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Do Rio para o mundo: o sucesso internacional do “Bruxo do Cosme Velho”

Especialistas discutem se Machado de Assis, publicado em 24 países e traduzido para 35 idiomas, tem o reconhecimento que merece no exterior

“A vida é boa!”. A frase ao lado, segundo relato do amigo e crítico literário José Veríssimo (1857-1916), teria sido a última proferida por Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). No sobrado da Rua Cosme Velho, 18, onde morou dos 45 aos 69 anos, o escritor carioca morreu às 3h45 da madrugada de 29 de setembro de 1908, vítima de câncer na boca. O autor de obras-primas da literatura brasileira, como os contos O Alienista (1882), A Cartomante (1884) e Missa do Galo (1893), e os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899), morreu sem realizar seu grande sonho: conhecer a Europa. “A única vez em que se ausentou do Rio, entre dezembro de 1878 e março de 1879, foi para tratar de uma infecção nos olhos que o impedia de ler, na cidade de Nova Friburgo, na região serrana”, revela o escritor Luiz Antônio Aguiar, autor de Almanaque Machado de Assis – Vida, Obra, Curiosidades e Bruxarias Literárias (Editora Record). 

Bem, se Machado de Assis nunca colocou os pés fora do Brasil, alguns de seus personagens, como Bentinho, Capitu e Escobar, três dos mais famosos, já percorreram os quatro cantos do mundo. As obras do escritor, segundo estimativas conservadoras, já foram publicadas em 24 países e traduzidas para 35 idiomas, do chinês ao árabe, do catalão ao grego, do sueco ao croata. Só para citar um exemplo: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), considerada por muitos a obra-prima do autor, já virou Epitaph of a Small Winner (Epitáfio de Um Vencedor Medíocre) em inglês, Mémoires d’Outre-Tombe de Braz Cubas (Memórias de Além-Túmulo de Brás Cubas) em francês e En Vranten Herres Betragtninger (Considerações de Um Rabugento) em dinamarquês. 

“Acredito que o sucesso de Machado de Assis fora do Brasil esteja intrinsecamente ligado ao modo como ele construía seus textos. Ele priorizava os problemas humanos, ao mesmo tempo universais e brasileiros, em detrimento de uma cor local muito marcada, como acontecia no Romantismo”, observa Luiza Helena Damiani Aguilar, mestranda em Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP). “No afã de estabelecer uma literatura nacional, os escritores que passaram a publicar literatura logo após a Independência do Brasil, em 1822, tentaram buscar nos indígenas e na natureza os elementos da identidade brasileira”. 

Falando assim, dá até para cravar que Machado de Assis é o nosso escritor mais traduzido, certo? Errado! Na lista dos autores de língua portuguesa com mais títulos traduzidos, segundo levantamento da UNESCO, ele ocupa um modesto 10º lugar, atrás de cinco brasileiros (Paulo Coelho, Jorge Amado, Leonardo Boff, José Mauro de Vasconcellos e Clarice Lispector) e quatro portugueses (José Saramago, Fernando Pessoa, António Lobo Antunes e Eça de Queirós). “Machado de Assis é um autor de prestígio, mas ainda restrito a pequenos círculos. Para o público em geral, ainda é rara sua inclusão no grupo de grandes autores da literatura universal do final do Século XIX e início do Século XX”, explica Fábio Lima, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e coordenador do Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior, da Fundação Biblioteca Nacional (FBN). “A manutenção de um apoio à difusão da literatura brasileira é fundamental para que a obra de Machado possa atrair bons projetos editoriais no exterior e que compreendam uma divulgação à altura. Um programa de apoio que leve em consideração não só o aspecto da publicação, mas também da formação e do apoio direto ao tradutor e leitor estrangeiro”. 

De 1979 até 2012, ainda segundo dados da UNESCO, Machado de Assis totalizou 97 traduções e Paulo Coelho, o nº 1 da lista, 1.166. A título de curiosidade, a escritora mais traduzida do planeta – pelo menos até então – era a inglesa Agatha Christie (1890-1976), com 7.216 traduções. “A repercussão internacional de um autor não depende exclusivamente da qualidade de sua obra. Essa qualidade, aliás, é pouco relevante. A mais traduzida do mundo é a Agatha Christie. Embora seja uma ótima autora, está muito longe de ser um ‘clássico’”, afirma o jornalista, tradutor e editor Felipe Lindoso. 

