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O princípio da especificidade e as aulas para o CACD

princípio da especificidade

Estudar de forma autodidata ou fazer cursinho para o CACD? Ou seguir uma estratégia intermediária entre o autodidatismo e as videoaulas? O Clipping convidou para falar sobre o tema Marcílio Falcão, também conhecido por seus discípulos como [Tio Falcão]. Especialista em aprendizado acelerado, Marcílio foi aprovado no CACD 2007 com uma estratégia 100% autodidata. Sua opção pelo autodidatismo vale para todos? O tema é tabu, sobretudo para cursinhos… Esse corajoso artigo, que o Clipping tem a honra de apresentar, desafia consensos e amplia o debate sobre as diferentes formas que pode assumir uma preparação sólida para o CACD. Preparação essa que, na nossa perspectiva, deve ser democrática e acessível, possibilitando a todos – independente do tempo e do dinheiro que cada um dispõe hoje – condições para avançar rumo ao Itamaraty – com ou sem cursinho!

Marcílio Falcão

E vamos de Marcílio Falcão! 🦅 Comentários? Deixe um aí no final do post!

1. Especificidade: que princípio é esse?

A arte que mais admiro é a da persuasão. Não é à toa: basta olhar para qualquer estrutura social organizada em hierarquias que verá o topo ocupado pelos membros mais persuasivos. Eles sabem como convencer aqueles de quem depende sua ascensão. Não é diferente com os concursos públicos, já que a aprovação depende, sobretudo, da capacidade de seduzir a banca examinadora com os textos de prova. Para um aspirante a uma carreira pública tão concorrida e peculiar como a carreira diplomática, nada pode fazer mais sentido do que dedicar tempo e tutano para dominar as ferramentas linguísticas de persuasão e argumentação. Não é só a aprender a escrever sobre os assuntos que estudou, mas conseguir ressignificar o conteúdo de forma rica, original e interessante. Assim, quem sabe, a banca não se convence de que seu lugar é no topo da hierarquia?

Quando inicia um estudo orientado, o candidato namora, adota e acaba por incorporar, inconscientemente até, em suas práticas, os princípios epistemológicos relacionados ao aprendizado que lhe parecem mais coerentes. É a principal razão pela qual me procuram. Não somente querem  saber como passar, mas como fazê-lo o mais rapidamente possível. Ao mesmo tempo, uma opinião é um ato de arrogância e uma ofensa em potencial. Para compartilhá-la, temos que pressupor que ela atende a pelo menos um dos seguintes crivos de pertinência: é original e única e/ou melhor que todas as outras. Por isso, apresento, sem a vergonha de soar arrogante, mas já sendo, o melhor de todos os métodos, a saber, o princípio da especificidade.

O princípio da especificidade (e alguns de seus corolários, de que tratarei a seguir) é uma noção que sequestrei do mundo dos esportes para o universo dos concursos públicos. Tornou-se popular com a publicação de artigo de mesmo nome e do Guia de Reprovação para o CACD, da página Praeterea. Esse princípio, tomado de empréstimo do mundo dos esportes, preconiza que a melhor forma de se preparar para qualquer prova ou competição é por meio de situações, atividades e desafios análogos àqueles a que somos submetidos na hora da disputa. Por exemplo, um atleta de levantamento de pesos que compete na modalidade de agachamentos extrai pouco benefício se a base de seu treino é o leg press ou o banco extensor. Nessa linha, mais vale dedicar-se ao próprio movimento da competição ou a outros semelhantes. O ceacedista, do mesmo modo, perceberá pouca transferência (no jargão esportivo) quando desempenha atividades de pouca correspondência com as provas do concurso. Os erros que comete quando desconsidera esse princípio durante o planejamento e a escolha das atividades de estudo trazem prejuízos não tão óbvios, mas extremamente lesivos.

