Entrevista com aprovado no concurso da diplomacia: Jônathas Silveira

Jônathas Silveira, que veio do interior do Nordeste, precisou se valer de uma boa dose de criatividade e pragmatismo para contornar os desafios de estudar para um dos Concursos de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD). O ano de 2016 foi atribulado na vida pessoal e candidato já vinha por um tempo buscando outros concursos com alternativa ao sonho da diplomacia. Justamente quando chegou a pensar em desistir e abandonar de vez os estudos para o CACD, veio a aprovação. Hoje, Jônathas é diplomata e também Prof. de Política Internacional no Gran Cursos, um dos maiores cursos preparatórios especializados no CACD. Sorte? Genialidade? Para Jônathas, há uma outra explicação. Confira o bate-bapo para entender melhor essa história.

Dividimos esse post em 3 partes:

1. Raio X do candidato

2. Vídeo depoimento

3. Entrevista com o candidato

1. Raio X do aprovado na diplomacia

Vamos às informações sobre o desempenho da Jônathas Silveira no CACD:

  • Economia: desempenho de 67%
  • História do Brasil: desempenho de 89%
  • Direito Internacional: desempenho de 93%
  • PI e GEO: desempenho de 71%
  • Português: 76%
  • Prova Objetiva: desempenho de 65%
  • Francês e Espanhol: desempenho de 74%
  • Inglês: desempenho de 71%

? Jônathas Silveira ficou em 22° lugar geral no CACD

2. Vídeo depoimento

3. Entrevista com o aprovado na diplomacia, Jônatas Silveira

Clipping: Você vem de uma pequena cidade no interior do Rio Grande do Norte chamada Macau. Geralmente, nessas pequenas cidades, quando alguem  passa em um concurso de destaque a repercussão é muito grande. Como Macau recebeu a notícia da sua aprovação? 

Jônathas: Macau recebeu a notícia da minha aprovação com muito orgulho e entusiasmo. Minha mãe fala que, até hoje, as pessoas, quando a encontram no trabalho, ainda dão parabéns. Sinto-me muito honrado em ter sido motivo de orgulho para o povo macauense. Macau é a cidade onde vivi a maior parte da minha vida e onde a maior parte da minha família ainda mora, inclusive meus pais.

Clipping: Por estar isolado dos grandes centros de preparação, você recorreu a muitas estratégias de estudo colaborativas e autodidatas para estudar para a diplomacia. Uma delas foi a participação em um Grupos de Estudo com mais 2 colegas. Curiosamente  todos participantes desse grupo de estudos foram aprovados. Por que grupos de estudos dão tão errado para uns candidatos e no caso de vocês deu tao certo? Qual é a receita secreta desse seu grupo?

Jônathas: Na verdade, o grupo de estudos era composto por mais 3 colegas. Dos 4, todos foram para as últimas fases do CACD, em 2015 e em 2016. Infelizmente, um ainda não consegui ser aprovado, mas nós do grupo seguimos dando todo o apoio a ele. Nosso lema sempre foi “leave no man behind”. Eu acredito que os principais fatores para o excelente resultado do meu grupo de estudos foram a humildade intelectual, o respeito e o pragmatismo. Ou seja, quando havia qualquer dúvida ou quando alguém corrigia o outro, a gente sempre aceitava numa boa. Ninguém estava preocupado em mostrar que era melhor que ninguém. A gente também respeitava muito o potencial um do outro, de modo que ser corrigido pelos outros membros do grupo era algo natural para nós.

Além disso, somos muito pragmáticos. A gente sabia separar bem o tempo dedicado às tarefas do grupo e ao estudo individual.  Outra fator fundamental foi termos formado uma espécie de “support group”. Sempre tirávamos algum tempo de nossas reuniões para compartilharmos medos, anseios, dificuldades. Às vezes, quando a preparação de algum entrava em crise, a gente fazia reunião extraordinárias para trocar impressões sobre o que fazer.

Clipping: Pergunta clássica: como o Clipping te ajudou para o CACD? E para outros concursos que caíram atualidades, como o do TCU e o TCE ?

Jônathas: O TCE-CE não caiu atualidades, mas o Clipping foi útil em outros concursos, como o do TCU. Manter-se atualizado não é algo fácil, diante da quantidade excessiva de informação que se produz a cada segundo. Uma ferramenta como Clipping ajuda a selecionar os temas mais relevantes no momento. Embora eu não lesse o Clipping todos os dias, eu sempre tirava alguns momentos da semana para verificar o que que achava mais interessante, mesmo quando eu havia parado de estudar para o CACD e decidido focar em outros concursos.

Clipping: Em depoimento ao Diálogo Diplomatico, do Prof. Maurício Costa, você disse que, ironicamente, sua aprovação ocorreu quando  você decidiu despriorizar sua preparação para o CACD e voltar a investir em outros concursos. O que te levou a quase desistir do CACD? 

Jônathas: Não sei se me expressei bem naquela entrevista, mas o que eu quis dizer foi que, em 2016, um dos anos mais atribulados da minha vida, no qual eu cheguei a pensar em desistir do concurso, eu consegui ser aprovado no CACD. Na verdade, 2015 foi o ano em que deixei o CACD de lado para fazer outros concursos. Ironicamente, naquele ano, fui aprovado no TCE-CE e também cheguei à última fase do CACD. Até então, eu nunca havia sido aprovado nem mesmo na prova objetiva.  O que me levou a deixar o CACD de lado em 2015 e a quase desistir do concurso, em 2016, foi o custo da preparação e a minha insatisfação com meu antigo emprego.

Eu não tinha como bancar os cursos que a maioria dos meus concorrentes faziam regularmente e a empresa em que trabalhava estava passando por uma grave crise financeira. Eu precisava de um emprego melhor, e ingressar no serviço público, em uma carreira menos cobiçada, me pareceu a melhor opção, por isso resolvi focar em outros concursos.

Clipping: Tem uma postagem bem curisosa sua no face em que você enumera suas dezenas de reprovações nos mais variados concursos publicos TRT, CHESF, AL, etc. Uma das primeiras coisas que você deixou registrada nas redes sociais foi seu extenso historico de “fracassos” em outros concursos publicos. Por quê?

Jônathas: Depois que fui aprovado no concurso, muita gente veio me falar que eu sou gênio e que tenho muita sorte. Eu havia ralado muito para realizar meu sonho e sabia que o principal fator para minha aprovação tinha sido, na verdade,  a perseverança. Eu nunca fui de passar muito tempo reclamando do que eu não tinha. Sempre procurei fazer o melhor com as ferramentas de que eu dispunha para me preparar.

Com aquela mensagem, eu quis mostrar aos outros candidatos que por trás daquela vitória há um histórico de muitas lutas, muitas derrotas. Gosto desta fase de Mandela: ” A maior glória da vida não está em nunca cair, mas em levantarmo-nos cada vez que caímos.”

Clipping: Falando ainda de seu histórico com outros concursos. Muitos candidatos a diplomata não gostam de ser identificados como “concurseiros”. Esse rótulo te incomoda? 

Acho engraçado que isso incomode alguns candidatos. Parece-me óbvio que todos somos concurseiros. Para ingressar na carreira, é preciso ser aprovado no CONCURSO de Admissão à Carreira de Diplomata. Para mim, quem dedica boa parte de seu tempo para ser aprovado em um concurso é, por definição, um concurseiro. Acredito que muita gente ainda não conseguiu obter êxito exatamente por que ainda não conseguiu raciocinar como concurseiro. Uma premissa básica para mim é

quem passa no concurso é o melhor concurseiro.

Você pode ter doutorado em Ciências Políticas na melhor universidade do mundo, mas se você não for um bom concurseiro, pode vir alguém lá do interior do Nordeste, com apenas graduação em uma pequena universidade estadual, e passar na sua frente. Vejo muita gente excelente que ainda não passou por que não entendeu essa premissa básica.

Clipping: A pressão que alguém sobre quem esta “só estudando” para concurso , sem emprego e sem uma perspectiva clara de quando vai ser aprovado,  é grande. Que tipo de cobranças e de questionamentos você mais escutava? Como você respondia a essas pressão?

Jônathas: Eu nunca estive “só estudando” para o concurso. Sempre trabalhei. Embora tenha trabalhado em outros setores, a maior parte do tempo fui professor de inglês. A minha principal cobrança vinha de mim mesmo. Eu sentia necessidade de me emancipar completamente. Eu morava só e bancava boa parte das minhas despesas, mas meus pais ainda precisavam fazer alguns sacrifícios para me ajudar. Eles moravam no interior e eu morava sozinho na capital. Meus irmãos já haviam saído de casa. Fui o primeiro da minha família a conseguir um nível superior. Para meus pais, eu já era “doutor”. Eles acreditavam que eu já poderia ser bem sucedido como advogado ou prestando outros concursos. Meus pais, com razão, me incentivavam a primeiro buscar um bom alicerce no “mundo real” para depois correr atrás dos sonhos. Eu também via meus amigos crescendo profissionalmente. Minha noiva, que é bem mais nova do que eu, já era concursada e a gente queria casar. Meu emprego permitia que eu me mantivesse, mas não era suficiente para dar um passo além no meu projeto de me tornar diplomata.

Como eu respondi a essa pressão? Com muito foco e muita fé. Eu sempre acreditei que iria passar. Mesmo no começo da trajetória, quando a maioria das pessoas achavam que era um sonho inalcançável para mim, eu já fazia planos dizendo “ quando eu for diplomata…”

Clipping: Muitos aprovados relatam que, após as alegrias das comemorações pela aprovação, os primeiros dias no Instituto Rio Branco acabam sendo, para o bem e para o mal, um “choque de realidade”. O que vocé esperava encontrar nesses no IRBr que você nao encontrou e vice versa?

A experiência no Instituto Rio Branco é marcante para qualquer diplomata que por lá passa. Minha turma é muito boa. Tenho conhecido pessoas incríveis, e isso tem tornado a passagem pelo Rio Branco ainda mais enriquecedora. Os professores também são muito experientes e temos muito a aprender com eles.

Bate bola rápido com o Clipping:

Um livro: Bíblia

Um diplomata (não vale o Barão): Antonio Francisco Azeredo da Silveira

Um lugar no Rio Grande do Norte (não vale Macau): Pipa

Uma matéria que você odiou estudar: Contabilidade Nacional

Uma gafe que já rolou contigo: Puxei, sozinho, o aplauso para um professor substituto, achando que ele era convidado especial. A culpa foi de uma colega que me trollou.

Uma pergunta sobre o CACD que as dezenas de pessoas que te entrevistaram ainda nao fizeram: Como surgiu a ideia de se tornar diplomata?

Uma mensagem para quem esta pensando em fazer o concurso: “Sonhar um sonho impossível”, como já dizia uma música de Jaqcues Brel que sempre me inspirou:

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O que ainda não te disseram sobre o novo Chanceler

Amigos do Clipping, o carnaval passou e agora o ano começa oficialmente, com muita novidade: o Clipping está de cara nova…

(clique na imagem para ver como ficou a página nova ou aqui no link)

O Itamaraty também está de cara nova… A essa altura você já deve estar sabendo que após uma inesperada dança das cadeiras, saiu José Serra e entrou Aloysio Nunes. O que você deve saber sobre o novo Chanceler que ainda não foi dito?

