Editorial ( Outubro 2020 )
O podcast “Caliphate”, lançado em 2018 pelo jornal New York Times, foi a princípio tido como um exemplo de excelente jornalismo. Dois anos depois, porém, o premiado projeto passou a ser o seu inverso—um modelo, quiçá, de como a imprensa ainda tropeça ao cobrir o Oriente Médio.
Jornais contam com repórteres, redatores e editores que não conhecem a fundo a língua ou a história daquela região. Acabam, com isso, reproduzindo o antigo sistema de produção de conhecimento tão criticado pelo pensador palestino Edward Said em seu livro “Orientalismo”, publicado em 1978. Ou seja, tratam do Oriente Médio como um lugar fundamentalmente diferente do restante do mundo, como um território ancestral, complexo, atrasado e violento, como pontuou a nossa colunista Marina Guimarães em seu texto para o Clipping CACD.
“Caliphate” conta a história da organização terrorista Estado Islâmico e seu auto-proclamado califado na Síria e no Iraque. Foi elogiado, na época de seu lançamento, por descrever aquela milícia em detalhes. A repórter por trás do projeto, Rukmini Callimachi, foi idolatrada pela quantidade de informações que reuniu, satisfazendo o apetite de seus ouvintes em todo o mundo. O trabalho é de fato excepcional, baseado em um trabalho duro e, por vezes, bastante arriscado.
Um dos principais personagens do podcast era o homem apelidado Abu Huzayfah. Callimachi se baseou nas histórias dele para descrever vívidas cenas de execuções públicas. Em “Caliphate”, por exemplo, Abu Huzayfah falava sobre o sangue de uma vítima espirrando por todos os lados.
Só que, ao que parece, Abu Huzayfah estava mentindo. No fim de setembro, a polícia canadense acusou o homem de 25 anos de ter inventado sua história. Com isso, começaram a surgir duras críticas sobre o trabalho de Callimachi. Algumas das acusações não têm fundamento e parecem motivadas por disputas de ego. Algumas delas, aliás, certamente vêm do fato de que Callimachi é uma mulher. Dificilmente o mesmo escarcéu seria feito sobre um repórter homem. Quem ainda se lembra, aliás, do falso fotógrafo de guerra Eduardo Martins, que foi denunciado em 2017? Exposto em matéria de nossa colunista Natasha Ribeiro para a BBC.
Algumas críticas, porém, merecem atenção. Uma delas, ecoada inclusive por um texto publicado no próprio New York Times, é de que Callimachi e seus editores estavam cientes das inconsistências na fala de Abu Huzayfah. Decidiram, no entanto, seguir adiante com o podcast.
O problema é ainda mais grave porque especialistas no Oriente Médio vinham há anos apontando problemas no trabalho de Callimachi. Durante sua cobertura no Iraque, por exemplo, a repórter coletou milhares de documentos produzidos pelo Estado Islâmico e os levou consigo para os Estados Unidos. O episódio foi duramente criticado. Alguns professores basicamente acusaram a repórter de pilhar documentos iraquianos sem a autorização do país, revelando um modus operandi imperialista. Além disso, outros especialistas em terrorismo alertaram no ano passado que alguns dos documentos utilizados por Callimachi nas reportagens eram forjados.
Não há indícios, é claro, de que a repórter ou o New York Times agiram de má fé. Pelo contrário. Uma das razões pelas quais Callimachi se tornou uma estrela no jornalismo é a paixão com que escreve sobre o Oriente Médio, tentando trazer aquela região para mais perto de seus leitores. Não concordo, assim, com os esforços feitos nessas últimas semanas para demolir a carreira dela.

Ainda assim, as tropeçadas de Callimachi e de seu projeto podem servir de exemplo de como o rigor jornalístico nem sempre vale para o Oriente Médio. Dificilmente, afinal, um jornal como o New York Times teria publicado um podcast baseado em uma entrevista duvidosa, digamos, sobre os Estados Unidos ou a Europa. A credibilidade, vale dizer, é um dos pilares da imprensa.
A isso se soma uma questão ainda mais fundamental: Callimachi não fala árabe. Que uma jornalista possa se tornar uma das grandes especialistas em uma região sem conhecer a língua falada pelas pessoas nas ruas é assombroso. A repórter não pode ler jornais, assistir televisão, ir a uma peça de teatro. Não pode entreouvir uma conversa no corredor do mercado. Todas as suas interações dependem sempre de um tradutor, de um mediador. Tem acesso, assim, a pouca coisa.
Mencionei isso brevemente em um texto que publiquei no meu blog Orientalíssimo. Fui correspondente da Folha de S. Paulo em Jerusalém em 2013 e 2014. Vivi por períodos mais curtos no Marrocos, no Líbano e no Egito e visitei outros países da região, como Síria, Iêmen e Iraque. Foram raras as vezes em que eu me deparei com outros repórteres que falassem, ou ao menos estudassem, árabe. Colegas de grandes veículos em Jerusalém, por exemplo, me diziam que o esforço não valeria a pena. Afinal, em poucos anos seriam enviados a outros países, onde o árabe já não ajudaria. Para que começar a estudar, então, uma complicadíssima língua? Para que conhecer melhor a região? Imaginem, agora, o que seria dito de um correspondente que vivesse em Washington sem falar inglês. Você confiaria em sua cobertura sobre as eleições americanas?



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