1.1 Perspectiva temporal

Como todo princípio, o da especificidade tem corolários. O primeiro é o da perspectiva temporal. Quanto mais próximo o momento da competição, mais específicas devem ser as atividades de estudo, com parâmetros e variáveis que gradualmente vão assemelhando-se à situação real de prova. Se o atleta deseja levantar 200 kg no agachamento durante a competição, seu protocolo de treinos deve ser modificado pouco a pouco até que, poucas semanas antes daquele dia, as variáveis (o número de séries e de repetições por série, os pesos usados, o tempo de descanso entre séries, a cadência do movimento) sejam mais próximas do que lhe será exigido demonstrar. No mundo dos concursos — do CACD, para ser mais específico —, as atividades que não têm correspondência próxima (ou que contribuem pouco para o desenvolvimento das habilidades que serão testadas) terão cada vez menos lugar em seu projeto de estudos à medida que o certame se aproxima. Quando faltam mais de seis meses para a prova objetiva, por exemplo, fazer simulados é uma perda de tempo, quando consideradas outras atividades que fazem mais sentido naquele momento da preparação. Estar apto a julgar itens de prova como certos ou errados, aptidão primordial exigida na primeira etapa, depende de uma série de competências, como o domínio do conteúdo; da pegada da banca; da destreza de marcar a folha de respostas corretamente e no tempo determinado; da capacidade de ler, compreender e interpretar uma grande quantidade de texto em tempo exíguo. Melhor deixar os simulados para perto da prova, já que essas competências se desenvolvem melhor quando treinadas juntas e com um trabalho intensivo, da mesma forma que enferrujam quando deixadas de lado por algum tempo.

— Quanto tempo dura o eterno?

— Às vezes, apenas um segundo.

Diálogo entre Alice e o Coelho Branco, em Alice no País das Maravilhas.

1.2 Hierarquia das atividades

O segundo corolário é o meu preferido, por ser o mais prático: diz respeito à hierarquia que ocupa cada tipo de atividade no seu dia típico de preparação para a prova. O estudo que proponho, ou seja, que se alinha com a navalha da especificidade, atribui valor distinto a cada tipo de tarefa, e isso se reflete na ordem em que elas são cumpridas ao longo do dia. Quanto mais abaixo nessa hierarquia, mais opcional a atividade se torna. O aspecto mais cobrado pela banca examinadora é a comprovação do conjunto das capacidades de expressão, de argumentação, de empregar qualidade e pertinência à linguagem e ao estilo empregados, bem como a aptidão de demonstrar originalidade e riqueza quanto ao tratamento dos temas. Tarefas e atividades análogas terão precedência em sua rotina.

A título de exemplo, mostro, em ordem, o que o candidato que aplica a navalha da especificidade faz num dia habitual: 1) Inicia a manhã (às 9:30, imagina por quê?) com a escrita de texto sobre assunto estudado em dia(s) anterior(es); 2) Aprimora texto que escreveu em outro dia; 3) Faz leitura de novo assunto, tomando anotações e mapeando o material, a fim de facilitar a elaboração de resumo ou dissertação que será escrita eventualmente; 4) Cria esquemas que favorecem a retenção e o resgate do conteúdo: mapas mentais, fichamentos etc.; 5) Revisa os pontos principais do que foi estudado ou relê apontamentos e mapas mentais; 6) Assiste a alguma aula sobre o assunto, lê/vê notícias, visita sites; 7) Faz alguma meta-atividade relacionada aos estudos, como ouvir um podcast ou ver um studygram; 8) Toma banho/fuma um charuto/toma uma chá/passeia com o cachorro, tentando lembrar do que estudou; 9) Assiste ao Programa do Bial; 10) Faz exercícios físicos.

As atividades listadas foram ficando cada vez menos específicas até que deixaram de ser relacionadas à prova. Percebe a gradação? De nada.

Tudo isso, obviamente, ganha força com a proximidade da prova, de acordo com nosso corolário temporal. O candidato em início de preparação terá, por sua conta e risco, mais liberdade para jogar com esse arranjo, segundo sua conveniência e preferências pessoais. Pode até sair ileso se, de vez em quando, começar o dia vendo aula, lendo notícias ou revisando anotações. Claro que há um preço: o ingresso da zona de conforto custa caro.

Um benefício colateral de hierarquizar as atividades com base no princípio da especificidade é o incremento natural da tolerância aos estudos. Ganha-se capacidade de trabalho. Agora será possível estudar mais horas graças à quebra da monotonia. É inclusive normal e desejável que as primeiras tarefas do dia sejam as mais cansativas, justamente porque são as mais importantes, isto é, as mais pertinentes ao projeto. Os candidatos que oriento sempre me dizem que o cérebro derrete depois de escrever por duas ou três horas seguidas. Ainda bem! Melhor gastar seu tutano com o que traz mais resultados. Além do mais, o candidato não terá como escapar da maratona de redações da etapa discursiva da prova, na qual terá que trabalhar o punho por até oito horas num só dia.