Vamos por partes dividimos o post em> 

#1. Horóscopo do Barão

#2. Luta armada, fuscão e Chico Buarque

#3. Exílio em Paris, Sartre e Sorbonne

#4. Direita volver

#5. Aloysio Nunes experienced

#6. Para saber mais

 

#1. O Horóscopo de Aloysio Nunes e do Barão

Aloysio Nunes nasceu em Abril, exatamente o mesmo mês em que nasceu o Barão, e em 1945, exatamente o ano em que era inaugurado o Instituto Rio Branco. Curiosamente, apesar do nascimento do Chanceler coincidir com o nascimento do Instituto Rio Branco e da obrigatoriedade de concurso público para o ingresso na carreira diplomática, Aloysio Nunes não é um diplomata de carreira.

Aloysio e Barão têm o mesmo signo

[row_fluid] Aloysio Nunes e o Barão do Rio Branco são do signo de Áries, nasceram no mesmo mês e com uma diferença 100 anos um do outro.[/row_fluid]

 

 

 

"Ah Clipping, essa historinha de signo é para depistar o fato de que o novo Chanceler não fez CACD e é Chanceler? Pode isso?! "

Pode sim! A tendência nos últimos anos vinha sendo nomear para o cargo de Chanceler, diplomatas de carreira entre os que já serviram como Embaixadores em Washington. Em parte, foi essa foi a lógica que levou ao cargo de Ministro de Relações Exteriores nomes como Antonio Patriota, Mauro Vieira e Luiz Alberto Figueiredo. No entanto, o cargo de Ministro das Relações Exteriores é de livre nomeação do Presidente, de acordo com o art. 87 da Constituição Federal.

#2. Luta armada, fuscão e Chico Buarque

Nunes ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo um ano antes do Golpe Militar de 1964. Nesse contexto, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) que atuava na clandestinidade. Aloysio Nunes sempre falou abertamente e em detalhes da sua participação na guerrilha armada contra a ditadura militar na juventude. Antes de seguir para o exílio em Paris, foi um dos braços-direitos de Carlos Marighella, o líder da Ação Libertadora Nacional (ALN). Como Mariguella não sabia dirigir, uma das funções de Aloysio Nunes era pilotar o fusca roubado usado nas fugas dos parcerios de guerrilha armada. Falando em fusca roubado, vale lembrar que foi de uma canção de Chico Buarque, também fichado na juventude por ter roubado carro nas imediações do Pacaembu, que Aloysio Nunes se inspirou para criar um de seus vários codinomes na luta armada. 

Aloysio se insipirou em Chico Buarque

[row_fluid] Na guerrilha, Aloysio usou codinomes bíblicos como Mateus e Lucas. O único codinome não bíblico usado por Nunes foi Nicanor (N de Nunes). A inspiração foi tirada da música Nicanor ("Onde Andarás Nicador?"), gravada em 1970 – quando Aloysio partir para o exílio em Paris.[/row_fluid]

Se é importante lembrar que se Aloysio nunca escondeu sua participação na guerrilha armada quando jovem, é também importante lembrar que o Chanceler não esconde severas autocríticas ao movimento:  

Participei de ações armadas. Mas não quero bancar o herói (…) Estávamos profundamente equivocados. O que derrubou a ditadura foi a luta de massas, a luta democrática.

– Nunes, em entrevista ao O Globo, Outubro de 2010

 

#3. Exílio em Paris, Sartre e Sorbonne

Nunes seguiu para o exílio em Paris no ano de 1969, onde permaneceu, até, em 1979. Nesses 10 anos em que morou na  França, concluiu um mestrado em Ciência Política na Universidade de Paris I – Pantheon-Sorbonne. Curiosamente, o político Aloysio Nunes e o embaixador Sérgio Amaral, que era o diplomata mais cotado para assumir a chefia do Itamaraty no lugar de Serra, tem muito em comum, apesar das trajetórias diferentes. 

Aloysio tem o mesmo background acadêmico que o embaixador brasileiro 

[row_fluid]  O político Nunes e o embaixador do Brasil nos EUA, Sérgio Amaral tem o mesmo background acadêmico. Ambos cursaram Direito na USP e após fizeram mestrado em Ciência Política em Sorbonne[/row_fluid]

 

 

 

Outra curiosidade no seu período de exílio é que Aloysio Nunes emplacou vários textos de Mariguella na revista do filósofo francês Jean Paul Sartre.

 

#4. Direita volver: a volta ao Brasil

De Paris, Aloysio regressou ao Brasil por meio da Lei de Anistia em 1979. Nesse retorno, desfiliou-se do PCB e ingressou no PMDB. De 1983 a 1991 atuou como deputado estadual de São Paulo e teve importante participação na redação da Constituição do Estado antes de ser eleito deputado federal. Em 1997, filiou-se ao PSDB. Entre 1999 e 2002, afastou-se da Câmara para assumir o cargo de Ministro da Justiça, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Em 2010, assumiu um cadeira no senado pela primeira vez

 "2 Aloysios"  disputam o recorde de  senador mais votado da história

[row_fluid]  Em 2010, Aloysio Nunes foi o senador mais votado da história do país, com 11.189.168 votos. O recorde anterior pertencia a seu xará e adversário político Aloizio Mercadante em 2002, com 10.491.345 votos [/row_fluid]  

Em 2014, candidatou-se ao cargo de vice-presidente da República na chapa de Aécio Neves. Vale lembrar que FHC, de quem Nunes foi Ministro da Justiça, também foi Chanceler sem ser diplomata de carreira. 

3 políticos chanceleres com 3 coisas em comum

[row_fluid] FHC, Serra e Aloysio foram: 1- foram senadores do PSDB; 2- foram nomeados por presidentes do PMDB; 3- disputaram eleições presidenciais[/row_fluid]

 

 

 

#5. Aloysio Nunes experienced 

A atuação de Nunes no Senado tem sido marcada por temas internacionais. Em 2012, no Brasil também se envolveu diretamente em questões internacionais como a representação do Senado Federal no âmbito da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, Rio+20. De 2012 a 2016, Nunes participou de 12 Missões no Exterior. Recentemente, teve destaque sua atuação na formulação do projeto para a nova Lei de Migração, que visa a substituir o Estatuto do Estrangeiro, de 1980 (ainda da época da ditadura). Ademias, Aloysio presidiu a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado e é membro de oito grupos parlamentares, criados com o propósito de fortalecer as relações interparlamentares entre países.


Polêmicas à vista?

[row_fluid] Apesar da experiência com temas internacionais, críticos à nomeação de Aloysio Nunes tem destacado que em episódios recentes o Ministro teria sido pouco diplomático para com membros da imprensa. [/row_fluid]

#6. Para saber mais

Se você quiser se aprofundar um pouco mais sobre os reflexos da nomeação de Aloysio Nunes para o Itamaraty, ficam alguns links:

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4 polêmicas sobre ter um diplomata no BBB

Um diplomata no BBB?

“Os tempos mudaram” e a diplomacia não escapa desse clichê. Na última semana, a Rede Globo divulgou que um dos participantes da 17a edição do Big Brother Brasil (BBB) é Rômulo Neves, um diplomata. Mas quem é Rômulo Neves? A partir desta segunda-feira, o Brasil poderá responder melhor a essa pergunta ao ligar a televisão ou acessar a internet.

Como a polêmica é grande, acabamos dividindo em 4 partes:

Mas ao primeiro capítulo…

#1. Um diplomata no BBB?

Essa é a polemica da vez; mas para muito além dela surgem outras polêmicas. Tipo:

O Barao do Rio Branco entraria no BBB?

Difícil dizer. Fato é que na época do Barao não tinha BBB, né? A Biblioteca Nacional disponibiliza alguns escritos originais do Barão do Rio Branco como esse aqui tente (decifrar aqui no link ). É graças a bilhetes como esse e ao trabalho de historiadores e biógrafos que podemos nos aproximar da figuras da diplomacia brasileira, como o Barão do Rio Branco a ponto de conhecer que

  • o Barão pulava carnaval;
  • o Barão jogava na loteira;
  • o Barão tomava banho pelado no Rio com a galera;
  • o Barão gastava mais do que podia;
  • o Barão tinha dívidas e casos tórridos de amor;

Resumindo, pelo menos na esfera da vida privada, o Barão é gente como a gente.

O Barão entraria para o BBB se tivesse sido convidado? Fica para imaginação de cada um. É um reflexão meio boba, mas subjacente a ela há várias outras bem oportunas.

Como diplomatas de hoje estão lidando com a exposição sobretudo nas redes sociais?

#2. Diplomatas se expondo nas redes sociais ?

Estamos no século XXI, e as redes sociais instigam as pessoas a opinarem mais, a se exporem mais, e – por que não? – compartilharem mais suas vidas. Esse estímulo é absorvido em diferentes intensidades por diferentes pessoas, diplomatas inclusive. Conversamos com o diplomata Thomaz Napoleao sobre os riscos e benefícios da exposição dos diplomatas nas redes sociais em uma entrevista ao Clipping e na ocasião ele refletiu que

a exposição midiática é para o diplomata um aprendizado permanente, um exercício às vezes arriscado, mas indispensável

Ah, Clipping mas dar as caras nas redes socias é uma coisa, dar as caras em um reality show é outra.

Verdade. Mas quem disse que o Rômulo está fazendo história por ser o primeiro diplomata em reality show?

Fica o convite para você dar uma olhada no I Am the Ambassador From America, reality show que mostra não só a rotina burocrática de Rufus Gifford, embaixador dos Estados Unidos em Copenhagen, como também momentos de  sua vida privada, como as cenas românticas do seu casamento com o parceiro Stephen. Dá uma olhada aqui:

YouTube video

Será que as pessoas estão interessadas em seguir a vida de um diplomata pela TV? A ideia para o reality só veio após um vídeo postado por Rufus no Youtube. O que começou como uma brincadeira, virou um reality que chegou à marca de audiência de  200,000 espectadores, chamando a atenção da Netflix que comprou os direitos do que agora já é uma séria em sua segunda temporada.

Será que isso tudo significa que a tradicional discrição esperada de um diplomata virou peça para museu? Não. Significa, sim, que  o conceito de ser discreto mudou o próprio o conceito de diplomacia. Atualmente, formuladores de política externa estão cada vez mais atentos à chamada “Diplomacia Pública” e às demandas de inovar na comunicação entre instituições e sociedade civil. A julgar pelo crescente engajamento de diplomatas em redes sociais, E-DiplomacyTwitdiplomacy, Facebook Diplomacy, exposições assim são mais do que meras tendências, elas vieram para ficar. Semana passada, Leigh Turner, o embaixador do Reino Unido em Viena, ao ser avisado por experts em social media de que o twitter  (onde ele mantinha maior atividade ) é muito pouco usado na Áustria, recebeu na Embaixada um grupo de jovens celebridades no Instagram com o intuito de consultá-los sobre a melhor forma de usar o Insta veja aqui

Falando em Instagram, o Clipping já está lá também com muito conteúdo, veja aqui

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comecando o ano com um planner ! #meuplanner #clippingplanner #keepclipping

Uma foto publicada por Clipping CACD (@clipping_cacd) em

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Falando agora de Facebook, só para se ter uma ideia, se o Facebook fosse um país, seria o mais populoso do mundo, de acordo com dados Factbook da CIA.

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Não à toda José Serra, o atual ministro das Relações Exteriores, mantém um perfil oficial no Face onde esbanja carisma postando selfies durante sua agenda oficial ou mesmo passando para dar um Feliz Natal com direito a emoticon do Papai Noel.

