Domingo, dia 01 de novembro, 19 horas da noite! O Clipping dá seguimento à cobertuda do CACD ao vivo e a cores aqui no Blog.
Amigos do Clipping CACD, este post está sendo editado e atualizado em tempo real…
Não tem aquele ditado:
quem sabe faz ao vivo?
Pois bem, é isso que estamos tentando fazer.
Acabamos de ter acesso às questões e as estamos carregando aqui no Blog… Se você voltar ao post em 10 minutos você terá uma agradável surpresa: o Prof. Tanguy, do Curso Clio. Vai nos dar em primeira mão suas primeiras impressões sobre a prova de História do CACD 2015. Mais para frente, o Prof. João Felipe, do Curso Clio, também fará o mesmo…E assim seguiremos, falando de PI e GEO e atualizando o post ao vivo pelo resto do dia, ok? #CACDaovivo
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Já viu a nossa cobertura do prova de Inglês do CACD 2015? Veja aqui
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Já viu nossa cobertura da prova de História do Brasil do CACD 2015, com comentários do Prof. João Daniel? Veja aqui.
Agora, sim, vamos à prova de PI e GEO
#. Questão 1 de Geografia do CACD 2015
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A questão 1, pelo tema e abordagem deve ter gerado grandes dificuldades para muitos candidatos. O tema está explícito do programa de geografia,no ponto 6, Geografia Política, subitem 6.2 Temas clássicos da Geografia Política: as fronteiras e as formas de apropriação política do espaço.
Se está tão explícita no programa por que deve ter causado problemas? A banca de geografia, melhor falar de ‘as bancas’, é campeã em desrespeitar o próprio programa e usar a lógica do ‘envolvendo Espaço Geográfico pode ser questão de geografia’, com isso os candidatos consideram a preparação para a prova de geografia muito subjetiva já que ‘pode cair qualquer coisa’.
Para piorar, esse tema já foi mais badalado em anos anteriores: entre 2004 e 2009 era umaaposta recorrente porque houve ampla discussão sobre a reestruturação do Programa de Promoção do Desenvolvimento da Faixa de Fronteira (hoje meio esquecido) no PPA 2004-2007 e saiu o livro Continente em Chamas, em 2005, com um texto da Lia Osório Machado, professora da UFRJ e grande referência geográfica do tema, sobre o papel das cidades gêmeas.
Naqueles anos todos nada aconteceu e quando caiu o tema ‘fronteira’ foi no âmbito interno, na lógica de expansão da fronteira agrícola. Para ilustrar como o tema não era o ‘mais quente do ano’, no meu trabalho de terceira fase no Curso Clio eu propus 16 questões ao longo de 8 semanas e a faixa de fronteira e cidades gêmeas entraram aos ’45 do segundo tempo’, na aula final, como temas que também podem ser abordados.
Um ponto que talvez tenha ajudado alguns candidatos foi o estudo Arranjos Populacionais e Concentrações Urbanas, esse sim um tema quentíssimo, publicado em março desse ano, que entre 294 Arranjos identificados no território brasileiro apontou 27 Arranjos Fronteiriços. Quem leu o trabalho ou os principais pontos ou respondeu uma questão sobre (foi uma das questões da 1ª semana) deve ter se beneficiado. Típico exemplo do ‘atirou no que viu e acertou no que não viu’.
Quanto a questão em si, com 90 linhas e um volume grande de informações, os pontos fundamentais a serem abordados eram:
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A mudança de percepção da idéia histórica da fronteira brasileira como peça fundamental da defesa nacional e da imposição de barreiras às ameaças externas para uma visão integracionista. Pode ser uma boa introdução usando as múltiplas definições de fronteira, como limite internacional, ‘front’ ou faixa de fronteira
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A evolução histórica da nossa Faixa de Fronteira, desde a Lei de Terras que definiu essa faixa em 10 léguas a partir do limite internacional e as sucessivas modificações nas Constituições Federais de 1934, 1937 e 1946 até o estabelecimento em 150 km de largura naLei 6.634, de 2/5/1979.