1.3 Avanços marginais de qualidade

Um terceiro corolário seria o dos avanços marginais de qualidade. Quem se prepara bem se preocupa em — e se ocupa de — construir textos sobre os assuntos do edital com o objetivo de torná-los o produto mais concreto de seus estudos, a versão mais requintada e especial do tema que gostaria que a banca lesse, verdadeiros artefatos dos estudos. Esse é um processo longo, mas recompensador. O ritmo é o seu, e não aquele que está escrito num calendário com a logomarca do cursinho. Quando você prioriza encontrar significado e relevância pessoal em cada conteúdo a que foi exposto, essa rigidez dos cronogramas de estudo e revisão se dissolve. As revisões nada mais serão que o aprimoramento constante dos textos que você já escreveu que, a cada nova leitura e a cada sessão de reescrita, ficam mais ricos e interessantes.

A busca pelo progresso constante compensa mais que a obsessão por metas abstratas.

Marcílio Falcão, diplomata

O conhecimento ganha, assim, um sentido de unidade e continuidade cujo maior valor é o aumento de sua expressividade e de sua capacidade de recontar a mesma história de maneira cada vez melhor. Se o texto de hoje está melhor do que o de ontem, ponto para você!

1.4 Fragmentação de competências

O quarto e último corolário que infiro do princípio geral, sem ter a pretensão de esgotá-lo apenas neste artigo, é o da fragmentação das competências. Recapitulo que há duas macro-habilidades que se desejam desenvolver para o CACD: 1) a de julgar itens objetivos como certos ou errados e 2) a de dissertar sobre os temas estudados. A primeira etapa é eliminatória, ou seja, dedicar 90% do seu tempo a atividades relacionadas a essa aptidão pode não render os frutos esperados. A segunda fase, por sua vez, é eliminatória e classificatória, isto é, você não só tem que correr mais rápido do que os coleguinhas, mas também do que o leão. A navalha da especificidade sugere que essas macro-habilidades de julgar e dissertar podem ser fragmentadas, para efeito metodológico, em microcompetências que se podem treinar isoladamente ou em contexto. Oscar Schmidt, lenda do basquete brasileiro, contava que o treino só acabava para ele quando acertasse 20 bolas seguidas da marca dos três pontos. Ele poderia treinar o arremesso de três apenas no contexto dos jogos coletivos, mas entendia o valor da fragmentação das competências.

O futuro diplomata consegue enxergar essas microcompetências no CACD. Algumas delas nem dizem respeito apenas ao conteúdo de prova, mas a aspectos físico-mecânicos, fisiológicos, mentais, sentimentais etc. Por via das dúvidas, tomo a liberdade de listar algumas delas, sem ordem de hierarquia, que podem (e devem) ser trabalhadas tanto isoladamente quanto em contexto de simulado: escrever um resumo; traduzir um texto a partir do português; traduzir para o português; ler um texto em tempo exíguo; reconhecer os principais estatutos de organismos internacionais; decorar uma citação; elaborar um esqueleto de texto; escrever sem rascunho; adquirir a resistência de punho para a maratona de prova; redigir com distrações ao redor (nunca se sabe se o ar-condicionado fará muito barulho ou se o bar vizinho abre no sábado de manhã); transcrever as respostas objetivas corretamente para a folha de respostas no menor tempo possível; escrever com insônia, cólica, dor de barriga, dor de cabeça (é bom conhecer nosso desempenho também nos piores dias); dissertar de improviso sobre um tema aleatório; reconstruir, em detalhes, uma história que acabou de ouvir; escrever uma redação em 80% do tempo habitual de prova; fazer maratona de resolução de questões objetivas; dominar a gramática, a construção do parágrafo, os recursos de estilística, as estruturas argumentativas, os processos sintáticos e saber reconhecer e estabelecer as relações lógico-sintáticas entre as ideias. Se usar sua criatividade e sua capacidade de análise sob o guarda-chuva da especificidade, conseguirá encontrar dezenas de outras microcompetências ainda menores que também são particulares ao CACD.

