Exportada para 147 países, Avenida Brasil é a atual recordista em vendas da TV Globo, a principal emissora de teledramaturgia do país
Na família da belarussa Anastasiya Golets, de 26 anos, a paixão pelas telenovelas brasileiras é uma herança que passa de mãe para filha. Natural de Minsk, a capital do país, Anastasiya tinha cinco anos quando assistiu, pela primeira vez, a uma produção brasileira: Por amor (1997), de Manoel Carlos.
Foi amor à primeira vista. “Lembro vagamente que, antes de começar o capítulo, passava um programa chamado ‘Mil cartas por amor’, que respondia às perguntas dos telespectadores sobre a novela”, conta. Das muitas novelas da Globo exibidas na Belarus, antiga república soviética de 9,4 milhões de habitantes, uma das campeões de audiência é O clone (2001), de Glória Perez.
Segundo Anastasiya, tudo o que dizia respeito à trama – da maquiagem da Jade (Giovanna Antonelli) à culinária de Dona Jura (Solange Couto) – fez sucesso por lá. “Já assisti umas cinco vezes. Toda vez, é um aprendizado novo. Tem muita filosofia no trabalho da Glória Perez”, analisa Anastasiya que, em 2017, realizou o sonho de conhecer o Brasil. Hoje, ela mora em Brasília, é doutoranda do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) da Universidade de Brasília (UnB) e dá aula particular de russo.
A história de amor entre Jade e Lucas (Murilo Benício) é uma das mais exportadas da Globo. Foi vendida para 107 países – muitos deles do Leste Europeu, como Rússia, Albânia, Romênia, Kosovo e Sérvia. Em 2002, quando El clon foi exibida pela Telemundo, o nome preferido da comunidade hispânica nos EUA para batizar suas filhas foi Jade.
Do outro lado do Atlântico, a pedido de seus usuários, academias de ginástica em Portugal passaram a oferecer aulas de dança do ventre. Em depoimento ao livro A seguir, cenas do próximo capítulo (2009), Glória Perez afirma que, embora O clone tenha estreado apenas 20 dias depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, sempre teve certeza de que a novela faria sucesso no Brasil e no exterior. “Você sabe que O clone parava Israel? Recebi uma carta muito bonita de uma mulher de lá dizendo que aquele era um momento de paz entre os primos”, recorda a autora. “Quando recebi um prêmio em Miami, um dos muitos que ganhei por causa de O clone, o presidente da Universal disse: ‘O clone é uma Bíblia de como fazer novela’”.

Por essas e outras, O clone ocupa o quinto lugar, empatada com Da cor do pecado (2004), de João Emanuel Carneiro, no ranking das telenovelas brasileiras mais vendidas para o exterior. As três primeiras colocadas, segundo dados da TV Globo, são Avenida Brasil (2012), de João Emanuel Carneiro; Totalmente demais (2015), de Rosane Svartman e Paulo Halm; e A vida da gente (2011), de Lícia Manzo. Foram vendidas, respectivamente, para 147, 135 e 130 países.
Já Caminho das Índias (2009), também de Glória Perez, ocupa o quarto lugar: 116 países. A lista atualizada das produções mais exportadas da Globo não estaria completa sem Insensato coração (2011), de Gilberto Braga e Ricardo Linhares; Passione (2010), de Silvio de Abreu; Império (2014), de Aguinaldo Silva, e Laços de família (2000), de Manoel Carlos.

“Avenida Brasil tem uma história de forte apelo universal, com bons ganchos a prender a atenção do telespectador ao final de cada capítulo. Não bastasse, seus personagens são cativantes, ritmo é frenético e a estética, cinematográfica. É uma novela muito bem escrita, dirigida e atuada”, destaca o pesquisador Nilson Xavier, autor de Almanaque da telenovela brasileira (2007).
Mas, nem sempre foi assim. Houve um tempo – muito, muito distante – em que a TV brasileira, em vez de exportar novelas, importava. “Em julho de 1963, o gênero é importado da Argentina pelo então diretor artístico da TV Excelsior, Edson Leite, que entregou os originais de Una voz en el teléfono, escrita por Alberto Migré (1931-2006), à radionovelista Dulce Santucci (1921-1995)”, recorda o pesquisador Mauro Alencar, doutor em Teledramaturgia Brasileira e Latino-Americana pela Universidade de São Paulo (USP), autor de A Hollywood brasileira – Panorama da telenovela no Brasil (2002) e membro da Academia Internacional de Artes e Ciências da Televisão de Nova York (Emmy).
