes para o desempenho de suas atividades. Um candidato com anos de experiência no setor privado, no serviço público, na imprensa ou em ONGs, e que tenha mestrado ou doutorado em área conexa à diplomacia (digamos, relações internacionais, economia, sociologia ou direito), provavelmente terá mais a contribuir do que um recém-saído da graduação. Por isso, seria interessante acrescentar ao CACD uma análise de currículo e uma prova de títulos, ainda que com peso reduzido – talvez 5% da nota final, o que já seria suficiente para mudar sensivelmente o resultado final do concurso.
Além disso, considerando que o MRE ainda tem déficit de falantes de árabe, mandarim e russo, três idiomas oficiais das Nações Unidas que são curiosamente tidos como “exóticos” no Brasil, poderíamos adotar um modelo semelhante ao do CACD 2008, quando era possível optar por fazer a quarta fase em uma dessas línguas – mas sem prejuízo do francês e do espanhol, que de fato são indispensáveis e precisam continuar.
Enfim, creio que as cotas raciais hoje existentes, uma vez complementadas por entrevistas aos candidatos, deveriam ser válidas para todas as etapas do CACD, e não apenas a primeira fase. Ou seja, haveria uma efetiva reserva de vagas, como sugeriu uma petição pública ao MRE em 2013. A proporção de afrodescendentes na diplomacia brasileira ainda é constrangedoramente baixa para um país com 50% de negros ou pardos, e precisamos de instrumentos mais efetivos para elevá-la.
[icon name=icon-quote-left] Analisando alguns dados do MPOG e do próprio MRE, percebemos que em 2003, a fatia do MRE no Orçamento do Executivo era de 0,5%; em 2010 caiu para 0,33%; em 2014, para 0,28%. O Itamaraty interpreta esses cortes como resultantes de um ajuste conjuntural. Nas palavras do Chanceler Mauro Vieira, em entrevista à Folha: “Todos os ministérios tiveram dificuldades, mas é passageiro. Ninguém pode admitir que haja reduções ou cortes constantes, perenes”. Como você, que transita diariamente pelos corredores da ONU, percebe as impressões das demais delegações sobre as dificuldades orçamentárias pelas quais o MRE passa hoje? Nos bastidores da diplomacia, como outros países vem interpretando as limitações materiais impostas a uma das chancelarias mais prestigiadas do mundo?
[icon name=icon-user] Existem constrangimentos, não se pode negar, mas são superáveis. A credibilidade internacional do Brasil é sólida, foi cuidadosamente construída ao longo de décadas e não poderia ser desfeita por uma situação passageira. Aliás, o Brasil não é o único país cuja ação exterior tem dificuldades orçamentárias; diversas Chancelarias europeias chegaram a fechar Embaixadas nos últimos anos, uma medida muito mais drástica a que, felizmente, o MRE não precisou recorrer. Com a dedicação e a liderança do Ministro Vieira e do Secretário-Geral Danese, cujos discursos de posse foram muito bem recebidos, tenho certeza de que logo voltaremos aos tempos de bonança.
Acrescento que hoje, pela primeira vez, centenas de diplomatas brasileiros são sindicalizados. Essa é uma mudança de paradigma, algo muito positivo. Não estamos indiferentes aos problemas atuais e queremos colaborar na busca de soluções.
[icon name=icon-quote-left] Desde 2010, você leciona Política Internacional no Curso Atlas. São mais de 4 anos trabalhando com preparação para candidatos à carreira diplomática. Muitos consideram que, nos últimos anos, a prova de PI tem passado por mudanças.Por exemplo, a questão aberta de PI do CACD 2014, cujo comando pedia para o candidato apresentar “sugestões” para a Diplomacia Pública, seria bem atípica. Para o curso de 2015, seus alunos podem esperar novidades no cronograma, como algum tópico a merecer mais ênfase?
[icon name=icon-user] Embora o CACD seja historicamente marcado pela continuidade e até pela previsibilidade, é inevitável que haja nuances a cada ano, em função do surgimento de novos desafios de política externa e de novas prioridades por parte do IRBr.
Além dos temas tradicionalmente suscitados pela banca de PI, como a integração regional e as principais parcerias bilaterais do Brasil, acredito que o concurso de 2015 também poderá enfocar temas multilaterais, a exemplo da formulação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que dão seguimento à Rio+20, e das três revisões de alto nível (operações de paz; construção da paz; e mulheres, paz e segurança) promovidas pela ONU em 2015, quando a Organização completa 70 anos. Essas são batalhas diplomáticas da maior magnitude, e que têm no Brasil um de seus protagonistas.
Dito isso, como sempre repito a meus alunos do Curso Atlas, tudo o que interessa ao Brasil também importa para a prova de PI. É indispensável manter-se informado e atualizado. [icon name=icon-vk]
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