Com tudo isso, fico bastante incomodado quando deparo com fórmulas rígidas e genéricas de preparação para concursos públicos — ou para qualquer outra finalidade. É irresponsável recomendar qualquer método, técnica, tarefa ou atividade de estudos indiscriminadamente. Devem-se sem considerar o objetivo, as condições específicas em que o candidato é avaliado e o quanto a atividade contribui no aprimoramento das macro e micro-habilidades mais importantes para o sucesso do projeto. Mesmo o ato de fichar, resumir, fazer mapas mentais, escrever, resolver questões, ver aulas ou até ler pode não ser o mais recomendado, a depender de sua finalidade. Dar uma aula não é a melhor forma de se preparar, se o objetivo não for aprender a dar uma aula. Do mesmo jeito que escrever tampouco será o melhor método, se a escrita não for cobrada. Em alguns concursos de nível médio, por exemplo, em que não é cobrada a escrita, simplesmente resolver questões objetivas o dia inteiro pode ser mais do que suficiente para alcançar um alto nível de competitividade. Não existe melhor método ou técnica em termos genéricos. Existe a melhor técnica específica, porque tudo se relativiza sob a lupa da especificidade.

2. A equação que nem sempre fecha

Sometimes a flower is just a flower, and the best thing it can do for us is to die.”

— Tissaia de Vries, da série The Witcher, exibida no Netflix.

A aula expositiva é, sob a ótica do princípio da especificidade, uma das atividade de hierarquia mais baixa, já que você não é avaliado pela quantidade de aulas a que assiste, mas pela qualidade dos textos que escreve e pelas questões objetivas que julga.

Antes de avançar nos contras (e prós também) do estudo por aulas expositivas, deixo a ressalva de que as opiniões que formei foram fruto do contato que mantive com centenas de alunos de diversas carreiras e dos trabalhos que desenvolvi no campo da autonomia e independência nos estudos, conduzidos em colaboração com dezenas de outros profissionais da área de preparação para concursos públicos. Confesso, no entanto, que minha experiência pessoal como candidato teve peso maior, e, por isso, vou cansá-lo um pouco com um depoimento pessoal.

Desde o ensino fundamental até o curso de formação no Instituto Rio Branco, sempre vi o fato de não conseguir nem querer ver aula alguma como um defeito meu, como se fosse algum déficit de atenção ou transtorno de hiperatividade não diagnosticados. Gosto menos de aulas do que de dançar. Nunca dancei, aliás. Demorei para respeitar esse traço de minha personalidade. Evitava a todo custo atividades mais passivas, que não requeriam meu engajamento direto relativamente a outras, em que seria protagonista. Nunca me empolguei em ver partidas de futebol ou de basquete, esportes com que já me envolvi em contextos de competição e que praticava rotineiramente por várias horas seguidas. Nunca consegui parar por mais de uma hora para ouvir música, nem tenho o hábito de baixá-las. Em meu celular, sequer tenho aplicativo de músicas. No entanto, toco violão quase diariamente há uns 25 anos. Apenas escuto as músicas que quero aprender a tocar. Tampouco tenho paciência para passeios em museus, mas ficava horas de pé fazendo esculturas em argila ou sentado desenhando. Leio menos do que gostaria, mas escrevo muito, não só por exigência do trabalho, mas por preferência mesmo. Ler um livro sem tomar anotações jamais fez sentido para mim. Prefiro até debater um tema ao próprio ato de leitura.

Esse bloqueio de não conseguir participar das aulas forçou-me a aprender de outras formas, sobretudo daquelas em que não dependesse de outras pessoas. No fim das contas, libertei-me daquele impulso do candidato iniciante, cuja primeira pergunta quase sempre é: “Qual é o melhor cursinho [de aulas expositivas]? Desde o começo, eu sabia que não faria essa pergunta. Apelo, então, para que não se deixe influenciar (tanto) pelo meu depoimento e use os insumos apresentados aqui como variáveis de uma equação que só você pode montar e resolver. Por outro lado, é inegável que o candidato que quer ter alguma chance de sucesso em um projeto longo e complexo como o CACD terá que ser autodidata, em muitos sentidos, dadas as particularidades do certame.

Há uma série de pontos polêmicos em relação às aulas. Após listar alguns, apresentarei as condições em que esse tipo de serviço poderia converter-se em instrumento útil na preparação para o CACD.

2.1 Custo benefício das video-aulas

Custo-benefício.  Caso o tempo aplicado em aulas fosse redirecionado a leituras, possivelmente muito mais assunto seria visto. As piores aulas são aquelas que meramente tentam substituir um material de leitura, sendo extremamente ineficientes em termos de custo-benefício de tempo. Suas horas teriam uma aplicação melhor se fossem usadas em leituras e em produção de conteúdo. Já se perguntou o quanto você aprenderia se tivesse mil horas de leitura à disposição?

