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Entrevista com Nathalia Quintiliano, pesquisadora e professora da pós-graduação do Clipping

Com uma carreira sólida em relações internacionais, Nathalia Quintiliano possui 10 anos de experiência na região do Oriente Médio, onde atuou em diversos contextos culturais, também trabalhou para agências das Nações Unidas e ONGs internacionais.

Atualmente, Nathalia é professora da Pós-Graduação do Clipping em Relações Internacionais e Negociação, e também atua como pesquisadora e consultora de M&A, focada em operações humanitárias em áreas afetadas por situações adversas. Seu trabalho engloba a análise e gestão de conflitos, além da reforma do setor de segurança. 

Em entrevista com a consultora, conhecemos uma Nathalia que vai além da vida profissional. A Nathalia Quintiliano (36), mestre em política de conflito e violência pela Universidade de Leicester – Reino Unido, é mãe, possui quatro pets e muitas plantas. Para a pesquisadora, vivenciar novos lugares e abraçar novas culturas são temas centrais da sua vida. 

“Adoro conversar com pessoas – mesmo as que não conheço. Também adoro me mudar. Vivenciar novos lugares e abraçar culturas diversas são temas centrais na minha vida. Essas experiências me fizeram desenvolver uma apreciação profunda pela história, atualidades, e principalmente pelas complexidades das relações humanas e internacionais”, declarou Nathalia.

Leitora assídua, a internacionalista se considera sortuda por poder dividir com o trabalho o seu gosto pela escrita e leitura. 

“No tempo livre, gosto de ler sobre temas diversos e estou sempre fazendo algum curso… É impossível escolher um livro favorito, mas gosto muito da literatura que traz percepções de pessoas que tiveram experiências muito diferentes das minhas. Além, claro, de livros que tratam de política internacional e comportamento humano, que são a minha paixão. Eu gosto muito da minha área de trabalho, então às vezes meus hobbies e meu trabalho se confundem.”

Nathalia iniciou na área de Relações Internacionais por meio da graduação, e trabalhou para empresas e agências de diversos países, como Turquia, Jordânia, Síria, Iraque, Líbano, Iêmen e Djibouti. Ao falar sobre sua vocação, Quintiliano acredita que desde sempre se imaginou trabalhando com operações humanitárias, mesmo inicialmente não sabendo em qual área temática gostaria de atuar. 

Na entrevista, ela explica que trabalhou com logística internacional por muitos anos antes de conseguir uma oportunidade na área humanitária. “Então, eu fui fazer Relações Internacionais pensando que seria o melhor caminho para conseguir atuar nessa área. No entanto, foi muito difícil entrar no setor”, afirmou Nathalia. 

A trajetória profissional da internacionalista conta com extensos anos de experiência em agências das Nações Unidas, em que colaborou como Oficial de Monitoramento. Explicando sobre sua rotina, Nathalia nos contou que atuou em uma área bem específica, que envolvia o monitoramento do envio de ajuda humanitária para áreas dominadas por grupos armados não-estatais, considerados como terroristas por parte da comunidade internacional. 

“Nos conflitos recentes, tanto governos como outros grupos armados não-estatais tentam bloquear o envio de ajuda humanitária para áreas controladas por esses grupos, alegando que os itens podem ser desviados, ou mesmo serem usados para contrabando de armas e itens militares. O problema é que isso tem um impacto devastador para os civis que ficam presos nesse fogo cruzado. Nas últimas décadas, por exemplo, 90% das vítimas dos conflitos armados foram civis. Ou seja, em uma guerra, aqueles que estão lutando estão mais protegidos do que uma criança de 2 anos. É responsabilidade da comunidade internacional proteger essas pessoas, e a ajuda humanitária é uma das formas de contribuir para isso.”

Quintiliano explica que a rotina pode ser muito diferente de uma missão para outra, embora seja do mesmo departamento. Na Síria, ela explica que a rotina envolvia ir todos os dias aos pontos de fronteira para monitorar e coordenar a passagem dos materiais, garantindo o cumprimento do embargo de armas e munições, a aplicação dos protocolos de verificação da carga e a coordenação com as autoridades para a entrega da ajuda humanitária.