Para Ana Milhomem, Oficial de Chancelaria casada com Rômulo há dez anos, foi justamente uma participação intensa nas redes sociais que teria feito surgir o convite para que ele participasse do programa. Em postagem recente no Facebook, ela explica que o marido “se tornou ativo nas redes sociais, sempre expondo suas avaliações maduras, inteligentes e ponderadas” – uma descrição que contradiz a imagem romanceada do diplomata à moda antiga. Nessa perspectiva, as redes sociais  levaram o diplomata para o BBB.

E agora, como fica o Itamaraty nessa história?

#3. Polêmica à vista: o Itamaraty no paredão?

Ah, mas rede social não é a mesma coisa que uma casa vigiada por milhões de pessoas 24h por dia!

Sim, de fato uma rede social é diferente da casa do BBB. Apesar de o programa televisivo passar por edições, não se pode comparar com o poder de filtro e gestão que alguém pode exercer sobre suas próprias contas nas redes sociais.  Também é verdade que no BBB não existe o poder de filtro e gestão que existe, por exemplo, no reality I am the Ambassador of America. Se é razoável supor que o reality americano contou com a chancela e o apoio institucional da Secretaria de Estado dos EUA, o mesmo não pode ser dito do caso do Rômulo no BBB. No caso do I am the Ambassador from America, há um quê de estratégia institucional de Diplomacia Pública, no caso do Rômulo no BBB, não há qualquer envolvimento institucional por trás da participação do diplomata no programa. Dessa forma, para deixar bem claro

Não é o Itamaraty que está no paredão

Rômulo não foi designado pelo Serra para ser o embaixador do Itamaraty no BBB e nem vai entregar suas credenciais ao Pedro Bial ou ao Thiago Leifert. Ou seja: não é um diplomata a serviço do Brasil que estará no BBB. Parece óbvio, mas esse disclaimer implícito, não foi bem compreendido, a julgar pelas críticas que o tema suscitou nas redes sociais.

Quem está entrando no BBB é um diplomata, mas o Rômulo é também entre outras coisas escritor, professor e já foi candidato a deputado distrital. Independente das diferenças entre a internet e um reality show, o que não deveria ser surpresa para ninguém a essa altura é que mesmo um diplomata, na sua vida privada,  pode pensar e querer coisas diferentes do que se espera protocolarmente dele, no exercício do cargo. Ainda que o Rômulo não esteja no reality show em nome do governo do Brasil, se tem um item na bagagem dele que já é certo, são suas opiniões e visões de mundo. Será que elas baterão sempre com o que é esperado de um diplomata brasileiro?

#4. Dando aquela espiadinha…

O fato é que antes mesmo do BBB começar, Rômulo está vigiado e aquela espiadinha já está rolando. O BBB já vai começar e com ele uma inevitável (e salutar) discussão sobre os limites entre vida pública e vida privada dos diplomatas também.

Há quem veja essa participação do Rômulo no BBB com mais curiosidade e entusiasmo do que críticas. É no mínimo uma oportunidade de conferir na prática as habilidades tão esperadas de um diplomata. Quantas vezes você, que está estudando para o concurso, estressou-se, teve atitudes “poucos diplomáticas” e precisou de ouvir da sua tia ou dos seus pais “ué, mas você não quer ser diplomata? precisar saber agir diplomaticamente!.” Pois então, agora, com esse reality, será também a chance do público, e quem sabe dos aspirantes à carreira, de fazerem a mesma avaliação sobre o Rômulo. Afinal, dentro de um convívio com pessoas de background tão distintos, ser um hábil negociador pode inclusive ser uma vantagem para ganhar o prêmio de 1,5 milhão de reais.

Você aprova ou não a presença um diplomata na casa mais vigiada do Brasil? Fica aquela frase do imortal Guimarães Rosa,

Cada um o que quer aprova : pão ou pães, é questão de opiniões

E sua opinião? Qual é? Deixe seu comentário abaixo

diplomata

Concurso de diplomata: Bolsa de 30 mil reais para candidatos negros

Candidatos negros podem fazer jus a uma bolsa de 30 mil reais ao ano para estudar para o concurso de diplomata. Já explicamos aqui no blog o que é a Bolsa Prêmio de Vocação para a Diplomacia, se não conhece bem o que é, veja aqui.

Para quem já está por dentro, vamos lá! O Instituto Rio Branco acaba de lançar um novo edital, com ajustes no processo de seleção de candidatos. Como a maior tradição do Itamaraty é saber renovar-se, tem muita novidade no programa de bolsas de 2017.

Muita coisa mudou. Para o mal ou para o bem? Tirem suas próprias conclusões…

Dividimos esse post em 5 partes:

#1.Aumento no valor da Bolsa  

#2. As dúvidas sobre o número de vagas 

#3. Ser ou não se negro? Quem pode se candidatar?

#4. O que fazer com os 30 mil da Bolsa?

#5. As grandes mudanças no processo de seleção

 

Ah, e veja aqui nossa entrevista com o Douglas, aprovado no último ano para diplomata e ex-bolsista do programa.

 

#1.Aumento no valor da Bolsa  

Aumentou o valor da bolsa concedida a candidatos negros, que passou de R$ 25 mil para R$ 30 mil.

Ah, Clipping, então quer dizer que o MRE, em tempos de vacas magras está aumentando gastos?

Não necessariamente. Não se sabe ainda, mas ao que tudo indica, o aumento no valor da Bolsa pode ter vindo acompanhado pela redução do número de bolsas distribuídas. De acordo com as poucas matérias veiculadas  na mídia até o momento, é possível que o número de vagas tenha passado de 36 para 20 candidatos. Dessa forma, o valor gasto com o Programa de Ação Afirmativa (PAA) diminuiria, se consideramos que na última edição houve a distribuição de 25 mil para 36 candidatos (900 mil) e que no ano de 2017 teremos 30 mil distribuído para 20 candidatos (600 mil) 

Ou seja: ao contrário do senso comum, é possível que o orçamento do programa de Bolsa para candidatos negros possa ter minguado em cerca de 33%

Melhorou ou piorou em relação ao que era? Depende do ponto de vista. Favorecer menos candidatos com mais recursos parece ter sido menos uma aposta consciente do Itamaraty do que uma consequência da política generalizada de corte de gastos. Fato é que apesar das restrições orçamentárias atuais, o Itamaraty conseguiu garantir os recursos necessários à manutenção do programa. Em tempos de vacas magras, é um feito e tanto.

#2. As dúvidas em relação ao número de vagas

Quantas vagas teremos para as bolsas? Mistério. Nesse ponto, curiosamente, o Edital em si é omisso. Não há menção expressa com relação ao número de bolsas. No entanto, fontes oficiais como a página oficial da Secretaria Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial, vinculada ao Ministério da Justiça, anunciou abertamente que "no total, serão concedidas 20 bolsas de estudo a candidatos pretos e pardos".

Mas por outro lado, até o momento não há manifestação clara do MRE com relação a esse ponto. O Clipping localizou uma nota bem discreta no site do Instituto Rio Branco (veja aqui) que foi recentemente replicado na fanpage do MRE.  

O que o Edital fala no ponto 4.1 é que:

As Bolsas-Prêmio de Vocação para a Diplomacia do PAA 2016/17  serão concedidas conforme disponibilidade orçamentário-financeira dos parceiros do programa.

Isso quer dizer que o número de vagas está em aberto? Ao que tudo indica essa questão foi, diplomaticamente, deixada na base da ambiguidade construtiva. Aguardemos!

 

#3. Ser ou não ser negro: quem pode se candidatar?

Quem pode se canditar às bolsas? Em relação a isso o Edital é bem claro:

Candidatos negros

Vale a ressalva de que para o IBGE, "negro" é um conceito amplo e inclui não só "pretos" como também "pardos".

Ah, Clipping, dizem que sou meio pardo então vou tentar a bolsa.  

Muita calma nessa hora. Não basta um cenora e bronze e umas horas de sol para fazer jus às cotas. Declarar-se negro (preto ou pardo) todo mundo pode, mas é preciso que sua declaração seja confirmada pela banca. E é importante ressaltar que a etapa de confirmação da autodeclaração existe e não é só "para inglês ver" . A banca responsável por ela tem se mostrado cada vez rigorosa à medida que suspeitas de fraude tem repercutido na mídia. Vem sendo um aprendizado para o próprio Itamaraty a implemetação da política das cotas. Vale lembrar que no último concurso 47% dos candidatos que se declararam negros não tiveram a condição de negros não confirmada pela banca (veja aqui ). 

É preciso que o candidato tenha ciência das consequências autodeclaração. 

Uma nova exigência é que o candidato negro tenha, de acordo com o ponto 2.8 do Edital, um currículo cadastrado na Plataforma Lattes. Ao que indica trata-se de uma condição negociada com o CNPq (um dos parceiros do Itamaraty no programa. A notícia boa para quem não é da comunidade acadêmcia é que fazer um currículo da Plataforma Lattes é absolutamente tranquilo e gratuito. (Veja algumas dicas sobre como criar seu CV na Plataforma Lattes, neste link)

#4. O que fazer com os 30 mil da Bolsa?

Então… Os 30 mil reais da bolsa não é para você curtir a vida adoidado! 

O Edital deixa bem claro que a bolsa-prêmio deve ser utilizada para aquisição de material bibliográfico e pagamento de cursos preparatórios  e/ou professores especializados. É preciso prestar contas ao Itamaraty e o órgão é bem rigoroso nessa parte.

Ah, mas o Clipping pode ser declarado como cursinho preparatório ou material bibliográfico?

O Edital não menciona expressamente gastos com o Clipping CACD. No entanto, é comum que os candidatos declarem a assinatura do Clipping CACD como gastos associados à preparação. Mas nem sempre isso é necessário, já que o Clipping tem a tradição de conceder acesso gratuito a todos os candidatos bolsistas. Basta que o candidato selecionado procure o Arthur na bolinha amarela no canto inferior direito do site do Clipping (não é no Blog, é no site www.clippingcacd.com.br )

Ah, e vale lembrar que desde que sejam justificados e detalhados previamente no plano de estudos e desembolso, o percentual máximo de 30% poderá ser empregado em despesas de manutenção (aluguel, deslocamento a cursinho, alimentação, etc).

 

#5. As mudanças no processo de seleção

Como era o processo de seleção: Em anos anteriores, a seleção para a bolsa destinada a candidatos negros era uma espécie de mini-CACD. O candidatos eram selecionados de acordo com uma prova objetiva que incluía questões de: História do Brasil, Língua Inglesa, Língua Portuguesa e Noções de Política Internacional. Essa prova valia 65 pontos. Após, os 50 primeiros lugares na prova eram convocados para uma entrevista que valia 100 pontos e em que eram avaliados 6 critérios e atribuídos pontos:

a) formação acadêmica – 10,00 pontos;

b) adequação e viabilidade do Plano de Estudos e Desembolso – 10,00 pontos;

c) necessidade de apoio para realização de seus estudos preparatórios ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata – 20,00 pontos;

d) expectativas pessoais sobre a Carreira Diplomática – 20,00 pontos;

e) experiência pessoal do candidato como negro – 20,00 pontos;

 f) conhecimento e aceitação dos objetivos do programa – 20,00 pontos. 

Ou seja: havia uma prova específica para seleção da bolsa.

