Se você está lendo esse texto, provavelmente deu match com o CACD no Tinder. Ainda não se encontraram, mas conversam quase todos os dias e está claro que algo de bom pode sair disso. Mas será que vale mesmo o risco, o esforço e os gastos? O início da preparação para o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática é mais ou menos assim, um flerte com o sonho de ser diplomata.
Antes de tomar a decisão de comprometer-se com o estudo para o CACD, é preciso ter bem claro os seguintes pontos:
- Você realmente sabe o que faz um diplomata e como é a carreira diplomática?
- Conhece todos os detalhes do concurso, de suas provas, datas e processos?
- Está ciente de todos os custos, financeiros e emocionais, que terá de arcar por, em média, 4 anos?
O objetivo desse texto é garantir que você tenha esses três pontos bem claros, para tomar a decisão se vale ou transformar esse match com o CACD em um date real e, talvez, em um relacionamento de longo prazo.
O que faz um diplomata?
O diplomata é o profissional responsável por:
- Representar o Brasil perante a comunidade internacional;
- Coletar informações necessárias à formulação de nossa política externa;
- Participar de reuniões internacionais e, nelas, negociar em nome do nosso país.
Em outras palavras, o diplomata tem as funções de representar, informar e negociar. Além disso, têm a responsabilidade de prestar assistência a cidadãos brasileiros residentes ou de passagem no exterior.
O diplomata é um servidor público que atua no âmbito do Ministério das Relações Exteriores, conhecido como Itamaraty. Inclusive, temos outro post sensacional sobre a história do palácio do Itamaraty nesse link aqui.

Palácio do Itamaraty, em Brasília
Ao longo de sua jornada, um diplomata tem a possibilidade de trabalhar em variados postos (calma, já explico o que são “postos”) e com assuntos diversificados, como direitos humanos, meio ambiente, energia, paz e segurança, comércio, investimentos, cooperação para desenvolvimento internacional, entre outras áreas.
O que são postos?
São as repartições do MRE no exterior. Segundo o Itamaraty, existem três tipos de postos:
- A Embaixada, responsável pelas relações bilaterais entre o Brasil e o país onde está instalada;
- A Repartição Consular, responsável pela assistência a brasileiros no exterior;
- A Missão ou Delegação junto a organizações internacionais.
Dessa forma, as possibilidades de atuação do diplomata alocado no exterior são inúmeras.
“Gostei! E assim que eu passar no concurso, posso escolher em qual posto vou trabalhar?”
Não é tão simples assim. Primeiramente, é importante entender o que é o CACD. O Concurso de Admissão à Carreira Diplomática. Ele é a porta de entrada para aqueles que sonham com a diplomacia. Inclusive, bora aproveitar e falar um pouco sobre os detalhes do concurso de diplomata? Se ainda tiver dúvidas sobre a carreira, assiste esse vídeo aqui em que a Ana fala sobre 6 dúvidas relacionadas à diplomacia:
6 DÚVIDAS CARREIRA DIPLOMÁTICA
O que preciso fazer para ser diplomata?
No Brasil, o recrutamento de diplomatas é feito por meio de concurso público com um formato bastante peculiar: o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD).
Entretanto, além da aprovação no CACD, há requisitos básicos para investidura do cargo. Esses requisitos são apresentados no Edital do CACD. O Edital CACD 2023, em seu artigo 2.4 apresenta os requisitos básicos para ingressar na carreira. São eles:
- ser brasileiro nato, conforme o art. 12, § 3o, inciso V, da Constituição Federal e o art. 36 da lei no 11.440/2006;
- estar no gozo dos direitos políticos;
- estar em dia com as obrigações do Serviço Militar, para os candidatos do sexo masculino;
- estar em dia com as obrigações eleitorais;
- apresentar diploma, devidamente registrado, de conclusão de curso de graduação de nível superior, emitido por instituição de ensino credenciada pelo Ministério da Educação (MEC). No caso de a graduação ter sido realizada em instituição estrangeira, caberá exclusivamente ao candidato a responsabilidade de apresentar, até a data da posse, a revalidação do diploma exigida pelo MEC, nos termos do art. 48 da lei no 9.394/1996;
- ter idade mínima de 18 anos;
- ter sido aprovado no concurso;
- nos termos do art. 14, parágrafo único, da lei no 8.112/1990, e suas alterações, apresentar aptidão física e mental para o exercício das atribuições do cargo, verificada por meio de exames pré- admissionais.
Atenção! Esses são os requisitos para tomar posse no cargo, depois de ser aprovado no concurso. Nada impede que você estude e faça o CACD antes mesmo de se formar na faculdade, por exemplo. Outro ponto importante: não há idade máxima para ser diplomata. Ainda que você tenha 30, 40 ou 50 anos, pode prestar o CACD e, se aprovado, ingressar na carreira.
Como ser um diplomata?
“Adorei, quero ser CACDista. Como começo a estudar?”
Calma, pera aí! Antes de começar a estudar é importante entender a estrutura do concurso, o número de vagas e afins. Outra informação importante: o programa do CACD é extenso, ao todo, temos 10 disciplinas no edital.
Antes de mais nada é importante saber que o concurso é realizado anualmente desde 1996, sendo 2020 o único ano que ele não ocorreu, devido à pandemia do COVID-19.
De forma geral, a estrutura do concurso apresenta uma estabilidade que permite que os candidatos invistam em uma preparação contínua, de longo prazo e sem muitas surpresas de um ano para o outro.
De 2003 a 2018, a banca responsável por elaborar a prova junto ao Instituto Rio Branco era o CESPE. Em 2019, o IADES o substituiu no posto de banca organizadora do CACD, e mantém tal posição até o momento.
Quantas vagas?
Esse número varia. Houve anos, ali na década de 2000, em que foram oferecidas 100 vagas por ano. Depois, esse número diminuiu e chegou a 18. Depois de alguns anos em que eram oferecidas cerca de 20 vagas, o número aumentou para 34, em 2022. No ano seguinte, em 2023, foram oferecidas 50 vagas distribuídas da seguinte forma:

Quais são as fases?
O CACD possui três fases envolvendo, respectivamente, uma prova objetiva, redação e provas dissertativas de diversas disciplinas. A 1ª fase do concurso é realizada nas 26 capitais federais e no Distrito Federal, já a 2ª e 3ª fase ocorrem apenas onde há candidatos aprovados na 1º fase.
A primeira fase, também conhecida como Teste de Pré Seleção (TPS), é composta por uma prova objetiva constituída de questões do tipo CERTO ou ERRADO, totalizando 73 questões e 292 itens, com quatro itens por questão. Bastante coisa, né?
As 73 questões da prova de 2023 foram distribuídas da seguinte maneira:

Questão do tipo CERTO ou ERRADO parece simples, né? Mas não se engane! Essa fase conta com um sistema de penalização de itens errados.
“Como assim, Clipping?”
Há uma penalização de -0,125 pontos para cada item errado, ou seja, dois itens errados anulam um item certo. Por outro, cada item correto soma +0.25 pontos à nota.
Cabe lembrar ainda que, essa fase da prova funciona como uma espécie de filtro entre mais de 6.000 candidatos, selecionando os 250 que passarão para as próximas etapas do processo seletivo.
Para mandar bem nessa etapa, além de muito esforço e estudo, é importante ficar atento também ao histórico das notas de corte do CACD.