Machado de Assis pode até não ser o mais traduzido. Mas, é, certamente, o mais estudado. Aqui e lá fora. É o que revela dois estudos, um da Universidade de Brasília (UnB), realizado pela doutora em Literatura e Práticas Sociais, Laetícia Jensen Eble, com 2,1 mil doutores em literatura brasileira no país; e outro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), coordenado pelo professor de Literatura Comparada, João Cezar de Castro Rocha, com 224 pesquisadores residentes no exterior. No primeiro trabalho, Machado de Assis ocupa o topo da lista, com 122 citações, e deixa para trás nomes como Guimarães Rosa (100), Clarice Lispector (63) e Graciliano Ramos (54). No segundo, são 135 menções. Depois dele, vieram Clarice Lispector (117), Guimarães Rosa (102) e Jorge Amado (82). “Machado de Assis é o meu escritor favorito”, garante Earl Fitz, professor do Departamento de Português e Espanhol da Universidade de Vanderbilt, nos EUA. “Ele é original, tanto na forma quanto no conteúdo. Além disso, é instigante e engraçado. Ele nos faz rir, mas também nos faz pensar. Sempre se aprende algo, não só sobre literatura, mas, também sobre a vida, lendo Machado de Assis”. 

O ‘Bruxo do Cosme Velho’ ostenta outro título, digamos, um tanto inusitado. É o autor nacional mais citado nas provas do Itamaraty. Só nos últimos 15 anos, seu nome foi citado, direta ou indiretamente, 12 vezes. Qual a razão disso? Quem responde é o poeta, ensaísta e diplomata Felipe Fortuna. “Machado de Assis ainda é considerado o nosso maior escritor. É um autor de impressionante comunicabilidade e, ao mesmo tempo, mestre das sutilezas e dos subentendidos do texto. Apenas observo que, na prova, o/a diplomata não precisa avaliar a obra machadiana. O que se espera é que, a partir da citação ou das ideias de um escritor, faça uma boa prova de língua portuguesa, tanto na parte de interpretação quanto em fatos gramaticais”, explica.

Não tereis nada a ganhar

O primeiro título de Machado de Assis a ser traduzido para o exterior não poderia ter sido outro: Memórias Póstumas de Brás Cubas. Foi em 1902, no Uruguai. Apenas três anos depois, Esaú e Jacó (1904) também ganhou versão em espanhol – dessa vez, para a Argentina. Não foi por falta de tentativa, vale ressaltar, que o escritor não fora traduzido há mais tempo. Em junho de 1899, Machado chegou a escrever uma carta para seu editor em Paris, François-Hippolyte Garnier (1816-1911), que detinha os direitos de boa parte de sua obra, solicitando autorização para Alexandrina Highland traduzir Memórias Póstumas de Brás Cubas para o alemão. O sonho de fazer sucesso no exterior era tanto que, na ocasião, Machado abriu mão de receber qualquer quantia em troca. 

Menos de um mês depois, a resposta do editor chegou. Desanimadora, para dizer o mínimo: “Não sabeis que, por melhor que seja a tradução, um autor perde originalidade em outro idioma? Seus admiradores preferem lê-lo em sua língua materna. Não tereis nada a ganhar ao ser traduzido para o alemão”. Não satisfeito, Garnier ainda disse que, se Alexandrina quisesse realmente traduzi-lo, teria que pagar cem francos – valor considerado abusivo por alguns estudiosos – por cada volume. 

Em 1910, dois anos depois de sua morte, Machado teve suas duas primeiras obras lançadas na Europa: Quelques Contes, versão de Adrien Delpech para Várias Histórias (1896), na França; e Don Casmurro, traduzido por Rafael Mesa López, na Espanha. A propósito, Machado de Assis só veio a ser traduzido para o alemão, como ele tanto sonhara, em 1950, pelas mãos de Wolfgang Kayser, o tradutor de Die Nachträglichen Memoiren des Bras Cubas

“Como escritor, Machado de Assis tem a mesma envergadura que alguns de seus contemporâneos, como Henry James, Gustave Flaubert e Fiódor Dostoiévski. Ele foi o primeiro grande intérprete da sociedade brasileira”, afirma Lúcia Granja, doutora em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professora de Literatura e Cultura Brasileiras na Universidade Estadual de São Paulo (UNESP). “Um dos motivos pelos quais acredito que Machado ainda não tenha atingido o devido reconhecimento no exterior é que ele demorou muitos anos para começar a ser traduzido. Houve dois episódios de tradução para o espanhol, mas na América Latina, e não na Europa. Para o francês, que era a língua da maior e mais prestigiosa fatia da produção cultural, Machado de Assis só chegou em 1910”. 