Isso tudo acabou!

Como ficou agora o processo de seleção: Agora a classificação dos candidatos será feita a partir do desempenho no CACD de 2017, sendo considerada a nota final obtida no concurso (soma das notas finais na Segunda e Terceira fase). Essa é a grande mudança neste edital, não existindo mais a tão temida etapa da Entrevista Técnica. 

Ou seja: nada de provas específicas para a bolsa. Os candidatos negros que forem mais bem colocados no CACD 2017 serão os bolsistas selecionados. As regras são simples assim! De modo geral, quem vai melhor no CACD e se declara como negro e opta por concorrer à bolsa leva. 

 

#6. Algumas polêmicas à vista

Por um lado, se o novo Edital trouxe uma série de simplificações pode também ter trazido uma série de complicações.

As novas regras para a concessão de bolsas refletem uma opção do Itamaraty por privilegiar o candidato que está na etapa final do processo seletivo já às portas do Itamaraty. É uma mega chance para quem está já há um bom tempo batendo na trave. Por outro lado, essa opção dá menos alento para quem começa agora a jornada de preparação. Certo ou errado? Bom ou ruim? É um questão de perspectiva. Mas que promete muito debate.

Outro ponto que promete levantar discussão é o ponto 2.9 do Edital:

Poderá ser estabelecido critério de renda para a concessão da Bolsa-Prêmio, a ser oportunamente publicado no Diário Oficial da União.

É uma inovação e tanto à vista a introdução do critério de renda junto à ações afirmativas. Certo ou errado? Bom ou ruim? Novamente: é uma questão de perspectivas. 

O Itamaraty pode não acertar sempre. Mas se há uma coisa que o órgão tem é a capacidade de aprender rápido e constamente com os erros. Vale lembra também que o Itamaraty não improvisa. Ou seja: por trás de todas essas mudanças há muita reflexão e estudo. Resta acompanhar de perto o desenrolar dos fatos nos próximos dias para entendermos um pouco melhor as mudanças que nos aguardam no CACD 2017.

Enfim, essa e outras dúvidas sobre o Edital ficam para a comunidade do CACD refletir sobre. Se você tiver dúvidas mais básicas sobre a carreira diplomática, vale a pena conferir nosso post sobre as 10 dúvidas mais comuns sobre a carreira. O Clipping também deixa aqui o link do Edital para as bolsas. Postem abaixo suas reflexões e dúvidas que o Clipping continuará investigando a fundo as mudanças na Bolsa-prêmio nos próximos dias

 
 

Correveidile: Espanhol para diplomacia

Prova de Espanhol para o concurso de diplomata é fácil, certo? Erradíssimo. A prova de língua espanhola para o concurso de admissão à carreira de diplomata (CACD) é, para quem ainda não sabe, onde acontecem as médias mais baixas (veja aqui nessa matéria que disciplinas tem médias mais baixas e por quê). Por essa e por outras que o Clipping mantém aqui no Blog um espaço exclusivo para dar uma atenção exclusiva a uma das matérias mais subestimadas pelos candidatos a diplomata. A especialista que contribui nesse questito é Alejandra Bermudez, que há cerca de 10 anos prepara alunos exclusivamente para a Prova de Espanhol do CACD. Vale a pena a leitura cuidadadosa deste post. Nele você encontrará:

  • 2 dicas rápidas sobre 2 temas muitos cobrados
  • exercícios sugeridos ao final do post

Partiu deixar o Portunhol de lado de uma vez por todas! (sério, embromação na prova de línguas custa muuuuito caro).

Correveidile 

por Alejandra Bermudez*

Hola, amigos del Clipping

Esta será nuestra columna mensual del CORREVEIDILE, lugar por dónde intentaremos vehicular y transmitir la mayor cantidad de información posible para facilitar el aprendizaje y aumentar el puntaje en la prueba de ESPAÑOL CACD.

Y exactamente de eso se trata el correveidile, el mismísimo, el arte de divulgar y pregonar informaciones de manera rápida y eficaz a los oídos de todos. Algunos le llaman chismorreo, cotilleo, chisme o chusmerío; dicho de aquel que lleva y trae cuentos y chismes. En este caso, de los buenos. Entonces, ¡Que así sea!

Debido a la columna anterior, se han suscitado algunos comentarios, muy constructivos y productivos, en relación a la prueba de Español. ¿Si sabemos que es una prueba compleja y un tanto injusta? Lo sabemos. ¿Y qué hacemos? Buenos, hay dos caminos: el primero, solo la criticamos, y ojo que no digo que no debamos criticarla (pero no hoy); el segundo, la criticamos, sí, la odiamos y la maldecimos, pero, vamos adquiriendo municiones para atarcarla. ¡Este es el Plan! Si no puedes con tu enemigo, únetele. Es lo que nos resta, por el momento.

Veremos algunas herramientas para ir avanzando a la meta.

  1. La primera munición: LOS SUJETOS PRONOMINALES.

Veremos cómo en cada lengua (español-portugués) se mantiene o no la referencia. Por ejemplo:

 

A: –Nosotros vamos a pasear.

    – ¿ quieres venir?

B:  –Ella dice que viene.

De casos así están minados los materiales didácticos. Son enunciados que tienen los pronombres sujeto explícitos. Nunca lo encontraremos en un texto literario o en textos y materiales auténticos (no adaptados para una clase de lenguas). Esto supone que nos vayamos adaptando a su uso -ERRÓNEO- y no solo se crea conciencia de su uso, sino que se habitúa a reproducir aspectos del portugués en el español. Lo diríamos así:

A: –ø Vamos a pasear.

    – ø ¿Quieres venir?

B:  – ø Dice que viene.

La pista sobre en qué persona está conjugado el verbo puede ser dada por un elemento contextual, o te lo dirá el propio verbo. Los verbos en español informan mucho, sin redundancias.

Véase el ejemplo 1 de Fanjul (2010),

espanhol_cacd

En ningún caso se hace necesario utilizar pronombres sujeto.

Ejemplo de solución: VIVO lejos de mi trabajo, entonces SALGO (ya implica yo) de mi casa.

Otro ejemplo (Fanjul, 2010):

Juliana: -La decisión tiene que ser nuestra porque nosotros somos

               los dueños de la casa, no ellos.

Aníbal: – Bueno, pero ellos son los que saben cómo combinar

               el material. De eso, nosotros no sabemos nada.

Juliana: -Por eso está bien que ___Ø___ consultemos también

              con otras personas. Podríamos llamar a Giménez, a ver qué _____

              Ø_______ opina.

Aníbal: -Creo que ___ Ø___ está de viaje.

Juliana: -Bueno, voy a intentar consultar con la arquitecta esa

              amiga de Tito. La obra está costando bastante dinero, entonces ___

              Ø___ quiero estar segura, ya que estamos gastando tanto.

Aníbal: -Deja, yo mismo voy a llamarla.

Esta es una buena ocasión para explicar otra diferencia entre el español y el portugués brasileño: en casi ninguna variedad del español actual se coloca un pronombre sujeto después de un interrogativo y antes del verbo.

 

El orden sería Interrogativo – Verbo – Pronombre

 

“Vamos a ver qué piensa él” y nunca “*Vamos a ver qué él piensa

 

  1. La segunda munición: EL ARTÍCULO NEUTRO “LO”

¿Cómo identificar el artículo neutro “LO” del pronombre lo?

LO además de ser el artículo neutro, también es forma neutra del pronombre personal de tercera persona, que se emplea como complemento directo o como atributo y forma masculina singular del pronombre personal de tercera persona para la función de complemento directo

 

Sabes quién ganó el partido? No lo sé.

– El libro que leí ayer, lo compré en una librería del centro.

 

TRUCO:

¿Sabes cuál es la función del "LO"? Puede ser pronombre o artículo neutro.

1) Si es un pronombre hace referencia (sustituye o refiere en la oración) a un hecho o a un sustantivo precedente.

Puede ser:
– pronome masculino à ejemplo: se LO pedí hace tiempo

-pronome neutro à ejemplo: te LO dije


2) Si es un artículo, NUNCA acompaña verbos! 

El artículo neutro LO es INVARIABLE y se usa para sustantivar: adjetivos, masculinos o femininos, con sentido abstracto, que estén en singular o en plural y adverbios.

Y, como dicen, de gota a gota iremos viendo más lleno el vaso. Estamos proponiéndonos metas a corto plazo para ir lográndolas paulatinamente, pero afianzándonos y avanzando, paso a paso, gota a gota. ¡En gotas de español!

Les deseo a todos los cacdistas y amigos del Clipping un excelente inicio de 2017, y a aquellos que están nuevamente en este camino, mucha determinación y persistencia, sin desánimos. ¡Estamos juntos!

¡Hasta la próxima!

Alejandra

 ____>>>Actividad sugerida: http://marcoele.com/elefante/02.articulo.pdf

prof     Alejandra Bermúdez é especialista na preparação para o CACD faz 11 anos. É Mestre em Lingüística aplicada   a la enseñanza de español pela Universidad de Jaén (España) e Mestre em Linguística Aplicada pela Unisinos    (Brasil). É Professora do Instituto Cervantes de Porto Alegre desde e Membro da Banca Examinadora    D.E.L.E (Diploma Internacional de Español como Lengua Extranjera- título oficial outorgado pelo governo da    Espanha). É Assessora linguística e tradutora de textos técnicos e literários.

Aprovado no CACD: veja o depoimento do Douglas

Aprovado no CACD

“Ele tinha 4 empregos, 2 filhos e 1 sonho: passar no concurso para a carreira diplomática.” Parece chamada de filme, mas não é! Essa é a história do Douglas. Nascido no interior da Bahia e geograficamente isolado dos grandes centros de preparação para o CACD, ele começou a preparação de maneira autodidata e, em meio a erros e acertos, conseguiu não só ser aprovado no CACD, mas também algumas marcas notáveis, como a segunda maior nota na prova de redação do concurso de admissão à carreira de diplomata de 2016.

Para desvendar melhor essa história incrível de aprovação. Dividimos o post em 3 partes:

  1. Raio X do desempenho;
  2. Vídeo com depoimento;
  3. Entrevista com 10 perguntas. 

Confira abaixo e compartilhe com outros interessados na diplomacia.

1. Raio X do aprovado no CACD

Vamos às informações sobre o desempenho do Douglas nos CACD’s:

Prova de Redação

CACD 2015:

  • Redação: desempenho de 70%

CACD 2016:

  • Redação: desempenho de 87%

Douglas ficou em 2° lugar geral na prova de Redação em 2016.

Línguas Estrangeiras

CACD 2015:

  • Francês e Espanhol: desempenho de 29%
  • Inglês: desempenho de 26%

CACD 2016:

  • Francês e Espanhol: desempenho de 66%
  • Inglês: desempenho de 71%

143% de melhora em línguas estrangeiras em 1 ano

Provas Discursivas

CACD 2015:

  • Economia: desempenho de 78%
  • História do Brasil: desempenho de 69%
  • Direito Internacional: desempenho de 88%
  • PI e GEO: desempenho de 66%

CACD 2016:

  • Economia: desempenho de 71%
  • História do Brasil: desempenho de 90%
  • Direito Internacional: desempenho de 88%
  • PI e GEO: desempenho de 71%

Prova Objetiva (TPS)

Douglas tirou uma nota de 44,25 pontos na prova objetiva, o que corresponde a um desempenho de 60%.

