A cultura pode ser compreendida como os comportamentos e tradições de um grupo social, é como um complexo de atividades e padrões.
Mas você sabia que a cultura pode ser utilizada na diplomacia?
Sim, a cultura é um poderoso instrumento que influencia a nossa visão de mundo, seja como enxergamos outros países ou como outras pessoas enxergam a nossa nação.
Nesse post nós vamos te explicar o que é a diplomacia cultural, como é feita a diplomacia cultural brasileira e como ela é utilizada por outros países.
O que é diplomacia cultural?
A diplomacia cultural pode ser definida como a ação dos países para difundir sua produção cultural no exterior, assim como também receber a produção cultural estrangeira em seus territórios nacionais (NOVAIS, 2013). Esse tipo de diplomacia é utilizada como uma das ferramentas dos Estados para promover sua própria cultura por meio de ações simbólicas.
A diplomacia cultural é realizada em diversas partes do mundo e em diferentes períodos, indo além da promoção de políticas culturais, ela visa a operação da cultura e a implementação de políticas que buscam facilitar e promover os fins de política externa ou diplomacia de um país e/ou região (GOMES, 2015).
Para Gomes (2015, p. 1), a prática da diplomacia cultural é conduzida por governos e possui uma “qualidade de promoção oficial de uma imagem ou de uma ideia, de valores, que constituem a essência de um país”, e essa ação diplomática busca conquistar um lugar especial no cenário internacional, que, consequentemente, facilita e favorece outros temas da política externa.
A diplomacia cultural como um Soft Power
Em meados de 1930, E. H. Carr já estudava sobre poder político no âmbito internacional e o definiu em três tipos: o poder militar, o poder econômico e o poder sobre opinião. Os dois primeiros tipos de poder, o militar e econômico, são facilmente compreendidos devido às suas capacidade de garantir a influência de um Estado no cenário internacional; enquanto o terceiro tipo, o poder sobre opinião, é a capacidade de influenciar as percepções das pessoas.
Por muito tempo os EUA eram considerados a única superpotência do mundo, enquanto meios econômicos e militares, sobretudo após o período da Guerra Fria. Porém, os EUA não conseguiram prever ou evitar o atentado de 11 de setembro, o maior ataque militar sofrido pelo país. A partir daí, Joseph Nye iniciou seus estudos sobre poder e cunhou os termos Soft Power e Hard Power (RUTHE, 2023).
Para Nye, o Hard Power (poder duro) busca influenciar o outro por meios da força, seja por militares, sanções econômicas ou até mesmo incentivos financeiros. Esse tipo de poder está relacionado com a capacidade bélica e econômica de um país.
Enquanto o Soft Power (poder brando) é compreendido como uma habilidade de moldar os desejos de outro, exercendo uma influência indireta com a atração.
O Soft Power é entendido como um terceiro meio utilizado pelos países para alcançar seus objetivos de política externa. Ele funciona como um poder imaterial, em que um país, por meio do encanto e prestígio, exerce influência sobre outro (GOMES, 2015).
Gomes (2015) defende que a diplomacia cultural é uma ferramenta do Soft Power, pois a cultura é um importante diferencial para os países no âmbito das relações internacionais, visto que é nessa aproximação internacional que há as trocas culturais entre as nações que favorece a aquisição de outros objetivos como política, economia e comércio.
A diplomacia cultural brasileira
Conforme Ribeiro (2011), a diplomacia cultural pode abranger as seguintes ideias:
- intercâmbio de pessoas;
- promoção da arte e dos artistas;
- ensino da língua como um veículo de valores;
- distribuição integrada de material de divulgação;
- apoio a projetos de cooperação intelectual;
- apoio a projetos de cooperação técnica;
- integração e mutualidade na programação.
O intercâmbio cultural difundido pela diplomacia cultural possibilita a transferências de ideias e experiências, auxiliando na minimização dos julgamentos fundamentados em estereótipos (GOMES, 2015).