Desde então, quando começou a ser publicado na Europa, Machado de Assis precisou esperar mais de 40 anos até desembarcar nos EUA: em 1951, William Leonard Grossman (1906-1980) traduziu Memórias Póstumas de Brás Cubas e, três anos depois, Clotilde Wilson adaptou Quincas Borba, com o sugestivo título de Philosopher or Dog? Do outro lado do Atlântico, na Inglaterra, a acadêmica Helen Caldwell (1904-1987) traduzia Dom Casmurro para o inglês. Sua versão só chegou aos EUA em 1966. 

William L. Grossman, curiosamente, não era do ramo editorial. Economista pela Universidade de Harvard e advogado pela Universidade de Nova York, ele conheceu a obra de Machado de Assis em 1948 quando recebeu um convite para trabalhar no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), de São José dos Campos (SP). Reza a lenda que ele teria aprendido português lendo a obra de Machado de Assis. Como não encontrou nenhum editor disposto a bancar a publicação, lançou o livro, The Posthumous Memoirs of Bras Cubas, com dinheiro do próprio bolso. 

Já Helen Caldwell, diferentemente de Grossman, era tradutora profissional. Professora do Departamento de Letras Clássicas, da Universidade da Califórnia (UCLA), em Los Angeles (EUA), ela gostou tanto de Dom Casmurro que, em 1960, publicou O Otelo Brasileiro de Machado de Assis (Editora Ateliê), onde defende a tese de que Capitu não cometeu adultério nenhum. Ao longo de sua carreira, Caldwell traduziu três outros romances de Machado: Esaú e Jacó, em 1965; Memorial de Aires, em 1972; e Helena, em 1984. E duas coletâneas de contos: The Psychiatrist and Other Stories e What Went on The Baroness, ambos de 1963. Uma curiosidade: em 1966, Caldwell foi convidada pelo editor americano Alfred Knopf (1892-1984), dono da famosa editora que levava seu sobrenome, para traduzir Guimarães Rosa, mas disse não à proposta. “Sou mulher de um homem só”, brincou. 

Quem também não tinha lá muita experiência com traduções, a exemplo do economista e advogado William L. Grossman, era o pastor britânico Edward Percy Ellis (1879-1963). Em 1918, ele se mudou para o Rio, onde se tornou sócio de uma empresa de importação e fundou uma congregação religiosa. Encomendada pelo Instituto Nacional do Livro (INL), Posthumous Reminiscences of Braz Cubas, versão de E. Percy Ellis para Memórias Póstumas de Brás Cubas, saiu em 1955. 

“As razões por que Machado não circula tanto quanto deveria são várias. Uma delas, talvez a mais importante, é justamente o lugar menor que as literaturas de língua portuguesa ocupam no imaginário norte-americano, que curiosamente é pouco cosmopolita”, afirma Pedro Meira Monteiro, doutor em Teoria Literária pela Unicamp e professor de Literatura Brasileira da Universidade de Princeton, nos EUA. “Não acredito que haja fatores intrínsecos à obra de Machado de Assis que a tornem menos palatável para o gosto internacional. É mais uma questão de traduzir, discutir e colocá-lo no lugar em que ele merece estar. ‘Merece’ não por chauvinismo patriótico, mas pela qualidade literária, que diz muito do mundo em que o autor viveu, mas ensina, também, sobre a loucura da mente humana, que parece estar sendo levada a patamares muito altos nos dias de hoje”. 

Você vai gostar disso!