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2. Depoimento sobre o Clipping

YouTube video

3. Entrevista

Clipping: Um dos mitos do concurso é que o aprovado no CACD é aquela pessoa que fica 100%  focada nos estudos pois conta apoio financeiro incondicional e infinito de familiares. Corrija-nos se estivermos errados, mas sua história é meio que o oposto disso, certo? Poderia compartilhar com o Clipping um pouco dos perrengues que você passou para conciliar as seus 2 empregos, a chegada da sua segunda filha e outras limitações com os estudos para o CACD?

Douglas Nascimento: É bem verdade que a pontuação final do CACD não é ponderada pelos problemas cotidianos que todos temos. Mas nem por isso eles deixam de existir. Conhecendo os colegas aprovados, parece que poucos conseguiram estudar e fazer as provas se mantendo o tempo inteiro nas Condições Normais de Temperatura e Pressão, como diriam os professores de Física (se é que alguém que não seja físico ainda se lembre disso depois de tanto estudar PEB).  Muitos tiveram problemas de saúde, perderam familiares próximos, acabou o dinheiro…

No meu caso, eu exercia a profissão de médico, tinha família constituída, com uma filhinha de 1 ano quando comecei a estudar. Fiz um esforço tremendo para manter a vida o mais normal possível, sem que ninguém, além de minha esposa, soubesse que eu me preparava para o CACD e para não deixar minha família passar privações por culpa de minha maluquice (há alguém 100% normal que estude para este concurso?).

Então, no início de 2012, quando decidi que queria a carreira diplomática, passei a trabalhar como um louco em quatro empregos para fazer uma reserva financeira que me permitisse reduzir a carga de trabalho mais pra frente. Eu fazia plantões noturnos em finais de semana e feriados e dava aulas na faculdade… Entrei no Mestrado em Administração para fazer uma transição das Ciências Naturais para as Ciências Sociais e Humanas.

Comecei a estudar em agosto de 2013 depois de ter feito uma reserva financeira. Eu, trabalhando menos, mas ainda em três empregos, pois eu sabia que o financiamento do apartamento e do carro, a mensalidade da escola e todos aqueles tão aguardados boletos mensais que brotam por debaixo da porta continuariam a chegar…

Li vários relatos de aprovados no CACD que tinham conciliado trabalho com estudos, mas no fundo eu sabia que não era possível passar neste concurso trabalhando naquela intensidade.

Prestei então a prova em 2015 e, à medida que fui avançando nas fases, ganhei coragem pra tomar a decisão que hoje me parece a mais acertada de todas: larguei meu principal emprego, um vínculo de direção de um hospital que ocupava meus dias de semana. Já que era pra fazer loucura, pulei logo da ponte com o paraquedas na mão. Enfim, saí de cima do muro e Permaneci em dois empregos bem tranquilos, que pouco me atrapalhavam. Isso me permitiu ampliar as horas de estudo pra cerca de 8 horas diárias antes do edital e intensificar ainda mais entre as fases do concurso de 2016.

Clipping: Como o Clipping te ajudou nos estudos?

Douglas Nascimento: A seção de discursos oficiais do Clipping foi muito importante para me ajudar a vestir “a roupa adequada” para cada uma das provas de terceira fase.

Vou tentar explicar melhor…

Claro que conteúdo é por demais relevante nas provas discursivas. Mas utilizar com desenvoltura os conceitos basilares de cada disciplina e os argumentos da diplomacia brasileira para cada tema específico ajuda na apresentação formal das respostas.

Cada disciplina tem uma linguagem própria. E penso que é preciso vestir a roupa adequada em cada turno da prova de terceira fase. Minha impressão é de que é inapropriado abrir a caixa de ferramentas de conceitos de macroeconomia do Mankiw em uma questão, em exemplo grosseiro, de livre comércio em Política Internacional, assim como também pega mal responder essa mesma questão em Economia somente falando de cooperação entre democracias liberais ou dicotomia Norte-Sul.

Este senso de adequação em situações mais sutis que essa do meu péssimo exemplo (nada melhor me ocorre nesse momento de ‘ressaca’ pós-CACD) eu somente consegui lendo muito os discursos oficiais, no que o Clipping me ajudou por selecioná-los por categorias e por poupar meu tempo vasculhando pela internet.

Clipping: Em entrevista ao Bahia Notícias, você diz ter se planejado para “passar em cinco anos, mas, felizmente, em três anos deu para passar, mesmo estudando por conta própria”. O que exatamente foi esse seu planejamento de longo prazo e o que você quis dizer exatamente com “estudando por conta própria”?

Douglas Nascimento: Creio que o “por conta própria”, nessa reportagem, não aparece com o detalhamento necessário. Não creio ser possível, no atual nível de competitividade do concurso, conseguir a aprovação em todas as fases sem auxílio especializado de professores. O impacto que a reprovação no concurso de 2015 causou em meu planejamento de estudos deixou bem claro isso. Vou tentar resumir minha preparação até esse turning point que foi a prova de 2015, quem sabe contribuindo para apontar limitações de voos solo.

Antes da primeira fase de 2015, como eu ainda trabalhava durante todo o dia, eu não conseguia assistir às aulas telepresenciais do curso preparatório que era ofertado em Salvador, cidade onde me preparei. Os cursos online para o CACD ainda não estavam tão difundidos quanto hoje, ou, não sei, talvez eu simplesmente não os conhecesse. Talvez também um pouco de petulância minha de tentar manter a todo custo um histórico hábito de autodidatismo. O fato é que, nesses dois primeiros anos, optei por estudar por conta própria, com base em indicações de leituras de um programa de curso regular de 2012 (algo defasado) e por figurinhas carimbadas como Amado Cervo, Burns, Furtado, Celso Cunha, Rezek, etc. Era estudar assim ou não estudar!

Quando passei para a segunda fase em 2015, não conhecia nada da prova de Português. Li preliminarmente uns guias de estudo do CACD e logo senti que ia me faltar fôlego. Por sorte, naquele ano tivemos 30 dias até a prova e deu tempo pra fazer um curso online.

Mal no conteúdo, bem na correção gramatical, passei até razoavelmente para a terceira fase, e cheio de confiança (veja só!). Acabei me encantando também com a flexibilidade e a qualidade de cursos online, de modo que me matriculei também num curso de terceira fase. Aí veio o soco no estômago!

Meus desempenhos em PI/Geografia, Economia e DIP foram satisfatórios, é verdade, mas não fui competitivo em História e fui mal, muito mal, em Inglês, Francês e Espanhol.

Lição aprendida: precisava de ajuda especializada de professores. Para a prova de 2016, recorri a aulas de línguas em plataformas online e personalizadas via skype, além de pedir, na maior cara de pau mesmo, ajuda a professores por WhatsApp e por e-mail, como professor João Daniel, que me ajudou em troca de nada mais que a gratidão de um cara que ele nunca tinha visto na vida. [vídeo aulas do Prof. João Daniel disponíveis aqui ]

Sem querer fazer “merchan”, até porque eles não precisam, incomodei demais um monte de gente, como Isabel Botelho, Pablo Lluveras, Cláudia Simionato, Shaun, Peter Leamy, Guilherme Bystronski… Foi o meu jeito de me aproximar de uma preparação de alto nível.

Quanto ao planejamento de longo prazo, realmente estipulei em cinco anos um prazo factível pra passar.

Sabia que corria o risco de levar mais tempo, mas esse era o deadline que previ para minha reserva financeira e para a paciência de minha companheira.

Felizmente, deu certo antes do planejado, porque o dinheiro acabou (não coloquei a inflação na equação), eu ia ter que voltar a trabalhar mais e, com minha esposa grávida, eu iria ter que me defender em duas duras frentes de combate, coisa que a Alemanha já demonstrou em duas guerras que não dá certo.

Clipping: Na entrevista do Clipping com outro aprovado chegamos a falar da importância de se manter motivado. Em algum momento ao longo dessa trajetória você chegou a pensar: “não dá, isso não é para mim, vou desistir”?

Douglas Nascimento: Sim. Após a reprovação em 2015, eu achei que não ia dar.

Fui muito mal em línguas! Menos de 30% em Inglês e Francês/Espanhol.

“Como posso querer ser diplomata com esse score em línguas?”.

Tudo começou a pesar mais. O fato de eu ser de uma área de formação muito distante das disciplinas do concurso, de ter de começar a estudar tudo sempre do zero, longe dos grandes centros de preparação, ser obrigado pelas circunstâncias a continuar a trabalhar, com filha com três anos àquela altura, planejamento de um segundo filho que não queria mais adiar…

Eu mantinha pouco contato com outros cacdistas pra saber se tinha alguém humano se preparando com problemas como esses, ou somente virtuosos infalíveis. E também não achei em nenhum lugar orientação a esse respeito.

Mas eu me dei uma semana de intervalo pra recalcular a rota. Refleti sobre as estratégias de estudo. Passei a estudar em biblioteca, mais pela manhã que à noite, passei a me debruçar sobre o histórico das provas trazido pelos Guias de Estudos, li menos livros inteiros e mais capítulos selecionados, entre outros ajustes metodológicos.

Enfim, aumentei a eficiência dos estudos e a coragem voltou.

Clipping: Questão polêmica mas que não dá para evitar: cotas. Quando você passou em um dos vestibulares mais concorridos que é o de Medicina na UFBA ainda não existia a política de cotas. Anos depois, no CACD, você se declarou para concorrer pelas cotas, mas acabou passando na concorrência geral. Você viveu a realidade de um Brasil sem cotas e agora vive a realidade de um Brasil com cotas. Como você vê os usos (e os abusos) dessa política pelos candidatos ao CACD? 

Douglas Nascimento: Sou absolutamente favorável à política de ação afirmativa por meio de cotas em concursos públicos para negros e portadores de necessidades especiais. Considero uma reparação presente justa de desigualdades históricas, com perspectiva de trazer maior harmonia social futura.

Eu seria favorável da mesma forma se não fosse negro. Para mim, não se trata de uma questão de luta pra ampliar meus direitos particularmente. Trata-se de uma opção ideológica.

Vejo uma sociedade melhor com igualdade racial, com igualdade de gênero, sem desigualdades sociais, com liberdade de orientação sexual, com tolerância religiosa e étnica, sem que necessariamente eu faça parte do grupo desfavorecido cujo direito eu defendo.

Quanto à implementação das políticas de ação afirmativa, confesso que não reúno conteúdo teórico suficiente para julgar quais são as melhores alternativas e critérios a serem aplicados na realidade brasileira.

O pragmatismo que eu adotei na preparação para o CACD me afastou, infelizmente, de leituras mais aprofundadas sobre questões sociais tão relevantes como essa. Uma vez dentro do ministério, pretendo suprir essa falha de minha formação e tentar contribuir com as discussões sobre o tema.

De antemão, já noto que há estratégias que eu considero efetivas.

Por dois anos, eu fui beneficiário dos recursos financeiros (R$ 25.000,00 anuais) que o ministério disponibiliza para negros no programa de Bolsa de Ações Afirmativas. Certamente minha profissão me permitiria arcar com todos os custos de minha preparação. Sabemos também que se gasta bem mais do que isso pra passar. Ninguém que pretende se preparar em alto nível pode negligenciar essa variável financeira. Mas, pra mim, mais trabalho seria igual a menos estudo e mais demora pra passar.