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A caracterização dessa faixa de fronteira em termos demográficos e econômicos. Seria interessante apontar as grandes distâncias da Faixa de Fronteira e do Limite Internacional para os centros decisórios, assim como a diferenciação da própria Faixa.O ideal era citar a divisão proposta por Lia Osório machado e usado nos planos governamentais: Arco Norte- indígena, Central e Arco Sul.
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Analisar as interações transfronteiriças e destacar os fatores que as determinam:Trabalho, Fluxo de Capital, Terra e outros recursos naturais, consumo de bens e serviços.
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Conceituar as cidades gêmeas e apontar alguns exemplos. Imagino que a maioria dos candidatos vai usar uma de nossas triplíces fronteiras, no caso Foz do Iguaçu (citação obrigatória porque é a nossa maior cidade na Faixa de Fronteira) – Ciudad Del Este- Puerto Iguazu, mas seria interessante pelo menos um exemplo e análise em cada umas das 3 partes de nossa Faixa de Fronteira. São muitos exemplos e aqui faz diferença um conhecimento mais denso do território brasileiro. Os conjuntos Tabatinga- Letícia, Corumbá- Puerto Suarez, Ponta Porã- Pedro Juan Caballero,Uruguaiana- Paso de Los Libres e Santana do Livramento- Rivera são de maior expressão.
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Aos citar os exemplos de cidades gêmeas seria ideal a classificação, adotada por Lia Osório, do nível de interação na fronteira, desde os mais fracos (Margem e Zona Tampão) até os de maior intensidade :Frente, Capilar e Sináptica.
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O conhecimento geral do candidato era fundamental para citar o papel da infra estrutura no nível de centralidade das cidades de fronteira. Algum conhecimento da hierarquia urbana e os exemplos de pontes, rodovias existentes ou em construção seriam de grande valia. Imagino que obras transfronteiriças como as diversas pontes no Arco Sul, a BR 156, BR 174 e a Carretera Interoceânica Sul devem ter sido utilizadas pelos futuros diplomatas.
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Com 90 linhas para escrever, havia espaço suficiente para utilizar os conceitos de Território, Territorialidade , Lugar e Rede conforme os exemplos de interações eram apresentados.
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As diversas escalas geográficas envolvidas na análise também são importantes. Os diversos projetos de APL- Arranjos Produtivos Locais poderiam ser utilizados nessa abordagem. O fato de existir um Plano Nacional para o Desenvolvimento da Faixa de Fronteira facilita a análise das múltiplas escalas: Local, Regional, Nacional e Internacional.
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A questão valorizava uma lógica integracionista para a fronteira mas, aspectos de segurança poderiam e deveriam der utilizados, destacado a necessidade de articulação dos países para combate as atividades ilegais como o contrabando e os diversos tráficos.
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Diversos conhecimentos, não necessariamente das aulas e leituras de geografia, ilustrariam a resposta. Entre os muitos exemplos destaco o papel da UNILA- Universidade de Integração latino Americana em Foz do Iguaçu e o Estatuto da Fronteira Brasil- Uruguai.
Aglomerações fronteiriças? O tema é tenso. Mas foi objeto de aula do Prof. João Felipe, do Clio. Aliás, coincidentemente, o tema foi abordado justamente no mesmo dia em que o Prof. gravou o primeiro Drops dele para o Clipping (veja aqui). É verdade que mesmo assim não foi um dos temas mais fáceis de ser tratado. Mas para você que tem acompanhado o Clipping tem muuuuuita coisa que poderia ter sido invocada. Tipo a inauguração da ponte sobre o Rio Oiapoque. Saiu isso mais de uma vez nos clippings alguns meses atrás!
Embora o tema não seja assim tão obscuro, realmente não era mesmo um dos mais cotados para o CACD 2015, mesmo tendo sido abordado pelo Prof. João Felipe, do Clio. Há uma série de obras e artigos sobre "aglomerações fronteiriças". Há inclusive relatórios do IPEA sobre o tema (só que de 2011, veja aqui).