No Brasil, Una voz en el teléfono ganhou o título de 2-5499 ocupado (1963) e entrou para a história como a primeira telenovela diária da TV brasileira. “Contando a história de um homem que se apaixona pela voz da telefonista de um presídio, era exibida três vezes por semana e ocupava 20 minutos da programação”, relata o publicitário Ricardo Xavier, o Rixa, de O almanaque da TV (2007). “Dois meses após sua estreia paulista, a Excelsior do Rio passou a transmitir seus capítulos diariamente”.

Outro exemplo clássico de folhetim importado é O direito de nascer (1964), de Félix Caignet (1892-1976). De origem cubana, a novela El derecho de nacer foi adaptada por Teixeira Filho (1922-1984) para a extinta Tupi. O dramalhão fez tanto sucesso por aqui que ganhou mais duas versões: uma em 1978, ainda na Tupi, e outra em 2001, no SBT. Tudo começou a mudar com Nino, o italianinho (1969), de Geraldo Vietri (1927-1996) e Walther Negrão.
Pela primeira vez, um texto nacional teve seus direitos comprados no exterior. “Sua versão argentina teve 269 capítulos e foi exibida em toda a América Latina”, conta o jornalista Vilmar Ledesma, autor da biografia Geraldo Vietri — Disciplina é liberdade (2010). “E, pela primeira vez, uma novela latina foi transmitida por um canal americano, o Canal 9 de Nova York, voltado aos imigrantes”. Se a versão portenha de Nino, o italianinho teve 269 capítulos, a original, a título de curiosidade, teve 304.
A mudança definitiva, porém, veio com O bem-amado (1973), de Dias Gomes (1922-1999). Dessa vez, emissoras de outros países compraram não só o texto, para ser adaptado lá fora, mas a telenovela propriamente dita. Foi o caso da TV Monte Carlos, no Uruguai, que exibiu, em 1976, o primeiro capítulo de El bien amado.
Um ano depois, toda a América Latina, com exceção da Venezuela, assistia às aventuras do prefeito de Sucupira, Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), através da Spanish International Network. Como geralmente acontece sempre que uma novela brasileira é vendida para o exterior, seus capítulos foram editados. Às vezes, a trama é encurtada. Outras, aumentada.
No caso de El bien amado, seus 178 capítulos foram transformados em 223. “O fato de O bem-amado ter sido produzida originalmente a cores ajudou a abrir as portas para o Brasil. Além disso, o texto do Dias Gomes era inteligente e o elenco, encabeçado por Paulo Gracindo (Odorico Paraguaçu) e Lima Duarte (Zeca Diabo), magnífico”, destaca Rodolfo Bonventti, doutor em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo e diretor da Associação dos Pioneiros, Profissionais e Incentivadores da Televisão Brasileira (Pró-TV). “O Brasil sabe fazer novelas como ninguém. Nossas produções têm um altíssimo padrão de qualidade que você não encontra na Televisa, na Telefe ou na Caracol”, afirma, referindo-se às principais produtoras de teledramaturgia do México, da Argentina e da Colômbia.
Não é só o tamanho da novela que sofre ajustes ao ser vendida para o exterior. Muitas vezes, os próprios títulos são alterados: Salve Jorge (2012), de Glória Perez, virou Brave woman (“Mulher corajosa”) nos EUA; Amor à vida (2013), de Walcyr Carrasco, L’ombre du mensonge (“À sombra da mentira”) na França e Babilônia (2015), de Gilberto Braga, Mujeres ambiciosas (“Mulheres ambiciosas”) na Espanha.
“Na época de Tropicaliente (1994), a trama de Walter Negrão teve seu nome trocado na Rússia para Tropikanka (“Mulher tropical”). Alguns anos depois, quando o país comprou Mulheres de areia (1993), a novela de Ivani Ribeiro foi exibida como Sekret tropikanka (“O segredo de uma mulher tropical”). O curioso é que uma novela não tem nada a ver com a outra. A única semelhança é que suas tramas são ambientadas em cidadezinhas litorâneas”, conta Nilson Xavier.