O cineasta americano Woody Allen conta que, certo dia, recebeu pelo correio um pacote enviado por um remetente brasileiro. Dentro dele, um exemplar de Memórias Póstumas de Brás Cubas e um bilhete: “Você vai gostar disso!”. Como o livro tinha poucas páginas, ele leu. Se fosse grosso, admite, teria jogado fora. “Fiquei surpreso com a leitura, ao mesmo tempo divertida e encantadora. Não podia acreditar que seu autor viveu há tanto tempo. Poderia pensar que, de tão moderno e engraçado, escreveu o livro ontem. É uma obra muito original”, elogiou o diretor de cinema. 

Essa história foi contada ao The Guardian, na edição de 06 de maio de 2011, quando o jornal britânico pediu ao cineasta que listasse seus cinco livros favoritos. Os outros quatro são: O Apanhador no Campo de Centeio (1951), de J.D. Salinger; The World of S. J. Perelman (2000); Really the Blues (1946), de Mezz Mezzrow e Bernard Wolfe, e Elia Kazan: A Biography (2005), de Richard Schickel. O curioso é que, em janeiro de 2006, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, Woody Allen já tinha rasgado elogios a Dom Casmurro. “É maravilhoso! Não muito conhecido nos EUA, infelizmente, embora a tradução que eu tenha lido seja primorosa”. 

O cineasta americano Woody Allen não é o único admirador ilustre de Machado de Assis. A lista é extensa e inclui, entre outros, a americana Susan Sontag (“Espanta-me que um escritor de tal grandeza não ocupe ainda, na literatura universal, o lugar que merece”), o português José Saramago (“Dir-me-ão que se Brás Cubas não fala de Diderot é simplesmente porque não o teria lido. É possível. Mas, então, ninguém me tirará da cabeça que foi Diderot quem leu a Brás Cubas”) e o britânico Salman Rushdie (“Se Jorge Luís Borges é o escritor que tornou Gabriel Garcia Márquez possível, então, não é exagero dizer que Machado de Assis é o escritor que tornou Borges possível”). 

Impressionante, não? Tem mais. O poeta beat Allen Ginsberg descreveu Machado de Assis como “um novo Franz Kafka”, o escritor americano Philip Roth o comparou ao dramaturgo irlandês Samuel Beckett, o pensador austríaco Stefan Zweig disse que Machado era a resposta brasileira a Charles Dickens e o mexicano Carlos Fuentes, em um evento na ABL, em julho de 1997,  chamou o fundador e primeiro presidente da casa de “Machado de La Mancha”, em alusão ao espanhol Miguel de Cervantes. 

“Quando você me pergunta se Machado de Assis já teve o reconhecimento literário que merece, a resposta é: sim e não. Há momentos em que há um repentino surto de interesse em sua obra, e ele recebe elogios de grandes figuras culturais, como Susan Sontag e Woody Allen, e acadêmicas, como Michael Wood”, observa John Gledson, doutor pela Universidade de Princeton e professor aposentado de Estudos Brasileiros na Universidade de Liverpool. “No entanto, ele não tem a reputação sólida e permanente dos grandes romancistas franceses ou russos do Século XIX, por exemplo. Isso ocorre, em parte, porque ele é muito sui generis, único e não está de acordo com o que as pessoas esperam de um escritor latino-americano ou brasileiro. Não há exotismo de superfície”. Considerado um dos maiores especialistas em Machado de Assis, o tradutor, ensaísta e critério inglês é autor de três obras sobre o autor: Ficção e História (1986), Impostura e Realismo (2005) e Por Um Novo Machado de Assis (2006).

Nenhum outro, porém, foi tão feliz ao se referir a Machado de Assis quanto Harold Bloom. Em Gênio – Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura (Editora Objetiva), o crítico americano colocou o brasileiro lado a lado com outros gigantes da literatura universal, como o francês Gustave Flaubert, o português Eça de Queirós e o argentino Jorge Luís Borges. “Só há pouco consegui ler Memórias Póstumas de Brás Cubas no original e fiquei em choque”, escreveu. Para ele, Machado de Assis é “o maior literato negro da história”. Mais que isso, é “uma espécie de milagre”. E não é que ele tem razão? 

