As comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil ainda não acabaram. A data é especial e significativa para os brasileiros, que se inspiram no fato e criam novas formas de contar a história do país.
Conheça a história em quadrinhos (HQ) que irá contar as aventuras de três alunos do ano 2122 que odeiam história, mas viajaram no tempo e viram de perto a independência do Brasil.
A HQ foi criada a pedido do Consulado-Geral do Brasil em Houston, escrita por João Daniel e conta com ilustrações de Nestablo Ramos. O material possui distribuição gratuita.
O Clipping entrevistou os três responsáveis pelo projeto, conversa que você pode conferir a seguir.

Como surgiu a ideia?
O material foi elaborado a pedido do Consulado-Geral do Brasil em Houston e seu Setor Cultural e Educacional, chefiado pelo diplomata Daniel Guilarducci. A HQ foi pensada como um programa cultural do Consulado para 2022, pois, devido a Covid-19, não haviam certezas quanto às possibilidades de eventos presenciais.
Além disso, o material foi pensado para celebrar o bicentenário e ser usado em diversos postos no exterior, pelos centros culturais do Instituto Guimarães Rosa, por professores e familiares.
“Um evento é importante, é legal, mas ele passa. Uma publicação pode ser redescoberta para sempre. Como sou fã de histórias em quadrinhos desde criança e sei que o Brasil tem uma produção cada vez mais significativa nessa arte, resolvi propor a ideia para Brasília e fico feliz de ter podido implementá-la. Fico mais feliz ainda por ter trazido duas pessoas extremamente competentes (e meio doidas…) para criar o projeto”, declara D.G.Ducci.
A versão em língua portuguesa da HQ atende as iniciativas de diplomacia cultural voltadas para a difusão do português, seja como língua de herança ou como segunda língua. Segundo D.G.Ducci, a versão inglesa será lançada em breve, e poderá alcançar leitores de vários países, além de mostrar o talento do Nestablo e do João Daniel, e também mais informações e curiosidades ligados à Independência do Brasil. O Instituto Guimarães Rosa recebeu uma versão editável, onde outras Embaixadas e Consulados poderão traduzir a história e as notas para outras línguas.
“Esse tipo de exposição a um produto cultural brasileiro, especialmente na infância e na juventude, pode estabelecer laços afetivos com o Brasil e ajudar a reforçar nossa imagem de formas mais profundas – embora talvez menos óbvias – do que a ‘alta política’ ou as relações comerciais com os países. Eu sou um entusiasta da diplomacia cultural”, comenta o diplomata.
O processo criativo da HQ
Para o professor João Daniel, escritor da história, escrever uma HQ era um sonho pois é fã dos quadrinhos e até aprendeu a ler com as histórias do Pato Donald e da Turma da Mônica. Mesmo conhecendo a linguagem deste gênero textual, João Daniel também leu obras sobre como escrever quadrinhos, por exemplo “Arte Sequencial” do Will Eisner.
O professor também teve ajuda da quadrinista brasileira Luciana Cafaggi, a qual compartilhou trabalhos inéditos, bibliografias e colaborou na revisão do texto. E também contou com o auxílio da escritora Socorro Acioli, que possui uma oficina de leitura e escrita criativa no Ceará, ganhadora do prêmio Jabuti e que fez curso com o escritor Gabriel García Márquez.
“Embora como escritor este seja o meu primeiro trabalho em quadrinho, eu já estudava isso há bastante tempo, mas eu tive ajuda (…), então eu fui mais longe porque estava sobre o ombro de gigantes”, complementa o professor.
O artista Nestablo Ramos, ilustrador do Esquadrão do Tempo 2122, começou sua carreira em 1993 e se dedica a projetos sobre conscientização ambiental por meios de quadrinhos e animações. A maioria dos seus trabalhos, como Aventuras na Hidrosfera, possuem a temática de aventura, que, para o ilustrador, é um “ingrediente perfeito para uma história de viagem no tempo brasileira”.
Marcado por muitas reuniões, o trio conversou bastante para definir qual seria o universo do Esquadrão do Tempo 2122, além de apresentar esboços e estabelecer as linhas narrativas.