Na missão do Iêmen, Nathalia esclareceu que o trabalho era em alto-mar, com o monitoramento da abordagem de navios comerciais suspeitos de descumprir o embargo de armas. 

“A rotina varia muito de acordo com o contexto. Mas tem uma coisa que todo humanitário faz: redigir relatórios. Como essas missões são financiadas por diversos países, temos antes de tudo que explicar a relevância dessas operações, dos itens que serão enviados, das pessoas que queremos alcançar, e principalmente analisar o contexto onde vamos atuar”, explicou a pesquisadora. 

Nathalia nos elucida que o oficial de monitoramento é responsável por verificar se os projetos estão cumprindo o que foi estipulado de acordo com as normas, convenções e protocolos internacionais e da ONU. 

Falando sobre suas experiências no trabalho internacional, conhecendo culturas diferentes do Brasil, Nathalia Quintiliano comenta que as situações mais marcantes para ela foram muito mais relacionadas aos impactos dos conflitos e da pobreza extrema do que pelas diferenças culturais, pois acredita que as diferenças são a grande riqueza do trabalho. “Por mais que o trabalho seja em um país específico, o time é do mundo inteiro. Então eu trabalhei com israelense e palestino, indiano e paquistanês, russo e ucraniano no mesmo time, juntos”, complementa. 

Compartilhando suas experiências, Nathalia comentou que nas missões de alto-mar por muitas vezes era a única mulher na operação, principalmente no início da missão, e a tripulação de países mais conservadores achavam a presença dela estranha, mas tinham muita curiosidade em saber como ela foi parar alí. 

“Uma vez, um membro do meu time, de um país da Europa ocidental, fez um comentário super desrespeitoso sobre mulheres. Quem veio conversar comigo, perguntar se eu estava ok, se eu gostaria de fazer algo a respeito, foi um senhor super conservador, religioso, etc. Então isso te obriga a rever os estereótipos que a gente cria sobre as culturas”, afirmou a consultora. 

Ao conta de uma experiência pessoal que a deixou mais abalada, Nathalia compartilha conosco que ao socorrer uma mulher ao hospital, a pesquisadora descobriu que a infecção da amiga estava, de alguma forma, relacionada a um procedimento de mutilação genital (MGF) que ela sofreu na infância. Ao procurar formas de ajudar a reverter o procedimento, visto que quase todas as MGF são reversíveis, Nathalia foi surpreendida quando sua amiga lhe contou que ela não tinha a intenção de reverter o processo porque – por mais que ela não concordasse – fazia parte da sua identidade. 

“Ela é uma mulher que adorava sair, dançar em público, cantar… Ela dizia que não queria casar nunca e que queria só curtir a vida. No entanto, para a minha surpresa e só minha, ela me explicou que não tinha nenhuma intenção de reverter o processo. Mais do que o procedimento em si, o fato dela ser uma mulher tão livre e não querer reverter aquele processo me surpreendeu (…) Então, imagina, eu não tinha nem cogitado a possibilidade dela não querer. Enfim, ela cuidou da infecção e seguiu a vida normalmente e nós continuamos amigas. Ela me deu a maior ajuda porque ela me fez entender de forma muito clara que eu não sou detentora do jeito correto de viver. Que eu não sei necessariamente o que é melhor para o outro. E que essas pessoas não são pobres coitadas, infantilizadas, esperando que alguém vá lá salvá-las.”

Nathalia enfatiza que “o trabalho humanitário não é caridade, é uma carreira que como outra qualquer tem normas, regulamento, burocracia, etc. Não depende da empatia e da bondade de ninguém. É um serviço que as pessoas têm direito quando se encontram na situação mais difícil e vulnerável da vida delas.  E é um serviço do qual todos nós podemos um dia precisar.”.