Machado de Assis nasceu no Morro do Livramento, na zona portuária do Rio. De origem humilde, era filho de um pintor, Francisco José, e de uma lavadeira, Maria Leopoldina. Quando criança, trabalhou como baleiro, engraxate e coroinha. Adolescente, exerceu o ofício de tipógrafo na gráfica chefiada por Manuel Antônio de Almeida, o autor de Memórias de Um Sargento de Milícias (1853). Autodidata, aprendeu a ler e a escrever em inglês e francês. “Naquela época, o Rio de Janeiro era considerado uma cidade perigosa de se viver. Malcheiroso, era a capital das epidemias. A expectativa de vida era de 34 anos”, relata Luiz Antônio Aguiar, do Almanaque Machado de Assis. “Pobre, mulato, doente e sem escola, o moleque do Morro do Livramento venceu o destino que, para ele, parecia ser o mais óbvio”. Gago e epilético, Machado de Assis publicou Três Tesouros Perdidos, o primeiro de seus mais de 200 contos, no jornal Marmota Fluminense, no dia 5 de janeiro de 1858. Tinha, na ocasião, 19 anos. Já o primeiro livro, Crisálidas, uma coletânea de poemas, foi lançado seis anos depois, em 1864. E o primeiro de seus nove romances, Ressurreição, em 1872. Durante a carreira, Machado de Assis recorreu a mais de 20 pseudônimos, como Victor de Paula, João das Regras e Boas Noites. “Há quem atribua ao poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), A Um Bruxo com Amor (1959), a criação de seu apelido mais famoso, o Bruxo do Cosme Velho”, desvenda Aguiar.

Um mestre da narrativa

Ainda hoje, mais de um século depois de sua morte, Machado de Assis continua a ser traduzido no mundo inteiro. “Ele é o melhor escritor brasileiro de todos os tempos. Somente um escritor como Machado de Assis poderia escrever um livro como Dom Casmurro, o meu favorito”, enaltece Stephen Hart, professor de Cinema, Literatura e Cultura Latino-Americanas da University College London (UCL). “Dom Casmurro não é um livro, é um quebra-cabeça. Sempre que o leio, descubro algo novo”. 

Perfil de Machado de Assis, 1904 – Arquivo Nacional

Um dos mais recentes lançamentos é uma antologia de 76 contos intitulada The Collected Stories of Machado de Assis (Editora Liveright). “Machado de Assis é tudo o que um escritor deve ser: engraçado, profundo e comovente. Uma das coisas que mais admiro nele é o seu senso de absurdo. Não por acaso, um dos meus contos favoritos é Ideias de Um Canário”, aponta a tradutora britânica Margaret Jull Costa, que já traduziu outros escritores lusófonos, como Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e José Saramago. “Embora Machado escreva, na maior parte do tempo, sobre o Rio de Janeiro do Século XIX, sentimentos como ciúme, ganância e vaidade, sobre os quais ele escreve, são eternos e universais”.  

No prefácio da obra, assinado pelo crítico americano Michael Wood, Machado é comparado a outros pesos-pesados, como o americano Henry James, o russo Vladimir Nabokov e o italiano Ítalo Calvino. Com tradução de Margaret J. Costa e Robin Patterson, a coletânea mereceu resenha no jornal The New York Times. “Um mestre da narrativa do Brasil no Século XIX”, elogiou a publicação, “Herdeiro de gigantes e totalmente sui generis”. Apenas um mês depois da crítica do The New York Times, um artigo na revista The New Yorker, assinado pelo escritor Benjamin Moser, o biógrafo americano que projetou Clarice Lispector no exterior, voltou a chamar a atenção dos EUA e – por que não dizer? – do mundo para o inegável talento de Machado de Assis. “Ele é um dos maiores escritores do Brasil. Por que não é mais amplamente lido?”, pergunta Moser. 

“Talvez o maior dos fatores seja a ausência de uma política internacional de valorização de sua obra, que poderia ser função do Estado brasileiro”, observa Saulo Neiva, doutor em Literatura pela Universidade de Sorbonne, em Paris, e professor de Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade Blaise Pascal, na França. “Uma política que fosse além do simples apoio a novas traduções. Que também estivesse voltada para a formação de leitores capazes de disseminar sua obra, incluindo críticos literários, professores, bibliotecários e tradutores. E, claro, uma política que fosse perene, que fosse de Estado, sem depender das incertezas que decorrem das mudanças de governo. Se muitos países conseguem, por que não o Brasil?”. 

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