Ao sucesso internacional de O bem amado, exportada para 30 países, seguiram-se outros. Muitos outros. Gabriela (1975), de Walter George Durst (1922-1997), é apenas um deles. A adaptação da obra-prima de Jorge Amado (1912-2001) foi a primeira telenovela a ser vendida para Portugal. Por ocasião de sua estreia, a Rádio e Televisão Portuguesa (RTP) chegou a realizar, em maio de 1977, um show reunindo Toquinho, Vinícius (1913-1980) e Maria Creuza. E a promover a visita de alguns atores, como Fúlvio Stefanini (Tonico Bastos) e Elizabeth Savalla (Malvina), recebidos com festa por uma multidão de 100 mil pessoas no aeroporto. “O caos foi tão grande que houve invasão da pista e o aeroporto teve que ser fechado por duas horas e meia!”, recorda o ator Fúlvio Stefanini na biografia Abrindo as gavetas (2010), de Nilu Lebert. “Muitos anos depois, Ruth Escobar ofereceu um jantar para homenagear o presidente português Mario Soares, e eu estava entre os convidados. Quando fui cumprimentá-lo, ele me olhou e disse: ‘Tu me fechaste o aeroporto de Lisboa por duas horas e meia!’ E rimos muito”.
Nenhuma outra novela dos anos 1970, porém, fez tanto sucesso quanto Escrava Isaura (1976), de Gilberto Braga. Nenhuma. Se a belarussa Anastasiya Golets cresceu assistindo às novelas da Globo, ela deve agradecer, em grande parte, à adaptação do romance homônimo de Bernardo Guimarães (1825-1884). Escrava Isaura foi a primeira telenovela da Globo a ser vendida para países da antiga “Cortina de Ferro”, como Polônia, República Tcheca e Ucrânia. E do continente africano, como Congo, Gana e Zimbábue.
Na Europa, já foi reprisada sete vezes na França, cinco na Alemanha e três na Suíça. Entre outras proezas, foi responsável por um cessar-fogo entre as tropas da Bósnia e da Sérvia, a suspensão do racionamento de energia em Cuba e um concurso de sósias dos atores Lucélia Santos e Rubens de Falco na Polônia.
O tal concurso, aliás, atraiu oito mil candidatos e sua final foi realizada em um estádio de futebol. “São os muitos os diferencias das novelas brasileiras se comparadas às de outros países. A qualidade da produção é um deles. O desempenho do elenco é outro”, aponta a pesquisadora Márcia Perencin Tondato, doutora em Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP e autora da dissertação de mestrado Telenovela exportada — Um estudo das telenovelas brasileiras exportadas (1998). “Os preços praticados pelo Brasil também são bem abaixo da média. Outros países, como a Argentina, têm que exportar para ‘pagar’ a produção. Aqui, não. O ganho com a exportação é lucro puro”.
Em depoimento ao livro A seguir, cenas do próximo capítulo (2009), Gilberto Braga revela que a ideia de adaptar Escrava Isaura para a TV partiu de uma professora de Literatura do Colégio Pedro II, Eneida do Rego Monteiro Bonfim.
Durante 23 anos, Escrava Isaura foi a recordista em vendas para o exterior. Em 1999, teve seu recorde quebrado por Terra nostra, de Benedito Ruy Barbosa. “Até hoje, não entendo como fez tanto sucesso. A escrava Isaura não chega a ser um romance bem escrito, mas tem um ‘story-line’ absurdamente bom para uma novela.
A escrava desejada por seu dono faz o espectador lidar com o medo, talvez o mais forte de todos os sentimentos. Todos nós temos medo de quem é mais forte. Quem não vai se identificar com essa escrava?”, indaga o autor de sucessos como Dancin’ days (1978), Vale tudo (1988) e Celebridade (2003), entre outros.
Escrava Isaura fez tanto sucesso no exterior que, dez anos depois, a Globo decidiu adaptar Sinhá moça (1986), escrita por Benedito Ruy Barbosa a partir do romance homônimo de Maria Dezonne Pacheco Fernandes (1910-1998). Até aí, nada demais. Apenas mais uma trama de época, certo? Errado! Quando a direção da emissora anunciou que os personagens de Maria das Graças Ferreira, a Sinhá Moça, e o Coronel Ferreira, o Barão de Araruna, seriam interpretados por Lucélia Santos e Rubens de Falco, a mesma dupla de Escrava Isaura, tudo mudou. Antes mesmo de a novela estrear, prevista para 28 de abril de 1986, 50 países já tinham manifestado interesse em comprá-la. Ao todo, 63 países, segundo estimativas não oficiais, assistiram à trama de Sinhá moça.