Curioso é que a prova de DIP do ano passado cobrava justamente um caso envolvendo cidades transfonteiriças e a legislação brasileira (lembra?). É tema caro à integração regional. A questão da ponte sobre o Rio Oiapoque (possivelmente o mote da questão) deu o que falar. Mas realmente não era um tema fácil…
Embora o tema tenha surpreendido alguns candidatos. Não era nada que não daria para elaborar sobre, certo? Antes uma questão que lhe dá certa margem para elaborar do que uma questão estilo ano retrasado (Sahel). Em que era necessário ser extremamente objetivo. #avante
#. Questão 2 de Geografia do CACD 2015
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Essa questão me lembra um pouco a questão do ano passado que pedia uma análise das implicações ambientais de atividades agrícolas, industriais e energéticas no Brasil. Em 2014, muitos bons candidatos tiveram um mau desempenho na pergunta porque não apontaram problemas ambientais quando a questão era explícita quanto a isso. Naquele ano, o correto era apontar os problemas e as medidas mitigadoras adotadas pelo Brasil.
Esse ano, a banca foi ainda mais explícita ao apontar uma contradição entre a consagração brasileira com número expressivo de sítios definidos como patrimônios culturais e naturais da humanidade e as especificidades do nosso desenvolvimento territorial histórico.
É inegável que a questão causou incômodo para os candidatos, assim como para quem trabalha com geografia na preparação do concurso porque, com um programa que impõe um estudo de enorme quantidade de temas, a banca resolve fazer uma abordagem que foge muito ao que se espera.
Não podemos afirmar que o tema está fora do programa porque o ponto 1, história da geografia, tem o subitem 1.3, que trata das correntes metodológicas da geografia e abre essa possibilidade, dado a existência da geografia cultural e humanista, assim como a valorização do conceito geográfico de Lugar.
Na verdade, da forma como está escrito o programa, difícil é encontrar algo que, a rigor, não tenha alguma conexão. No entanto, como são 2 questões, não foi a escolha mais equilibrada. Poderiam, pelo menos, ter explicitado no programa um ponto denominado geografia e cultura.
De qualquer forma a questão pode ser respondida a partir da ideia de uma ocupação histórica predatória, o que não foi uma exclusividade brasileira. Os candidatos podem destacar o modelo de ocupação típico do modelo de ‘fronteira de recursos´, que marca os países de formação colonial. Antônio Carlos Robert Moraes e Bertha Becker, entre outros, têm importantes publicações sobre o tema.
A incorporação de novas terras ao processo produtivo ao longo de séculos, com uma realidade brasileira e mundial de baixíssima preocupação com a natureza, deixou suas marcas, como mostra o que ocorreu com o bioma Mata Atlântica.
Para não ficarmos apenas nos exemplos do desmatamento, algum exemplo de perda de Patrimônio cultural ou natural seria importante. Entre as sugestões, temos duas associadas à inundações: Sete Quedas e o Arraial de Canudos.
É importante destacar que essa visão utilitária da natureza, em que as leis que versavam sobre o tema, geralmente, buscavam normatizar o acesso aos recursos e não protege-los, começa a mudar mais claramente na 2ª metade do século XX e, no Brasil, mais profundamente a partir da criação da lei 6.938 que instituiu a Política Nacional de Meio Ambiente e inaugurou a visão preventiva na nossa legislação com a obrigatoriedade de licenciamento prévio para atividades potencialmente poluidoras.
O arcabouço jurídico de proteção à natureza cresceu muito a partir daí e os candidatos podem citar algumas das leis e ações mais importantes como a criação do IBAMA, do Ministério do Meio Ambiente, a Lei de Crimes Ambientais e o seu princípio do poluidor-pagador e a que institui o SNUC´s, para normatizar as nossas Unidades de Conservação ambiental.
Como o espaço de 60 linhas costuma gerar problemas, fica difícil definir o nível ideal da contextualização do quadro internacional, ou seja, da evolução da Ordem Ambiental internacional. Uma citação muito boa era a da Conferência sobre a Biosfera, da própria Unesco, realizada em 1968, além das óbvias Conferência de Estocolmo, de 1972 e a CNUMAD de 1992.
Essa evolução das preocupações ambientais no Brasil e dos mecanismos de gestão ambiental no nosso ordenamento territorial não devem ser usadas para mascarar a continuidade dos problemas e dos diversos conflitos ainda existentes no uso do território e a análise da situação atual da Amazônia, assim como do pantanal e do cerrado, demonstra essa situação.