2.2 (Des)serviço ao planejamento

— The hurrier I go, the behinder I get.

Coelho Branco, em Alice no País das Maravilhas.

Um desserviço ao planejamento. Um curso de mil horas quase certamente seria um desserviço, uma vez que o cumprimento do programa seria uma meta em si, à qual se subordinaria toda a sua preparação. Isso ocorre quando o candidato delega cegamente as rédeas de seu projeto a um curso que sequer sabe seu nome e que aplica soluções generalizadas a problemas específicos. Ter um calendário ou cronograma rígido de aulas pendentes e acreditar que ele deve ditar seu ritmo de leitura é extremamente prejudicial à qualidade do conhecimento que você quer construir. Fico triste quando vejo postagens de candidatos dizendo que “têm que correr atrás das aulas atrasadas”. Mesmo os planos personalizados devem ser flexíveis e moldáveis às circunstâncias. Não faz sentido avançar num tema que ficou mal digerido porque uma tabela na parede determina que o faça. Se você dedica tanto de seu tempo a ver aula, em que momento vai se preparar para se expressar sobre o que estudou?

2.3 Nem tudo que faz sentido é bom

A aula faz sentido, mas nem tudo que faz sentido é bom! Muitos dos benefícios aparentes dos cursos extensivos podem ter um efeito devastador na sua autonomia. Atividades que exigem que nos debrucemos sobre algo complexo desafiam nossa inteligência e estimulam a independência nos estudos. Nesse sentido, as aulas, em geral, tendem a destrinchar demais os assuntos ou baixar o nível de profundidade para que todos consigam acompanhar. Escolher aulas difíceis tampouco resolve a questão: você terá que repassar várias vezes os trechos mal compreendidos, e isso não é necessariamente uma forma eficiente de usar o tempo.

2.4 Aprendendo a mesma coisa

Todo mundo aprende a mesma coisa. Em conversas com ex-membros da banca examinadora do CACD e professores do Instituto Rio Branco, apurei reiteradamente que as respostas das questões abertas lhes parecem padronizadas, carentes de originalidade, expressividade e capacidade analítica, justamente pela homogeneização do conhecimento. Isso se intensificou depois da proliferação dos cursos preparatórios. Se, por um lado, os alunos sabem o que dizer, muitas vezes fazem-no de forma desinteressante, pasteurizada. E essa foi a mesma impressão pessoal que tive após analisar centenas de respostas dadas pelos candidatos ao longo dos anos.

2.5 A linguagem é outra.

A linguagem escrita, embora seja uma modalidade artificial da comunicação humana, foi, infelizmente, para muitos aspirantes, a escolhida como ferramenta para medir seus conhecimentos dos assuntos de prova. Por isso, faz mais sentido expor-se, na medida do possível, à informação que se transmite por esse gênero de linguagem em detrimento da linguagem oral, que, embora mais natural, não é utilizada como instrumento de avaliação.

2.6 Input e output

Input vs. output. Quanto mais tipos de atividades passivas se incluem num projeto de aprovação, menos tempo sobra para analisar, refletir, ressignificar e se apropriar dos assuntos estudados. Mesmo sabendo que é importante escrever, iludimo-nos quando achamos que haverá um momento de exposição à informação e um outro, num futuro incerto, para a produção de algo concreto, um artefato, como uma apostila pessoal, por exemplo. Por isso, um dos maiores erros metodológicos é desvencilhar o input do output, ou seja, o momento de exposição à informação (passivo) do processo de produção de conhecimento (ativo). Eles são os dois lados da mesma moeda. Preparar-se bem para o CACD envolve não apenas entender bem os assuntos, mas, sobretudo, desenvolver a capacidade de se expressar sobre eles. Ressignificar a matéria. Transfigurar a grande quantidade de dados recebidos em conhecimento moldado pelos seus filtros pessoais, como suas experiências, sentimentos e julgamentos.