“Nas primeiras reuniões falamos sobre os gêneros que poderíamos abordar. Viagem no tempo foi o que mais se destacou pela relevância que teria para o projeto e por não haver nada publicado nesse estilo, aparentemente. Era a chance perfeita de inovar. A ideia é incrível e dá muito certo”, afirma Nestablo.
A presença da identidade cultural brasileira na história
Os personagens e diversos detalhes da história possuem grande influência da cultura popular brasileira, seja nos nomes e traços físicos dos personagens, quanto nas camisas de times de futebol e no clássico vira-lata caramelo.
Conforme apontou Nestablo Ramos, essas referências foram necessárias para estabelecer a ligação com o leitor brasileiro, além de ser importante para os criadores. “Elas também auxiliam a diferenciar em que época os personagens estão, fazem parte da história do Brasil, não apenas da independência dele”, comenta o ilustrador.
O Prof. João Daniel nos conta que o vira-lata caramelo entra na história por meio de um pedido da diplomata Sarah Venites, que quando soube que o professor iria escrever uma história em quadrinhos, pediu para incluir o animal no enredo.
Para adicionar as músicas da época, o professor buscou no Dicionário da Música Popular Brasileira quais eram as canções tocadas nas rádios em 1972, onde duas delas lhe chamaram a atenção, “Águas de março” e “Expresso 2222”. “Eu fiz até uma playlist sobre 1972 que eu ficava ouvindo enquanto fazia o roteiro, mas várias dessas músicas tiveram que sair por causa do tamanho”, explica João Daniel.
Por se tratar de uma viagem no tempo, a história se inicia no futuro, em 2122, por isso percebemos nas ilustrações uma mescla da cultura brasileira com os elementos futurísticos. Nestablo afirma que as referências brasileiras são abundantes, sendo o povo e a diversidade o seu principal, pois mostrar que a nossa diversidade continua firme e forte no futuro, nos dá uma sensação de tranquilidade. “Outra de minhas inspirações favoritas é a nossa versão do futuro. Era óbvio usar o nosso famoso arquiteto Oscar Niemeyer como referência para as cidades brasileiras futurísticas. Ele estava à frente de seu tempo”, pontua o Nestablo.
As ações do MRE para as comemorações do bicentenário
O diplomata D.G.Ducci declara que o Itamaraty é um dos ministérios no mundo pioneiro no estabelecimento da diplomacia cultural, que desde a década de 1920 já pensa na diplomacia cultural como um instrumento de inserção e forma de defesa dos interesses do Brasil no mundo. “Claro que muita coisa mudou ao longo das décadas, e este ano de 2022 marcou mais um passo na maturação dessa ação cultural diplomática, com a criação do Instituto Guimarães Rosa”, complementa Daniel Guilarducci.
Entre as iniciativas tomadas para a comemoração do Bicentenário da Independência que ele destaca estão a apresentação das dezoito “Cartas Celestes” de Almeida Prado feita por cinco pianistas durante as Jornadas do Patrimônio da Embaixada do Brasil em Paris. As cartas nunca haviam sido apresentadas na íntegra em formato de concerto.
Além dela, o diplomata comenta sobre a tradução de cinco obras inéditas da literatura brasileira para o japonês, produzida pela Embaixada do Brasil no Japão. Entre as obras estão “Vidas Secas” de Graciliano Ramos e “As meninas” de Lygia Fagundes Telles.
E também, a inauguração de um painel de Eduardo Kobra em uma das fachadas do prédio da ONU.

“Aqui mesmo em Houston teremos novidades em breve: o lançamento de um jogo de cartas para estímulo do português como língua de herança; um e-book com biografias de doze grandes personalidades brasileiras nos últimos 200 anos; um musical baseado na literatura de cordel que contará ‘A grande peleja desta brava gente brasileira até a Independência’”, conclui D.G.Ducci.
Ressaltamos que a história em quadrinho foi feita com recursos públicos e deve ser distribuída gratuitamente, sendo terminantemente vedada a sua comercialização.
E aí, o que você achou deste novo formato de comemoração do bicentenário?
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