Como o critério da bolsa é meritocrático (prova) e étnico (afrodescendência), fui contemplado, e o auxílio me permitiu trabalhar menos e estudar mais. Não creio que eu já teria sido aprovado em 2016 sem o suporte da política.

Clipping: Como você e sua família estão lidando com essa logística maluca de se mudar em tempo recorde para Brasília após a divulgação do resultado oficial?

Douglas Nascimento: Com o perdão dos colegas pelo clichê deprimente, é um legítimo se vira nos 30 dias!

E em período de festas de fim de ano. Achar passagem não tão cara durante a madrugada, implorar por vaga em escolas com lista de espera de três anos, alugar apartamento, entender melhor aquela numerologia de Brasília…

Com maior ou menor grau, todos os aprovados enfrentam mudanças como essas em suas vidas. Pra mim, apesar do trabalho que estou tendo, tudo virou problema menor agora, porque estou muito feliz com a aprovação.

Clipping: Pergunta clássica: Se lhe fosse dada autonomia completa para reformular o CACD. O que mudaria?

Douglas Nascimento: Todo processo seletivo é falho. Sinceramente, não sei se eu conseguiria sugerir melhoras no ciclo de provas. Mas com certeza eu voltaria a oferecer bibliografia obrigatória para o CACD. Acho mais justo com os candidatos que eles saibam sobre o que serão cobrados. Não tendo uma formação especializada em Ciências Sociais e Humanas, eu senti muita falta de saber por onde estudar PI e Geografia, por exemplo, dentro da imensidão de temas dessas disciplinas. A especificação de livros de referência, como era até 2010, teria facilitado minha vida.

Clipping: Sem querer jogar para você o peso da comparação, mas não tem como não olhar para sua história sem lembrar um pouco da do Guimarães Rosa, que como você tem origens sertanejas e formação em ciências médicas e um espírito autodidata. O que te inspirou a colocar a Medicina em segundo plano e trazer a Diplomacia para o primeiro? 

Douglas Nascimento: Fico lisonjeado com qualquer longínqua associação, mas a comparação está anos-luz de ser factível. Guimarães Rosa dominava quase todas as línguas ocidentais e tinha uma maestria na expressão que sete encarnações não seriam suficientes para me prover. Sou do grupo dos que labutam pra falar uma palavra e que duvidam de tudo o que escrevem.

Quanto à escolha pela diplomacia, a dificuldade em responder a essa pergunta me levou a esconder minha opção de meus pais, de amigos e de colegas médicos durante quase toda minha preparação. Racionalmente, posso dizer que a amplitude de conhecimento mobilizado pela carreira, a versatilidade das atividades desempenhadas, a possibilidade de conhecer novas línguas e culturas, a estabilidade financeira no longo prazo, poder estar mais com a família nas noites e datas festivas são fatores práticos que pesam.

Emocionalmente, eu queria esse troço de ser diplomata. Sabe-se lá por quê. Deve ser um vírus ainda não identificado pela Medicina, porque percebi que todos naquele ministério padecem desse mal que justifica tanto sacrifício.

Bate-bola clássico como Clipping, topas?

Um programa de TV favorito: Não é Peppa Pig, mas é o único que consigo assistir.

Algo para se fazer no tempo vago: Em casa, um filme. Na rua, um chopp.

Um lugar onde gostaria de servir: Inglaterra.

Um filme: Abril Despedaçado

Uma banda: Radiohead

Uma brincadeira de criança: Futebol na rua

Um diplomata (Barão não vale): Joaquim Nabuco

Curtiu a entrevista com o Douglas? Deixe um comentário aí abaixo que o Clipping não deixa ninguém no vácuo!

Bate papo com aprovados no concurso da diplomacia

Todo candidato a diplomata tem suas histórias: pequenas tragédias, grandes dramas ou altas confusões (quase sempre envolvendo o CESPE). A rotina é dura, o caminho é longo. Mas é dessas provações diárias que são feitas histórias espetaculares de aprovação, como a da Marianna, que saiu do 154° lugar para o 6° lugar geral, após de não somente ter logrado a maior nota geral nas provas discursivas mas também de ter ganho uma das maiores pontuações da história do concurso com recursos (veja guia de como recorrer ao CESPE aqui).

Para desvendar melhor os meandros dessa aprovação épica. Dividimos o post em 3 partes:

  • 1) Raio X do desempenho;
  • 2) Vídeo com depoimento;
  • 3) Entrevista com 10 perguntas. 

1. Raio X do aprovado

Vamos às informações sobre o desempenho da Marianna no CACD:

Prova de Redação

Antes dos recursos:

  • Redação: desempenho de 61%

Depois dos recursos:

  • Redação: desempenho de 65%

Provas Discursivas

Antes dos recursos:

  • Economia: desempenho de 78%
  • História do Brasil: desempenho de 69%
  • Direito Internacional: desempenho de 88%
  • PI e GEO: desempenho de 66%
  • Francês e Espanhol: desempenho de 66%
  • Inglês: desempenho de 71%

Depois dos recursos:

  • Economia: desempenho de 71%
  • História do Brasil: desempenho de 90%
  • Direito Internacional: desempenho de 88%
  • PI e GEO: desempenho de 71%
  • Francês e Espanhol: desempenho de 66%
  • Inglês: desempenho de 71%

? Marianna ficou em 1° lugar geral nas provas discursivas

Prova Objetiva (TPS)

Marianna tirou uma nota de 46,25 pontos na prova objetiva, o que corresponde a um desempenho de 63%.

#2. Depoimento sobre o Clipping

YouTube video

 

#3. Entrevista

Clipping: Todo ano, todo aprovado no CACD passa pela cerimônia que os candidatos chamam de “baile do inbox”. Logo que sai o resultado, os aprovados têm seus facebooks inundados por pedidos de amizade e mensagens do tipo : “você poderia me dar umas dicas de como passar?”. Como você tem lidado com esse momento celebridade?

Marianna: Olha, confesso que de todas as coisas que eu pensei que o CACD podia me dar, jamais imaginei esses 15 minutos de fama! (risos) De fato, muita gente tem me adicionado, tanto para mandar mensagens de carinho quanto para pedir dicas de estudos. Apesar de estar muito na correria desde o resultado oficial, providenciando exames, documentos, mudança de cidade, comemoração e até um tapa no visu (não sei vocês, mas meu eu cacdista mal tinha tempo de pentear o cabelo!), estou tentando dar atenção pra todos. Primeiro porque já estive nessa posição e sei como é bacana quando a pessoa tem o carinho de gastar uns minutinhos do tempo dela dando dicas que podem ser muito valiosas, e segundo porque sempre me inspiro no Igor Trabuco e nessa situação não tem sido diferente. Ele me disse, esses dias, falando sobre o trabalho dele, que se as pessoas chegam até ele pra pedir/perguntar algo, é porque já venceram algumas barreiras, como a vergonha de ir procurar alguém desconhecido ou conhecido apenas virtualmente. E se essa pessoa já passou por isso, você ainda vai tratá-la mal ou ignorá-la? O mínimo que se pode fazer é tratar com respeito e atenção, né?

Clipping: Sua aprovação é um case de sucesso incrível. Em 2016, você bateu uma série de recordes. Você recebeu um balde de água fria com uma das notas mais modestas na prova de Redação. Dias depois, você pulou para a aprovação com a maior nota geral na terceira fase após ter ganho 22 pontos com recursos, o que lhe garantiu o 6° lugar. Como você recebeu a notícia dessa reviravolta?

Marianna: Com muito susto. Foi uma montanha russa de feelings. Logo após as últimas provas, teve o resultado de francês/espanhol, que me animou demais, porque essa prova geralmente é diferencial. Semanas depois, o baque de português. Quando vi os 61, fiquei mal, achei que não ia dar… Mas se teve um trem que aprendi nesse concurso foi a ser resiliente e a saber que nada, NADA, está definido antes do resultado oficial.
Daí, mesmo desanimada, me empenhei muito nos recursos da segunda e já adiantei os da terceira fase mesmo sem ter as provas. Essa, aliás, é uma dica que queria dar, porque me adiantou bastante a vida já ter tudo rascunhado quando saiu o provisório. Fiquei agoniada esperando o provisório, achei que no máximo eu conseguiria ficar ali no limbo dos 30 e poucos e lutar com tudo por pontinhos nos recursos. Quando saiu, lembro de ligar pro Luigi Bonafé e só conseguir dizer uma frase: “tá errado, erraram na conta, tá errado!“.
O décimo quinto lugar foi uma surpresa, mas não consegui comemorar muito, porque, como disse, aprendi que o CACD nunca é previsível. Quando saiu o oficial, foi um mix de euforia com susto muito intenso! Ganhei 22 pontos de recursos e subi para o sexto lugar, colocação que nunca, nem nos meus sonhos mais otimistas, eu podia sonhar em ficar.

Clipping: Apesar de ser hoje possível estudar online, estar geograficamente isolado de outros candidatos e de grandes centros de preparação é visto por muitos como uma grande dificuldade.  Você é mineira de Juiz de Fora, mas acabou vindo para Belo Horizonte berço do Clipping e de tantos outros aprovados estudar. Por quê?

Marianna: Quando comecei a preparação, em setembro de 2013, meu plano era me mudar pra um dos polos da troika – RJ, SP ou BsB. Por questões de organização, a ideia era mudar no início de 2014. Até lá, iria adiantar a preparação como pudesse.
Como em JF não havia cursinho ainda (abriu bem nessa época, na verdade), fui morar uns meses com meu pai em BH para fazer alguns regulares no telepresencial que havia lá.
Deu tão certo que acabei mudando os planos e ficando por três anos! Além de o tele ter me dado uma base super boa (no início eu tinha medo de ser pouco efetivo, mas funcionou muito bem), 2014/15 foram meio que os anos em que os cursinhos físicos começaram a dar uma caída e os online começaram a bombar ainda mais. Então já não fazia mais sentido sair de BH pra isso. Hoje eu não recomendo a ninguém mudar de cidade por causa da preparação, o mercado online tá super rico em opções e fazer aulas de casa é muito confortável, poupa tempo de deslocamento, etc.

Clipping: Pergunta jabá: como o Clipping te ajudou na aprovação para o CACD?

Marianna: O Clipping me ajudou naquilo que é mais difícil conseguir com os cursinhos e/ou sozinho, na minha opinião: atualidades de PI. Por mais que você tenha uma base incrível nessa matéria, se seu regular foi um ano antes do TPS e você não mais atualizou o caderno, é bem difícil ir bem na primeira fase. E PI tem um peso enorme no TPS, né?
Também achava difícil me manter atualizada sozinha porque é um mundo de notícias todos os dias e é muito difícil filtrar e absorver em pouco tempo. Em suma, com o Clipping, consegui manter a atualização de forma efetiva, sobretudo em PI, gastando pouco tempo. Mas não vou dar mais spoilers porque vai ter vídeo disso em breve 😛

Clipping: Muitos candidatos consideram que, apesar da lisura do concurso, há um incômodo grau de aleatoriedade, tanto na prova objetiva quanto na parte discursiva. CACD tem pouco de loteria?