2.7 Carência de métodos e técnicas

Possível carência de métodos e técnicas. Uma predileção excessiva por atividades passivas, como as videoaulas, pode ser um sinal de um desconhecimento das técnicas de estudos mais adequadas ao tipo de prova do certame. Deve-se preocupar o candidato que não sabe elaborar um questionário de accountability sobre um assunto, aproveitar os mapas mentais, explorar um texto usando o método SQ3R (ou outra técnica de leitura similar) ou dominar a técnica de fichamento/anotações. Essa preferência por vídeos revela, inclusive, aspectos da personalidade e do estilo de aprendizagem do candidato. Possivelmente, é o tipo de aluno que prefere provas objetivas a discursivas e que dificilmente aplica grande parte de seu tempo escrevendo sobre os temas que estudou.

2.8 Cumprir o calendário

Cumprir um calendário de aulas pode passar a falsa sensação de dever cumprido. Tentar concluir um programa de aulas no tempo determinado por outras pessoas é uma tarefa quase sempre frustrante. O fato de assistir a uma aula ou de sentir o esgotamento mental de cumprir uma maratona delas não significa que o objetivo da aprendizagem foi cumprido, apesar da sensação gostosa de riscar um xis naquele quadradinho da parede.

3 Em que condições as aulas passariam pela navalha da especificidade?

O rouxinol habita os cantinhos mais sensíveis da gente, que ninguém conhece, porque ninguém é “nós” o suficiente para chegar até eles […] Um dia ele me disse que vai sempre ser o olho mágico que nunca será usado, porque ele é só o som que ouvimos por trás da porta. […] É a presença que sentimos no silêncio, quando os olhos estão mais fechados e os pés descobertos. É o texto que nunca foi escrito porque não poderia ser lido, mas, mesmo assim, sem existir, já está protegido a sete chaves até de seu quase autor, porque, se revelado, deixaria o passarinho fugir, e ninguém sabe viver sem seu rouxinol.

— Marcílio Falcão, adaptação do conto O Rouxinol, em “Contos Secretos que, de Tão Íntimos, Jamais Serão Publicados”.

Não quero convencer ninguém a abrir mão ou desdenhar das aulas, até em respeito às dezenas de profissionais que se dedicam à docência com amor, que lhe darão dúzias de razões para que me mandem ao inferno ou a outros lugares piores. O que me aflige é que o nosso papel de professor mudou faz tempo, e poucos entenderam isso. Ainda não conseguimos ajustar nossas práticas aos novos paradigmas de aprendizagem que vêm tomando o palco desde a quebra do monopólio da informação provocada pela Internet. Plataformas de comunicação modernas como Wikipedia, Evernote, YouTube, Google Drive, Orkut, Reddit, Facebook, Instagram, Slack — cada uma cumprindo uma função específica — colocam em xeque métodos vetustos de construção colaborativa, de gestão, de transmissão e de organização de conhecimento. A informação, que queria ser livre, agora já é: a resposta para qualquer problema que alguém já solucionou, tal como passar no CACD, pode ser garimpada na rede ou está de posse de um bom samaritano disposto a entregá-la gratuitamente.

Contudo, a informação, mesmo livre, ainda é selvagem e arredia. O desafio da geração atual de professores e alunos é conseguir domá-la e domesticá-la. Transformar o que está fragmentado, disperso e desconexo em conhecimento comum e compartilhado. Tenho que certeza de que um pequeno passarinho, um rouxinol, lá no fundo, já lhe soprava isso.

Por tudo isso, apresento, como contraponto à seção anterior, algumas características de um curso em vídeos que poderiam ter me convencido a contratar esse tipo de serviço no início de minha preparação, observadas algumas condições pessoais…

3.1 Quando o professor é espetacular

O professor é espetacular. Convenhamos que alguns professores são tão geniais e brilhantes que (quase) nenhum material didático se aproxima da qualidade da apresentação daqueles profissionais. São as sumidades do mercado, figuras magnéticas. Há algumas no mercado, e os ceacedistas acabam descobrindo quem são. Esses profissionais trazem uma perspectiva original e sofisticada, que enriquecerá a qualidade de seu texto e de sua argumentação, e não se propõem a substituir e competir com os livros. Não me refiro só à didática, mas também ao papel de curador e organizador dos estudos. Candidatos aprovados já me confidenciaram que o valor maior que extraíram das aulas estava mais nas orientações de estudo do que no próprio conteúdo da apresentação. Mesmo assim, se eu fosse um desses professores extraordinários, começaria já a escrever e tentaria tornar-me prescindível nos cursos gravados.