Ao decorrer da entrevista, a consultora fala mais sobre as áreas de atuação nas Relações Internacionais. Inicialmente, Nathalia trabalhou com logística internacional, mas depois seguiu para as operações humanitárias. Para Nathalia, não houve uma transição de carreira, mas sim de área de atuação. “Como consultora, eu tenho mais flexibilidade e poder de decisão sobre os projetos que eu quero participar, mas se trata mais de uma questão contratual mesmo. Recentemente aceitei uma proposta para implementar um projeto de desenvolvimento em Moçambique por um ano”, explica. 

Ao abordarmos sobre os desafios para implementação plena do direito internacional humanitário, Nathalia acredita que o principal desafio atual seja o aumento dos conflitos armados em áreas urbanas e densas, que alteram a dinâmica dos conflitos. 

“Hoje a maior parte da população vive em áreas urbanas, e somos altamente dependentes da infraestrutura dessas cidades e suas linhas de suprimentos para a nossa sobrevivência. Por consequência, a guerra urbana é muito mais devastadora para os civis do que as guerras convencionais. Nesse contexto, a demarcação entre civis e combatentes geralmente não é tão clara, dificultando o processo de distinção entre aqueles que participam e aqueles que não participam das hostilidades. Além disso, essa falta de claridade também cria uma zona obscura que muitos países  utilizam para tentar justificar violações graves ao direito humanitário, como ataques arbitrários e excessivos contra a população civil, claramente ilegais”, argumenta. 

A internacionalista complementa que outro fator importante é a politização da interpretação, aplicabilidade, e implementação das leis humanitárias. “Nas últimas décadas, o assunto deixou de ser um tema discutido apenas por especialistas para entrar no domínio público, o que é excelente. No entanto, existe um risco maior para a politização do tema e de seus princípios fundamentais”, declara. 

Para Quintiliano, a politização pode levar a aplicação seletiva, que é justamente o que o direito humanitário quer evitar, pois “se baseia na ideia de que existe uma categoria de pessoas que deve ser protegida o máximo possível da violência da guerra independente de que lado do conflito ela se encontre, ou da razão pela qual o conflito tenha começado”. Nathalia comenta que, diferentemente do que o DH defende, as pesquisas atuais mostram que a opinião pública está mais propensa a deixar um crime de guerra impune quando acreditam que a causa da guerra é justa, mesmo que o crime seja deliberado, cruel, contra vulneráveis e comprovado. 

A carreira de internacionalista possui muitas áreas de atuação, por isso, pedimos para a Nathalia deixar um conselho para quem deseja seguir na área humanitária e de desenvolvimento. 

“Eu acho que a área humanitária e de desenvolvimento internacional é fascinante. Ela engloba uma grande variedade de profissionais que usam suas habilidades específicas para tentar aliviar grandes questões globais, como a pobreza, desigualdade, direitos humanos, os conflitos armados, os eventos climáticos, etc. Então acho que o primeiro passo é entender melhor o setor, quem são seus atores, quais são suas normas, convenções, e aí entender qual seria a área de interesse e montar um plano a partir daí”, incentiva. 

No entanto, a consultora alerta que pode ser um pouco frustrante para quem possui uma visão romantizada do setor. “Como falei, não se trata de salvar o mundo ou fazer caridade. Afinal, ninguém precisa ser um trabalhador humanitário ou de desenvolvimento para ajudar pessoas, e muito menos sair do país para isso. Mas se a ideia for ajudar em grande escala, de forma sistemática, baseada em evidências, gerenciando recursos, implementando projetos, garantindo que alcance o máximo de pessoas, negociando com diferentes atores internacionais, aí sim acho que o setor é para você!”, aconselha. 

Nathalia Quintiliano também faz parte do corpo docente da nova pós-graduação do Clipping em Relações Internacionais e Negociação, onde ministrará a disciplina de Direito Humanitário Internacional. O curso foi planejado para formar internacionalistas altamente qualificados e capazes de desempenhar papéis cruciais na negociação, abrangendo habilidades essenciais para negócios até uma compreensão aprofundada das complexidades culturais que permeiam as interações globais. 

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