Gomes (2015) esclarece que, no final do século XIX, o Brasil passou a buscar uma imagem que representasse a nação, um caráter nacional, mas que ainda tentava se encaixar nos moldes da civilização europeia, tentando se afastar do passado africano e mestiço que marcaram a história do país. Por isso, a elite brasileira da Primeira República promoveu uma projeção do Brasil tentando afastar essa herança colonial, de modo que as características físicas e comportamentais dos diplomatas e funcionários brasileiros em missões no exterior se aproximavam do modelo europeu.
Com a chegada do século XX muitas mudanças ocorreram na sociedade brasileira, sobretudo com o Movimento Modernista de 1920, considerado um grande transformador na construção da identidade nacional. Figuras como Mário de Andrade e Oswald de Andrade defendiam a multiplicidades das raízes da cultura brasileira, pois era esse o seu componente de originalidade e preciosidade (GOMES, 2015).
Foi com Getúlio Vargas que o Estado iniciou um papel ativo na modelagem da cultura brasileira, com a incorporação de elementos populares e com a busca pelo desenvolvimento nacional.
No início do século XXI começa-se a observar a cultura como elemento protagonista de um novo projeto de desenvolvimento nacional, já que antes era tratada como uma questão secundária. Conforme Novais (2013), entre 2003 e 2010, o Brasil demonstrou uma progressão no número de ações culturais internacionais veiculadas pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE), Ministério da Cultura (MINC) e Ministério da Educação (MEC).
O MRE contou com a função de divulgar a cultura brasileira no exterior por meio dos seus departamentos, que são eles:
- Divisão de Promoção da Língua Portuguesa (DPLP);
- Divisão de Operações de Difusão Cultural (DODC);
- Divisão de Assuntos e Acordos Multilaterais (DAMC);
- Divisão de Temas Educacionais (DCE);
- Coordenação de Divulgação (DIVULG);
- Divisão de Promoção do Audiovisual (DAV).
O principal objetivo cultural do MRE é a difusão da língua portuguesa. O ensino se concentra nos Centros Culturais Brasileiros (CCBs), além de também realizarem exposições, concertos, seminários, palestras e outras iniciativas. Atualmente, são 24 CCBs espalhados pelo mundo, 6 na África, 13 nas Américas, 3 na Europa e 2 no Oriente Médio (BRASIL, 2023).
No Ministério da Cultura foi criado o Comissariado da Cultura Brasileira no Mundo (CCBM), que realizou atividades relevantes para a diplomacia cultural, entre eles temos o “Ano do Brasil da França – Brésil, Brésils” e a “Copa da Cultura” na Alemanha (NOVAIS, 2013).
Já no MEC, as ações de diplomacia cultural ocorreram na representação do Brasil nas organizações internacionais para firmar acordos de cooperação educacional. Como exemplo, podemos citar o Projeto Escola Intercultural Bilíngue de Fronteira (PEIBE), projeto feito entre Brasil e Argentina que promovia o intercâmbio de docentes do Mercosul (NOVAIS, 2013).

Como outros países fazem diplomacia cultural?
- França
Segundo Gomes (2015), na França, a prática da diplomacia cultural começa nos reinados de Luís XIII e XIV, que difundiam a língua e cultura francesa na Europa, Canadá e Oriente Médio. O país francês foi desenvolvendo e aprimorando sua forma de propagação de cultura de forma diplomática, e chegou a promover mais de 26 mil manifestações culturais por ano.
Para a França, a difusão da língua foi um dos principais objetivos da política externa, o que justifica os mais de 100 liceus, 250 centros culturais e mais de 1 mil filiais da Aliança Francesa, com cerca de 500 mil alunos matriculados. Sem contar o intercâmbio de bolsistas que ampara cerca de quinze mil estrangeiros por ano (RIBEIRO, 2011).
A propagação de uma língua estrangeira pode até parecer não ter retorno, mas Ribeiro (2011) explica que essas atividades geram exportações de mais de 70 milhões de dólares ao ano em produtos editoriais, refletindo a grande interação entre o governo e a indústria editorial.