O Brasil possui patrimônios culturais e naturais da humanidade. Não é de imaginar que os candidatos saibam os quase 20 existentes no Brasil, mas, citações ao Parque Nacional de Iguaçu, Reservas de Fernando de Noronha e Atol das Rocas, Reservas da Mata Atlântica na Costa Do Descobrimento, entre outras possibilidades, ilustrariam a resposta.
Na parte mais complexa da resposta, considerando que trata-se uma prova de geografia. A abordagem cultural deveria enfatizar a relação afetiva de grupos sociais com o espaço geográfico. A lista do Patrimônio da Unesco traz, entre outras, Olinda, o centro histórico de Salvador e São Luís, Ouro Preto, a paisagem carioca entre o mar e as serras, entre outras.
Tirando algum conhecimento mais específico dos candidatos, o caminho mais simples para a resposta era a partir da análise dos processos de construção e reconstrução dos espaços urbanos, com a especulação imobiliária e, novamente, os múltiplos interesses pelo uso do território e a necessidade de proteção do patrimônio.
Coincidentemente, na mesma semana do concurso, foi divulgado que grande parte do antigo calçamento de 200 anos atrás descoberto nas obras do VLT carioca foi destruído. Como são muitos exemplos, o importante era o candidato usar o que lhe era mais familiar para ilustrar a questão
Sítios do Patrimônio Cultural:
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1980 – A Cidade Histórica de Ouro Preto, Minas Gerais
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1982 – O Centro Histórico de Olinda, Pernambuco
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1983 – As Missões Jesuíticas Guarani, Ruínas de São Miguel das Missões, Rio Grande de Sul e Argentina
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1985 – O Centro Histórico de Salvador, Bahia
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1985 – O Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, Minas Gerais
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1987 – O Plano Piloto de Brasília, Distrito Federal
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1991 – O Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, Piauí
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1997 – O Centro Histórico de São Luiz do Maranhão
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1999 – Centro Histórico da Cidade de Diamantina, Minas Gerais
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2001 – Centro Histórico da Cidade de Goiás
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2010 – Praça de São Francisco, na cidade de São Cristóvão, Sergipe
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2012 – Rio de Janeiro, paisagens cariocas entre a montanha e o mar
Sítios do Patrimônio Natural:
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1986 – Parque Nacional de Iguaçu, em Foz do Iguaçu, Paraná e Argentina
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1999 – Mata Atlântica – Reservas do Sudeste, São Paulo e Paraná
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1999 – Costa do Descobrimento – Reservas da Mata Atlântica, Bahia e Espírito Santo
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2000 – Complexo de Áreas Protegidas da Amazônia Central
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2000 – Complexo de Áreas Protegidas do Pantanal, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
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2001 – Áreas protegidas do Cerrado: Chapada dos Veadeiros e Parque Nacional das Emas, Goiás
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2001 – Ilhas Atlânticas Brasileiras: Reservas de Fernando de Noronha e Atol das Rocas
Assim como a questão 1, pegou muita gente de supresa também? Patrimônio cultural?
Certamente não é o que se espera numa prova de Geografia. Mas aí novamente: também não é algo que não dê para elaborar… É extremamente importante, em se tratando de uma terceira fase de GEO ter lido na íntegra aquele clássico Geografia: Pequena História Crítica, de Robert Moraes e outros livros introdutórios aos conceitos-chaves da disciplina, como Espaço, território, região e lugar.
Lugar: ao que tudo indica essa é uma questão em que a abordagem sobre a categoria de análise "lugar" deveria ter sido bem explorada. Daí a importância de ter domínio de conceitos chave da Geografia Humanista, como topofilias, de Yi-Fu-Tuan, etc.
É uma questão que dá ampla margem para elaborar, é uma questão bem aberta. Isso é bom… Favorece quem realmente está afiado e não ficou só na decoreba de mapas. Estudar Geografia é mais do que isso… E dessa vez, a banca deixou claro esse recado.
Aguardemos os comentários do Prof. Pois, como o Clipping sempre diz só eles mesmos para desvendar isso. Afinal, repetindo: professor é professor.