A segunda fase é composta por provas escritas de língua portuguesa e língua inglesa, de caráter eliminatório e classificatório. De acordo com o edital, são divididas da seguinte forma:
Prova de Língua Portuguesa com duração de 5 horas:
- Redação sobre tema geral com extensão de 65 a 70 linhas, valendo 60 pontos;
- Elaboração de resumo com de 35 a 50% do texto original, valendo 20 pontos;
- Exercício de interpretação, análise ou comentário com extensão de 15 a 20 linhas, valendo 20 pontos.
- Prova de Língua Inglesa com duração de 5 horas:
Redação sobre tema geral, com extensão de 45 a 50 linhas, valendo 50 pontos;
- Tradução de um texto do Inglês para o português, valendo 15,00 pontos;
- Versão de um texto do português para o inglês, valendo 20,00 pontos;
- Elaboração de um resumo em inglês, a partir de um texto escrito em língua inglesa, valendo 15,00 pontos.
E por fim, a terceira fase é composta por provas escritas de história do Brasil, geografia, política internacional, economia, direito e língua espanhola e língua francesa, de caráter eliminatório e classificatório, conforme o edital.
Elas têm duração de 4 horas cada, dividindo-se duas matérias a cada dia, de forma que uma prova seja feita de manhã e a outra, à tarde. As provas são divididas da seguinte forma:
- História do Brasil e Política Internacional: 2 questões discursivas de 90 linhas, valendo 30 pontos cada e 2 questões discursivas de 60 linhas, valendo 20 pontos cada.
- Geografia, Economia, Direito Interno e Direito Internacional Público: 2 questões discursivas de 60 linhas, valendo 30 pontos cada e 2 questões discursivas de 40 linhas valendo 20 pontos cada.
- Francês e Espanhol: elaboração de resumo em espanhol, a partir de um texto escrito em língua espanhol e de versão de um texto do português para o espanhol, valendo 25 pontos, cada. A prova de francês segue o mesmo formato.
Se você ainda não está 100% seguro de que entendeu o que é o CACD, como a prova é estruturada e quais são as suas etapas, recomendo duas coisas:
- Leia o edital do concurso na íntegra! Basta clicar aqui. O edital é o livro de regras de um concurso, trazendo todas as informações que você precisa saber sobre as provas. A leitura desse documento é fundamental e, para muitos, é o primeiro passo rumo ao sonho de ser diplomata.
- Assista esse vídeo em que conversei com a lenda, o mito, o incrível Tanguy Baghdadi, que é professor de política internacional e que trabalha há 15 anos preparando candidatos à carreira diplomática. Fizemos um verdadeiro raio x do CACD, dando inclusive alguns conselhos para quem está começando a estudar.
Vale a pena?
De volta à metáfora do flerte. Vale a pena sair de casa, numa sexta-feira à noite, para encontrar uma pessoa desconhecida, tendo de arcar com custos diversos e ainda correr o risco de se decepcionar? Será que não é melhor ficar em casa assistindo um filminho ou encontrar os(as) amigos(as)?
Ninguém pode tomar essa decisão por você, da mesma forma como somente você pode decidir se realmente vale a pena começar a estudar para o CACD. O primeiro passo você acabou de dar, que é entender exatamente o que significa ser diplomata e como você pode ingressar na carreira diplomática.
O segundo passo é refletir se você e todas as pessoas do seu círculo mais próximo estão dispostas a ingressar nessa jornada. Não se engane: o estudo para o CACD é individual, mas o processo é conjunto. Sua família, seus amores e seus amigos vão, de alguma forma, participar dessa jornada com você. Converse com seus pais, com seu namorado, sua namorada, explique os detalhes, exponha os riscos. Quanto mais eles entenderem, melhor vão poder ajudar.
Assinantes do Clipping têm acesso a um workshop sobre “Cuidados Emocionais na Preparação para Concursos” ministrado pela psicóloga Géssica Dorneles Gomes Soares. Nele, buscamos ampliar a percepção dos cacdistas sobre o cuidado com a saúde mental, através de uma reflexão sobre as experiências emocionais que atravessam a vida de quem está se preparando para o concurso. Buscamos, também, tratar sobre os afetos comuns da fase de preparação, como a vivência da ansiedade, o sentimento de solidão, o medo do fracasso e sentimento de estagnação, possibilitando assim, uma melhor relação com os mesmos.
Caso você decida que chegou a hora de evoluir do flerte para a ação, saiba que o Clipping pode te ajudar a alcançar o sonho de ser diplomata!




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