Entre outros títulos, a produção virou Little missy nos EUA, Mademoiselle na França, Niña moza – El camino de la libertad na Espanha, La padroncina na Itália e Die tochter des sklavenhalters (“A filha do senhor de escravos”) na Alemanha. “A segunda versão de Sinhá moça (2006) foi inscrita no Prêmio Emmy Internacional. Mas, como ainda não havia a categoria telenovela, concorreu como série dramática”, pontua Mauro Alencar.
Em 2002, a Globo tentou algo diferente: firmou contrato com uma emissora estrangeira – a Telemundo, o braço hispânico da rede NBC, dos EUA – para coproduzir o “remake” de uma de suas novelas, Vale tudo (1988), de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères (1926-2004). A versão hispânica, assinada por Yves Dumont, foi gravada no Rio de Janeiro por atores de oito países – Raquel (Regina Duarte) foi interpretada por Itati Cantoral e Maria de Fátima (Glória Pires), por Ana Claudia Talacón, ambas do México.
Duas curiosidades de Vale todo (2002): a vilã Odete Roitman foi rebatizada de Lucrécia Roitman e a trama envolvendo as personagens Cecília (Lala Deheinzelin) e Laís (Cristina Prochaska), que tiveram um romance na novela, foi deletada. Depois de Vale todo (2002), vieram, entre outras, El clon (2010), Marido en alquiler (2013) e El bien amado (2017), versões hispânicas para O clone (2001), Fina estampa (2011) e O bem-amado (1973).
Aos poucos, tramas antigas, como Mulheres de areia (1993), de Ivani Ribeiro; Por amor (1997), de Manoel Carlos; e Terra nostra (1999), de Benedito Ruy Barbosa, começaram a perder espaço para produções mais recentes, como Insensato coração (2011), de Gilberto Braga; Passione (2010), de Silvio de Abreu, e Império (2014), de Aguinaldo Silva.
Atualmente, a Globo exporta novelas para mais de 170 países. Desses, os mais assíduos compradores dos nossos folhetins eletrônicos são África do Sul, Angola, Argentina, EUA e Portugal. A trama recordista em vendas é Avenida Brasil (2012), de João Emanuel Carneiro: são, ao todo, 147 países, com legendas ou dublagens, de 19 idiomas.
Só na Argentina, quando foi exibida pelo canal Telefe em 2014, o último capítulo foi transmitido, ao vivo e a cores, de um estádio de futebol: o Luna Park, em Buenos Aires, com capacidade para 12 mil espectadores. A transmissão contou, inclusive, com a presença de Débora Falabella (Nina) e Cauã Reymond (Jorginho). “O último capítulo teve clima de Copa do Mundo. Pela primeira vez, brasileiros e argentinos torceram pelo mesmo time: o Divino Futebol Clube”, brinca Mauro Alencar, em referência ao clube fictício da novela, onde jogavam personagens, como Jorginho, Adauto (Juliano Cazarré) e Roni (Daniel Rocha).
Em tempo: Sinhá moça (2006), de Edmara e Edilene Barbosa, não ganhou o Emmy, mas Caminho das Índias (2009), sim. Pela primeira vez, a Globo levou o maior prêmio da televisão mundial na recém-criada categoria telenovela. De lá para cá, outras sete produções, incluindo Laços de sangue (2011), uma parceria com a SIC, de Portugal, também foram premiadas: O astro (2011), de Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro; Lado a lado (2012), de João Ximenes Braga e Claudia Lage; Joia rara (2013), de Thelma Guedes e Duca Rachid; Império (2014), de Aguinaldo Silva; Verdades secretas (2015), de Walcyr Carrasco, e Órfãos da terra (2019), de Guedes e Rachid.
Novelas recordistas em vendas da TV Globo:
- Avenida Brasil — 147 países.
- Totalmente Demais — 135.
- A Vida da Gente — 130.
- Caminho das Índias — 116.
- Da Cor do Pecado — 107.
- O Clone — 107.
- Insensato Coração — 100.
- Passione — 91.
- Império — 88.
- Laços de Família — 86.
Gostou do conteúdo? Então já acessa esse outro post sobre as canções brasileiras mais regravadas de todos os tempos.
Conheça também nosso post sobre como ser um diplomata.
No comment yet, add your voice below!