#. Questão 3 de Política Internacional do CACD 2015
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Questão dificílima! Antes de qualquer coisa, cumpre ressaltar: pela primeira vez na História do CACD a prova de Política Internacional está com cara de uma prova de Política Internacional e não com cara de uma prova de Política Externa Brasileira.
Isso é bom ou ruim?
Isso é bom para quem é da área de Relações Internacionais ou para quem investiu mais em leituras aprofundadas do Clipping Internacional, que é onde fica o conteúdo mais crítico e mais destinado a aprofundamento na plataforma. Quem ficou só no estudo de PEB pode ter tido um pouco mais de dificuldade esse ano…Falemos a verdade, o enunciado é muito pouco claro. E confundiu muuuuuuuita gente! Mas nem tudo nessa questão é teoria de RI, boa parte da questão versa sobre agenda.
Uma curiosidade, sabe esse excerto do artigo do Clodoaldo, da Revista de Política Externa, que motivou a questão? Então, se você é um usuário tester do FichadorWEB do Clipping, não lhe parece familiar? Olha qual foi o GIF que o Clipping mandou semana retrasada para servir de tutorial para quem está testando o FichadorWEB.
Coincidência? Um bom pressário para quem é usuário tester do FichadorWeb? #aguardemos
Mas agora sério: foi difícilima essa questão e provavelmente essa prova de PI desse ano vai definir quem vai ficar entre os 30 e quem vai ficar fora.
A prova de Política Internacional de 2015 teve o seu momento médico e seu momento monstro. Uma questão desafiadora, mas possível de ser respondida, que exigiu uma visão ampla das relações internacionais contemporâneas, com olhar crítico, e sem se desgarrar do porto seguro dos CACDistas – a política externa brasileira. Essa foi a questão #3, a questão médico. Sobre o monstro, falarei em breve.
A questão 3 reflete sobre o processo de mudança do mundo atual e dá a deixa para debater a posição do Brasil neste movimento. As certezas do mundo pós-Guerra Fria foram quebradas paulatinamente, e o Brasil se beneficiava da ordem que emergia. A ONU passou a clamar por reformas, e o Brasil apresentou um G-4 para movimentar o debate; a OMC admitiu a existência da agricultura como tema a ser debatido e o Brasil se organizou em um G-20, cheio do vigor das nações emergentes; diante da paralisia da Rodada do Desenvolvimento – nome auspicioso de uma era pós-Guerra Fria – a solução passou pela eleição de um brasileiro para a diretoria-geral da organização; na FAO, a eleição de José Graziano parecia celebrar os avanços sociais da periferia mundial; e o FMI deu maior espaço para as nações emergentes, em decisão articulada no G-20 Financeiro – e não no G-8. A sensação era a de que os emergentes tinham saído do grupo daqueles que trazem problemas para o mundo para serem partes da solução.
Mas, quando estas certezas começaram a se consolidar, ficou claro que não passavam de apenas mais uma etapa da transição. A reforma da ONU não saiu, a Rodada do Desenvolvimento não foi concluída, os periféricos também entraram em crise, botando em risco os avanços sociais, as reformas do FMI não foram implementadas e o G-8, retransformado em G-7, voltou a ganhar peso.
A questão debate o papel do Brasil em toda essa transição. A política externa brasileira vive um momento de requestionamento das suas bases, objetivos e do papel do país no mundo. Esta questão dialoga com a de 2014, que pedia para comentar a diplomacia como política pública. Se a questão do ano passado perguntava sobre o papel da diplomacia perante a sociedade brasileira, a de 2015 questiona a posição do Brasil diante de um mundo pós-pós, em que as mudanças parecem não dar sossego.
“Mas a questão sequer menciona o Brasil, era necessário citá-lo?”
Ora, por mais que a política externa não fosse mencionada, falar sobre o Brasil ajudaria a responder. A pergunta falava sobre a “disjunção entre ordem e poder no mundo atual”, e os países emergentes são novos poderes, que questionam a ordem internacional antiga, pouco democrática e inclusiva. Neste sentido, mencionar o Brasil era uma forma de mencionar uma posição simbólica dos países emergentes. Esta questão consolida uma tendência já observada no ano passado: questões conceituais, afeitas a debater a posição do Brasil no mundo que o rodeia. Todos atentos para 2016.