Marianna: Olha, eu nunca gostei que falassem que CACD é loteria, porque sempre achei meio falta de respeito com os aprovados – nunca conheci um que não fosse realmente inteligente e não merecesse o resultado. Há, no entanto, duas ressalvas.
A primeira é que, em 2016, especialmente, achei que o TPS teve um viés bastante lotérico, sim. A prova foi tão maluca que acabou perdendo uma das únicas coisas que ainda fazia bem: selecionar com alguma meritocracia (apesar do desgaste desse termo, acho que ele cabe aqui). Com isso, muita gente boa ficou de fora. E o fato de todos os aprovados no concurso já terem feito a terceira fase antes (nenhum ali era calouro) é, acho, um pouco reflexo disso: como a gama de aprovados no TPS foi muito variada, acabou ganhando vantagem comparativa quem já tinha experiência das fases avançadas.
A outra ressalva é que, com as poucas vagas, a fase final do concurso, a briga entre a galera que ficou entre os 40 primeiros no resultado provisório, é, também, lotérica. Só tem gente muito boa e muito preparada entre esses 40 primeiros, e o que define quais deles vão ou ficam acaba sendo um detalhe a mais de BPM6 que um lembrou e o outro não, uma palavra que um traduziu corretamente e o outro não, por exemplo.

Clipping: Isso nos leva àquela pergunta clássica do Clipping. Se lhe fosse dada autonomia completa para reformular o CACD completamente. O que ficaria como está e o que mudaria?

Marianna: Não me matem por não dizer: “EXTINÇÃO TOTAL DO TPS!” (risos). Eu manteria a estrutura das duas primeiras fases, apesar de terem defeitos. Modificaria, no entanto, a terceira….
Acabaria com as traduções e o summary de inglês, porque acho que não medem conhecimento muito bem e a correção acaba sendo subjetiva e pouco isonômica. Colocaria, de repente, duas essays.
Aumentaria também as questões de PI e de GEO para quatro, como era antes. E incluiria uma prova inteira de HM – é uma matéria muito importante pra ter um peso tão pequeno no concurso.
Sobre francês e espanhol, não voltaria com as discursivas, mas tentaria torná-las um pouco mais objetivas, sobretudo espanhol.

Clipping: Todo candidato tem aquele momento reflexivo após a reprovação em que cogita “onde foi que errei?” Você já teve o seu em 2015, quando, apesar de ter ido para a terceira fase, não ficou entre os aprovados. Que lições tirou desse balanço?

Marianna: Esse balanço foi essencial pro meu ano de 2016 e é a ele que devo a aprovação.
Por isso, recomendo a todos os candidatos que estão nesse momento de ressaca moral da reprovação que usem essa frustração como energia para analisar detidamente os erros e os acertos.
Meu lema no CACD sempre foi o famigerado
“em time que tá ganhando não se mexe”
Por isso, mantive, em 2016, tudo o que deu certo em 2015: usei a mesma estratégia de estudo de TPS e das discursivas de PI, GEO, ECO e DIP – minha nota foi muito boa nelas em 2015.
Procurei uma nova estratégia naquilo em que tinha ido mal: segunda fase e ING, HB, FRA e ESP de terceira. Me dediquei mais a essas matérias e procurei inovar no método, estudando com base no diagnóstico do porquê tinha ido mal nelas. E, ainda bem, deu certo!

Clipping: Tem um vídeo bem legal do Prof. Igor Trabuco, do Clio, que ele fala sobre as diferentes motivações para se seguir a carreira diplomática. Fato é que dos candidatos àquela clássica “por que você quer ser diplomata?” É natural que todo candidato acabe tendo que moldar uma resposta padrão para parentes e amigos para essa indagação. Qual é a sua? 

Marianna: A minha é: “porque me identifico muito com os valores da diplomacia brasileira e me sentiria muito realizada promovendo esses princípios no mundo“.
Apesar de ser uma resposta padrão, é muito verdadeira: eu jamais seria feliz trabalhando com algo em que sentisse que não faço diferença efetiva pra vida das pessoas. E eu realmente acredito no potencial da democracia, dos Direitos Humanos, da paz, do multilateralismo, da cooperação Sul-Sul e dessas coisas todas que a gente decora pra mudar o mundo.

Clipping: Qual vai ser o destino do seu material, fichamentos e livros que te acompanhou durante tanto tempo?

Tenho poucos livros, se eu tiver lido 3 inteiros pro CACD é muito. Daí vou ficar com os poucos que tenho, até porque quero ler todos eles agora – apesar de saber Casa Grande & Senzala quase de cór (graças a essa incrível habilidade que o CACD nos dá de falar com propriedade daquilo que nunca lemos), por exemplo, é um livro que raramente saiu da minha prateleira.
Fichamentos eu não posso oferecer pra ninguém porque vai atrapalhar mais do que ajudar – escrevo de uma forma, digamos, sui generis. Os muitos textos que tenho impressos e em PDF, aí sim, pretendo doar e compartilhar com quem tiver interesse.

Momento bate-bola para fechar a entrevista:

Uma banda: My Brightest Diamond

Uma ferramenta do Clipping: Seleção de notícias nacionais

Um livro: Ensaio sobre a Cegueira

Uma diplomata inspiradora: Maria Luiza Viotti, claro!

​O momento mais baixo astral de todos esses anos estudando CACD: reprovação em 2015 – por mais que eu esperasse, a gente sempre sente um baita desânimo de ter que começar tudo de novo…

A cor do seu vestido no dia da posse: Surpresa 😛

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Guia de Recursos PI/GEO, DIP, História do Brasil CACD 2016

O resultado do CACD 2016 divulgado pelo CESPE ainda não é o definitivo. Com a autorização e apoio dos professores envolvidos divulgamos as respostas modelo / orientação de recursos dos professores Tanguy Baghadi  (PI ) e João Felipe (GEO) ; Guilherme Bystronski (DIP); João Daniel (HB) e Cléo Franco (ING) do Curso Clio.

Índice de respostas modelo / orientação de recursos:

 

Política Internacional e Geografia

Considerações gerais sobre a prova de Política Internacional

Depois de todo o medo e especulação sobre o formato da prova de Política Internacional, o dia 24 de setembro nos trouxe uma resposta. Ela veio por meio de uma prova bem mais fácil do que a do ano passado – que foi composta por uma questão puramente conceitual e outra sobre as relações sino-japonesas. A prova de 2016 foi mesclada. Uma questão bem pé no chão: fatos, argumentos, discursos. Questão de formato tradicional em Política Internacional. E outra que exigia uma reflexão mais ampla, uma visão do todo, interrelacionando arranjos regionais – tomando a Parceria Trans-Pacífico como mote – e arranjos multilaterais.

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A primeira questão tinha um espaço temporal muito bem definido: do período que compreende a criação do Mercosul, em 1991, até o momento atual. A informação de partida é que, ao longo de todo este período, o tema da democracia esteve muito presente em todos os discursos e projetos desenvolvidos pela política externa brasileira. A recente democratização demandava da América Latina a construção de credenciais democráticas, que poderiam aparecer na introdução da questão, para mostrar a centralidade do tema para o bloco. Se o objetivo do Mercosul era permitir a inserção dos seus integrantes no mundo, credibilidade é um atributo indispensável.

A democracia oferece esta credibilidade, assim como a transparência, estabilidade econômica e abertura comercial – todas, preocupações do Mercosul. Estas são as bases do bloco, e a democracia é um de seus pilares. A próxima parada da resposta poderia ser a inclusão da democracia como uma regra. A afirmação de que a democracia é crucial para o Mercosul não impediu que o general paraguaio Lino Oviedo tentasse um golpe sobre o presidente Juan Carlos Wasmosy, em 1996.

A participação brasileira na frustração do golpe foi importante, e o legado foi a necessidade de uma estruturação mais clara do sistema de preservação da democracia no Mercosul. Em 1998, esta preocupação materializou-se na aprovação do Protocolo de Ushuaia, que tinha que aparecer na resposta. Este protocolo – a primeira Cláusula Democrática do MERCOSUL – previa a possibilidade de suspensão de qualquer integrante do bloco que violasse a democracia, ainda que não apresentasse qualquer definição clara acerca do que considera uma democracia. O documento faz menção à “ordem democrática”, tida como condição necessária para o bom funcionamento do bloco. E a suspensão é matizada: desde o impedimento da participação do estado nos trabalhos do bloco, até a suspensão dos direitos e obrigações resultantes do funcionamento do bloco.

A essa altura, era necessário que sua prova já tivesse mostrado os fundamentos da cláusula e sua materialização, num primeiro passo evolutivo. Em 2010, a Unasul passava pelo seu processo de estruturação: fora criada em 2008, depois de anos de negociações, e precisava criar sua base institucional, em um movimento parecido – guardadas as devidas proporções – com aquele feito pelo Mercosul 10 anos antes. Neste ano, os presidentes sul-americanos se reuniram em Georgetown e aprovaram uma cláusula democrática para a Unasul.

O conteúdo deste protocolo adicional era uma atualização da ideia de democracia na América Latina, e previa medidas mais duras do que o Protocolo de Ushuaia. As punições passavam de possíveis suspensões do Unasul, podendo evoluir até sanções econômicas, corte do fornecimento de energia e fechamento de fronteiras. O impacto no Mercosul foi instantâneo. Os quatro membros do Mercosul – naturalmente incluídos nos debates de Georgetown, importaram o novo padrão de cláusula democrática, e criaram o Protocolo de Montevidéu, em 2011. O Protocolo de Ushuaia não estava revogado, mas surgia um documento com termos mais fortes, um cláusula democrática 2.0 (não por acaso, chamado de Ushuaia II).

Aqui, começam os problemas: o presidente paraguaio, Fernando Lugo, concordou com os termos do Protocolo de Montevidéu, o que levou a uma reação negativa por parte do senado daquele país. Lugo tinha uma rejeição altíssima em meio ao legislativo e, em 2012, teve contra si a abertura de um processo de impeachment. Uma das alegações deste pedido era que Lugo violara a soberania paraguaia ao assinar o Protocolo de Montevidéu, que punha nas mãos dos vizinhos a avaliação sobre o que era a democracia paraguaia.

O impeachment foi aprovado e as consequências para o MERCOSUL foram intensas: o bloco se reuniu para debater a aplicação do Protocolo de Ushuaia, pela primeira vez, e o Paraguai foi suspenso do Mercosul. O debate sobre o conceito de democracia era intenso. Lugo e seus partidários ressaltavam o fato de o presidente ter sido afastado depois de um processo que durara menos de dois dias. Seus detratores argumentavam que a constituição permitia tal manobra – resquício da abertura democrática, que deu amplos poderes ao congresso, para evitar um presidente centralizador, como Stroessner.

A destituição de Fernando Lugo veio em um momento no qual a Venezuela tentava ingressar no Mercosul, e contava com resoluto apoio de Brasil, Argentina e Uruguai. O Paraguai resistia a aprovar, no senado, o ingresso do país de Hugo Chávez, em grande medida contrariando a preferência de Fernando Lugo. Quando o impeachment foi aprovado, houve hesitação: com a suspensão do Paraguai, como ficaria o processo decisório do bloco?