- Alemanha
A Alemanha também foi uma das pioneiras na diplomacia cultural, a política externa do país era condicionada por dois fatores: o passado nazista e a divisão do país. Diferente da França, a Alemanha buscava atividades culturais centradas na cooperação e em projetos de parceria (RIBEIRO, 2011).
De acordo com Ribeiro (2011), os órgãos de administração direta da Alemanha também atuavam no campo da cultura. Na esfera dos ministérios, o da Economia apoia a exportação de obras literárias e cinematográficas, o de temas Pangermânicos é responsável pelos aspectos da divulgação internacional do país, o do Interior é quem supervisiona os institutos históricos e arqueológicos alemães no exterior. Sem contar o departamento de imprensa que fornece à rede diplomática e consular alemã materiais informativos sobre o país.
No campo dos estudos, o DAAD possui um orçamento anual de US$ 60 milhões e é o responsável pela assistência aos estudantes estrangeiros alocados na Alemanha e aos bolsistas alemães no exterior; a Fundação Humboldt conta com um orçamento anual de US$ 20 milhões e tem como responsabilidade recrutar bolsistas de pós-graduação; e o Instituto Goethe administra a rede de 170 centros de estudos alemães no exterior (RIBEIRO, 2011).
- Reino Unido
Conforme Ribeiro (2011), a aplicação das atividades de difusão cultural do Reino Unido no exterior é encarregada a três agências especializadas: Central Office of Information (COI), British Broadcasting Corporation (BBC) e o British Council (Conselho Britânico).
O COI atua no plano interno e externo, possui cerca de 700 funcionários e um orçamento anual de 23 milhões de dólares. O COI é responsável pela produção de material informativo e publicitário, direção de campanhas de utilidade pública, realização de filmes, exposições e outras mostras visuais.
A BBC mantém suas transmissões para a maioria dos países do mundo, em 26 línguas, sua programação é fundamentada em noticiários, atualidades, comentários políticos, cobertura esportiva, musical, literária e teatral, divulgando no exterior a vida e cultura do Reino Unido.
Já o Conselho Britânico é responsável pelo ensino da língua, formação de professores de inglês, intercâmbio acadêmico e profissional, organização de concertos, exposições, feiras literárias e mostras teatrais.
Citamos acima apenas três países que se preocupam com a atividade cultural na diplomacia e que investem significamente nessa área.
O Brasil mudou a forma que era visto pelo mundo. Antes era considerado um país baseado na agricultura e com precárias condições para a indústria. Hoje, mesmo com os ciclos de crise econômica recentes e multifatoriais, o Brasil se coloca como uma liderança regional e país chave para o debate de questões de meio ambiente em âmbito global. Considerado como o gigante do Sul, atualmente, o Brasil é a 12ª maior economia do mundo.

Referências
BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Centros Culturais Brasileiros. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, [2023?]. Disponível em:<http://redebrasilcultural.itamaraty.gov.br/menu-a-rede/menu-centros-culturais>. Acesso em: 28 jun. 2023
GOMES, Aline Burni Pereira. Percepções, imagens e diplomacia cultural: algumas considerações sobre o caso brasileiro. Revista Estudos Políticos, v. 6, n. 12, p. 443-465, 2015.
NOVAIS, B. V. Caminhos trilhados, horizontes possíveis: um olhar sobre a diplomacia cultural do Estado brasileiro no período de 2003 a 2010. Salvador: dissertação de mestrado, Universidade Federal da Bahia, 2013.
RIBEIRO, E. T. Diplomacia Cultural: seu papel na política externa brasileira. Brasília: Fundação Alexandre Gusmão, 2011.
RUTHE, Aline. Soft Power e Hard Power: entenda a diferença!. Politize!, 2023. Disponível em:<https://www.politize.com.br/soft-power-hard-power/> . Acesso em: 28 jun. 2023
No comment yet, add your voice below!