#. Questão 4 de Política Internacional do CACD 2015
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Relações China e Japão na prova de PI?
Calma. Se foi difícil para você, foi difícil para todo mundo. Ninguém esperava isso.
Mas sejamos bem francos. Você dá conta de elaborar bastante coisa a respeito.
Como não?!
Tipo, o Clipping tinha uma tag com o título Mar Meridional da China. Foram dezenas e dezenas de matérias sobre a disputa de China e Japão na região. E o quadro contextual dessas matérias traziam bastante coisa sobre as relações bilaterais. Questão de Taiwan, foi outra coisa que saiu muuuuuuito no final do ano passado. E tinha muita coisa no Clipping Internacional. É claro, lembrar de todos os dados no calor do momento é complicado.
Falando abertamente: foi uma questão de PI bem difícil.
E lembra que o Clipping acabou dizendo que a prova de PI seria a vingança do DOE, nosso patinho feio?
Pois é… Parece que essa prova de PI na verdade foi a vingança do Clipping Internacional (que não deixa de ser outro patinho feio). Apenas 35% dos nossos usuários acompanham com regularidade o Clipping Internacional, que é, na plataforma, o locus por excelência do conteúdo destinado a aprofundamento em temas de geopolítica, que foi o foco dessa prova extremamente tensa.
É impossível ler a questão #4 de 2015 e não lembrar da questão #4 de 2006.
Dá uma olhada:
“A República Popular da China tem manifestado reiteradamente que a sua condição atual de “potência emergente” deve ser entendida como uma nova fase histórica, marcada pela “ascensão pacífica”, destinada a beneficiar o seu entorno imediato e as relações com o exterior. Discorra sobre a inserção regional da República Popular da China a partir do início dos anos noventa, considerando as principais variáveis em jogo.”
Essa questão era considerada um ponto fora da curva, uma ilha de bizarrice em meio a dezenas de questões coerentes cobradas pela banca de PI, com seus diferente níveis de dificuldade.
Pois a questão #4 repetiu a dose, com uma crueldade semelhante. Ao ler a questão, me lembrei de Hans Morgenthau, que dizia que o papel do diplomata é usar seus conhecimentos técnicos para bem interpretar o cenário internacional, de modo a orientar as ações do chefe se estado.
A questão soou como uma avaliação prática da capacidade dos postulantes à diplomacia de interpretarem um contexto regional cada vez mais indispensável para o trabalho de qualquer diplomata no mundo. O poder econômico, político e militar da China e o pivô dos Estados Unidos para a Ásia e Pacífico mostram que esta região assume, paulatinamente, uma posição que pertence, desde a Segunda Guerra Mundial, à Europa.
A centralidade deste tabuleiro fica clara quando os Estados Unidos apostam as suas fichas na criação do TPP, que envolve países do nosso entorno regional, como Chile e Peru (além de incluírem o Japão e excluírem a China). Ou ainda quando o Brasil se preocupa com a sua capacidade de exportar para esta região, onde se encontra nosso maior parceiro comercial. Alguns candidatos podem ter se lembrado da tensão envolvendo as Ilhas Senkaku ou as homenagens feitas por governantes japoneses a militares considerados criminosos de guerra pela China, o que ajudaria a reforçar a existência de tensões históricas e incontornáveis entre os dois países e o impacto que isso traz para a reforma da ONU.
Neste sentido, é importante reconhecer que a questão tentou não ser tão malvada assim, e deu a deixa para que se falasse sobre o impacto das relações entre China e Japão na reforma da ONU, com um veto garantido da primeira a qualquer tentativa de ingresso do segundo ao Conselho de Segurança na condição de membro permanente. Como se sabe, o Japão é parceiro do Brasil no G-4 e, embora já tenha declarado, anos atrás, seu afastamento, o primeiro-ministro Shinzo Abe participou da última cúpula do grupo, ocorrida em setembro, às margens da Assembleia Geral. A tentativa, no entanto, não deu certo.
Pedir uma resposta de 60 linhas sobre as relações entre China e Japão, ao longo das últimas décadas, com uma conexão extremamente tênue com a posição brasileira, faz com que esta questão repita a maldade de 2006.
E aí o que achou da prova? Não se esqueça de responder a enquete abaixo>>>
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