3.2 Quando não há material sobre o tema

Inexistência de manuais sobre os temas. Pelo fato de o CACD ser um concurso tão específico, é provável que muitos dos temas cobrados, como os de atualidades, por exemplo, não estejam sistematizados em coletâneas ou manuais abrangentes o suficiente para incluir todos eles. Nesse caso, poderia ser benéfico valer-se do papel de curador e compilador do professor. Caso houvesse material didático disponível, atualizado e de alta qualidade sobre a matéria, eu muito provavelmente abriria mão da aula, por melhor que fosse.

3.3 Quando há um diagnóstico de deficiências

Diagnóstico de deficiências. Eu não gostaria de seria obrigado a comprar o programa inteiro nem muito menos a segui-lo completamente. Para ganhar meus preciosos reais, o curso teria que me oferecer alguma espécie de mecanismo que permitisse diagnosticar as matérias e os assuntos em que tenho mais dificuldades, para então filtrar quais aulas eu deveria assistir, sem ter que pagar pelo que não preciso.

3.4 Quando há um contexto mais amplo de estudo

Os vídeos como parte de um contexto mais amplo. Utilizaria as aulas como uma atividade relaxante ou de revisão, despretensiosa até, e não como fonte primária de informação sobre os tópicos. Mesmo assim, apenas ao fim do dia.

3.5 Quando há possibilidade de interação

Elemento humano. No fim das contas, ninguém conversa com livros. Os professores que se mostram disponíveis para interações individuais, além de trazerem uma dimensão humana aos seus estudos, têm maior valor como recurso para sua aprovação.

Procurei ater-me unicamente aos serviços de aulas em vídeo, sem abordar outros tipos de programas, tais como consultoria, orientação, mentoria, tutoria, coaching, correção de textos, oficinas de tradução, planos de estudos, plataformas de simulados etc., os quais também produzem seus melhores efeitos em contextos específicos.

4. Como, então, estudar a partir das aulas?

A forma como interagimos com as aulas não pode deixar de obedecer ao princípio da especificidade. Todo o conhecimento que se extrai de cada aula deve ser absorvido e transformado de modo que você se aproprie dele e consiga reproduzi-lo de maneira rica, interessante e contextualizada, nos moldes que o concurso exige.

Não apenas tome notas, ou pior, assista passivamente (será que alguém ainda faz isso?!). Trate de estar apto — ao final da aula, após revisar seus apontamentos — a recontar, em detalhes, demonstrando capacidade analítica, a história que foi relatada na aula. Todas as atividades que sucedem a aula devem concorrer para desenvolver essa competência.

Trate a aula como uma fonte de informação como qualquer outra. Aplique técnicas de estudo como fichamentos, anotações em estilo Cornell, mapas mentais, resumos e busque testar sua habilidade de escrever redações sobre a aula que viu. Melhor ainda: aproveite cada novo fragmento de informação para enriquecer os textos que você já havia produzido sobre o tema, suas apostilas, lembra? Se viu uma aula sobre Direito Internacional dos Direitos Humanos, por exemplo, vá ao texto de sua apostila ou caderno pessoal e complemente-o à luz dos novos conhecimentos adquiridos.

Tome nota das melhores frases, dos pontos polêmicos, de como a visão do professor entra em conflito ou se alinha com outras fontes de informação. Pergunte-se sempre o que ficou de mais útil daquela exposição e como você poderia aplicar aquele novo conhecimento em uma questão de prova. Essa técnica se chama accountability: o momento em que presta contas para você mesmo do que estudou e, principalmente, do que aprendeu. Fechar uma sessão de estudos que culmina com uma bateria de perguntas de accountability tem um efeito poderoso na busca pelo significado e pela relevância do conteúdo e, consequentemente, na sua retenção e eventual resgate na hora da prova.

Por fim, seja seletivo: não saia assistindo a tudo que lhe recomendarem, mesmo que você tenha pago por aquilo. Não faz sentido perder duas horas vendo um vídeo sobre um tema com o qual você já se sente confortável. Reserve as aulas como um trunfo adicional para os temas mais complexos, em que só os livros não foram suficientes para lapidar sua compreensão do assunto.


Curtiram o post do Marcílio Falcão? Deixem aí um comment! Tem uma visão diferente sobre o tema e quer compartilhar ela aqui no Blog? Só entrar em contato com a gente pelo contato@clippingcacd.com.br ! Toda diversidade e todo mundo é bem vindo nesse espaço! 🧡

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