O voto paraguaio ainda contaria ou poderia ser ignorado? Sem que houvesse uma resposta nítida para o dilema, já que o Protocolo de Ushuaia silencia sobre os efeitos da suspensão, a Venezuela foi admitida no bloco. A resposta tinha que deixar claro que a suspensão do Paraguai se deu por meio do Protocolo de Ushuaia, já que o de Montevidéu ainda não está em vigor. Ainda falta a aprovação por parte do… Paraguai. O debate final da questão poderia ser centrado na atual conjuntura da Venezuela. Ainda que não tenha havido um golpe no país, há indícios – reforçados pelo atual governo brasileiro, de que o país não possui uma democracia plena. O Paraguai vem pressionando para que o Protocolo de Ushuaia seja aplicado contra o governo de Nicolas Maduro, o que parecia uma quimera há alguns meses. Mas, com a ascensão de Macri e Temer à presidência de seus países, esta possibilidade já não parece tão remota. O desafio central na aplicação das cláusulas ainda são a dificuldade de caracterizar uma violação à ordem democrática e a demora em aprovar o Protocolo de Montevidéu. As perspectivas a serem apresentadas na questão dependem da argumentação definida ao longo da questão, que era trabalhosa, mas não difícil para quem dominasse os debates mercosulinos em torno da democracia nos últimos anos. 

 

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Esta questão versa sobre o tema do comércio internacional, que foi amplamente recomendado ao longo de toda a preparação, uma vez que o governo de Michel Temer dá uma ênfase muito grande ao assunto. No entanto, há uma surpresa, que é o enfoque conceitual apresentado pela questão, que não se relaciona diretamente ao Brasil. E chama atenção também o fato de a questão pedir o desenvolvimento de um tema tão amplo em apenas 60 linhas. Um dos tópicos necessários para esta resposta pede o desenvolvimento do conceito de regionalismo comercial. Para tal, poderia-se argumentar que o regionalismo refere-se a um processo de oficialização de laços comerciais entre países de uma mesma região.

Note-se que é um processo conduzido pelo Estado, com marcos jurídicos claros, que intensificam as trocas comerciais e criam marcos normativos a serem seguidos pelos Estados. É, portanto, diferente da regionalização, que é um processo de aproximação entre países de uma mesma região, sem que haja – necessariamente – uma formalização de compromissos. Neste sentido, ainda que o regionalismo possa soar com um óbice ao multilateralismo, percebe-se que ele acaba por fortalecer o sistema multilateral, por (i) garantir a diminuição das barreiras tarifárias dos países que se inserem em processos de integração; (ii) por conferir competitividade aos blocos regionais, que passam a ver a competição comercial como benéfica; (iii) por permitir que grandes acordos entre blocos sejam firmados, o que contribui para soluções relativamente céleres e com resultados importantes.

Uma vez que os blocos ajudam a reduzir o protecionismo, o trabalho das instituições multilaterais – como a OMC – fica mais fácil. Há risco, no entanto, quando o sistema de negociações multilateral não apresenta avanços. Desde que a OMC foi criada, em 1994, pouquíssimos acordos foram, de fato, firmados em âmbito multilateral. O acordo sobre Facilitação de Comércio, de 2013, é um caso isolado. Neste sentido, o regionalismo surge como uma opção importante, uma vez que os países sentem necessidade de firmar acordos comerciais, sobretudo em âmbitos regionais, em que a agilidade é sempre maior. É relevante observar que o caráter obrigatoriamente inclusivo das negociações da OMC – que segue o princípio do single undertaking – acaba por se mostrar como sua maior dificuldade, uma vez que qualquer oposição a qualquer acordo é suficiente para bloquear as negociações, o que acaba por significar a exigência de um improvável consenso internacional.

As negociações regionais partem da premissa de que apenas países interessados em conceder e receber concessões participam das negociações. Em momentos de desgaste das negociações multilaterais, pode haver a tendência de concentração dos Estados em negociações regionais, que apresentam prognósticos mais claros de apresentação de algum resultado de curto prazo. Tal tendência fica nítida quando observa-se que a Rodada do Desenvolvimento já dura 15 anos, quando sua previsão inicial era de encerramento em apenas 4 anos.

Neste sentido, o TPP se apresenta como o exemplo mais paradigmático, pela grandiosidade da iniciativa. Neste sentido, pode-se depreender que há prejuízo à ordem multilateral, porque cria a expectativa de que os países esperem resultados no âmbito regional, como opção factível a um desgastado âmbito multilateral. O enfraquecimento do modelo multilateral é perceptível pela exclusão de grandes regiões do mundo dos principais acordos de comércio. No caso do TPP, até a China – maior economia do mundo pela Paridade do Poder de Compra – está fora. Há, no entanto, um prêmio de consolação.

Visto que o sistema erigido em torno da OMC avança com extrema dificuldade, a assinatura de acordos regionais é um alento e aponta para alguma abertura comercial, o que é melhor 5 do que nenhuma. E o sistema da OMC continua tendo centralidade como foro de solução de controvérsias, o que não é desprezível. Ainda que o candidato pudesse apresentar um balanço dos prós e contras, seria importante posicionar-se quanto ao que avalia como o saldo final dos acordos regionais diante do multilateralismo.

 

Considerações gerais sobre a prova de Geografia do CACD

A correção da prova de geografia na 3ª fase do CACD foi marcada, durante muito tempo, por uma grande flexibilidade que ocasionava notas altas em relação ao que foi efetivamente respondido por alguns candidatos. Essa flexibilidade se mantinha na análise de recursos, caracterizada por expressiva majoração nas notas atribuídas na correção inicial. Nos últimos anos, isso mudou. A rigidez marcou a correção da prova de geografia nos últimos concursos e a quantidade de notas alteradas a partir dos recursos sofreu expressiva redução. Ainda assim, é possível indicar alguns pontos a serem considerados para aumentar a chance de sucesso dos recursos. Como não temos indicações dos erros ou omissões importantes que levaram a penalização que está sendo questionada pelo candidato, a dificuldade para a elaboração do questionamento à nota atribuída aumenta. Como estratégia para facilitar a redação do recurso destacamos os principais elementos que deveriam ser discutidos em cada questão. Você deve apontar os trechos da sua resposta (indicando o número das linhas) em que analisa esses pontos fundamentais demonstrando como atendeu ao que foi comandado pela banca. Esqueça seus possíveis erros e omissões, concentre o seu recurso nos pontos principais da sua resposta indicando, portanto, que a penalização foi exagerada. Após escrever o seu recurso, você deve nos remete-lo para possíveis sugestões de alteração.

 

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O tema urbanização é dos mais relevantes para a ciência geográfica sendo entendido como o aumento da participação urbana na população de uma determinada área geográfica. A questão pedia aos candidatos análise de mudanças recentes no processo de urbanização associadas ao processo de globalização. Como características básicas do processo de urbanização na escala global, os candidatos poderiam citar a universalização do fenômeno, gerando dinamização dos sistemas urbanos mesmo em continentes que ainda possuem predomínio da população rural, como são os casos da Ásia e África. Além da taxa muito elevada da urbanização da América Latina que tende a ser a área mais urbanizada do planeta.

No Brasil, além da elevadíssima urbanização total (que se aproxima de 90%) e do fato das 5 macrorregiões serem majoritariamente urbanas, deve ser destacada a complexificação da rede urbana associada a estruturação de metrópoles localizadas distantes do litoral e o aumento da importância das cidades médias. Esses dados são básicos na análise de qualquer questão sobre urbanização, no entanto, considerando o parágrafo introdutório da questão, é fundamental destacar o impacto dos avanços técnicos das comunicações na estruturação do Espaço Geográfico, notadamente na integração da economia mundial e no papel das áreas urbanas.

Diversas antigas metrópoles que se estruturaram como centros industriais se converteram em cidades Globais, ou seja, se configuraram como um nó ou ponto nodal entre a economia nacional e o mercado mundial, congregando em seu território um grande número das principais empresas transnacionais; cujas atividades econômicas se concentrassem no setor de serviços especializados e de alta tecnologia, em detrimento das atividades industriais. A origem do conceito de cidade global está diretamente relacionada aos impactos causados sobre as metrópoles dos países de desenvolvimento mais antigo pelo processo de globalização da economia, desencadeado a partir do final dos anos 70.

As transformações na economia mundial teriam conduzido a uma crise da centralidade econômica daquelas metrópoles que perderam o controle sobre as atividades industriais, porque as empresas por elas responsáveis, favorecidas pelo desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação e informação, passaram a dispor de maior flexibilidade para escolher os lugares de menor custo para suas sedes. Esse processo foi acompanhado de mudança no perfil das metrópoles que, em substituição às atividades industriais, passaram a sediar empresas de prestação de serviços altamente especializados, ligados em sua maioria ao setor financeiro e da informação e de origem quase sempre transnacional.

Se, por um lado, as metrópoles pareciam caminhar para um futuro incerto, por outro, readquiriam importância estratégica como locais destinados ao setor terciário, acompanhando a mudança de direção da economia mundial. Não se tratava, portanto, da perda de sua centralidade econômica, mas de sua ressignificação no interior do sistema produtivo internacional. A questão pedia, também, o impacto dessas transformações no interior do Espaço Urbano das principais cidades do mundo.

O processo de transição das antigas metrópoles industriais para as atuais cidades globais foi acompanhado, inicialmente, pela degradação de diversas áreas. Posteriormente, emergiram ações que visaram a renovação, reabilitação, requalificação, revitalização e refuncionalização dos centros degradados de cidades, como alternativas para tratar dos problemas físicos, sociais e econômicos que se perpetuavam nas áreas urbanas mais antigas, os chamados centros históricos. Essas modificações foram ao encontro do interesse de corporações que buscavam espaço para suas tarefas de comando.

Fica claro que determinadas partes das principais cidades do mundo vão ser estruturadas com base em ações e objetivos externos e não, necessariamente, aos interesses de parte expressiva da população local. É possível usar o conceito de verticalidade e horizontalidade, do professor Milton Santos. Assim como citar, uma série de ações de resistência em áreas urbanas no Brasil e em diversos países do mundo. Outros conceitos que podem ser utilizados nessa questão são os de Gentrificação, Especulação Imobiliária, Lugar e Alteridade Urbana. Entre as possíveis citações, além de Milton Santos (grande estudioso de urbanização, globalização e do papel das técnicas na organização do espaço geográfico), o candidato poderia citar o geógrafo David Harvey (direito à cidade) e os sociólogos Manuel Castells (Sociedade em Rede) e Saskia Sassen (criadora do conceito de cidade global).

 

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Essa questão trata da enorme importância e riqueza natural do território brasileiro que possui diversos recursos que podem ser decisivos para o nosso desenvolvimento. Possui uma dificuldade extra com o número de linhas, relativamente pequeno, para o grade número de exemplos e análises possíveis em um tema tão importante para a geografia, o que obriga o candidato a se concentrar nos mais importantes e destacados no próprio comando da questão. Entre os recursos que podem ser apontados (é possível citar Claude Raffestein, que analisa a importância dos recursos na obra Por uma geografia do poder) destacamos:

– A maior biodiversidade do planeta associada ao tamanho do nosso território e também a nossa condição intertropical (Alexander Von Humboldt analisou, em sua viagem pela América do Sul, a importância da temperatura e umidade no desenvolvimento vegetal)

– O Brasil possui o maior volume de água doce superficial do mundo (em torno de 12%), em grande parte por causa da exuberância da Bacia Amazônica e, importantes volumes de água doce de subsolo, com destaque para o Aquífero Guarani e o SAGA

– Sistema Aquífero Grande Amazônia (inclui o Alter do Chão)

– A dimensão territorial pode ser citada como elemento importante para o país que já é o 2º em exportação de alimentos no mundo, apesar de usar menos de 10% do território para lavouras.  

– O papel da Amazônia, grande volume de recursos hídricos e enorme biodiversidade pode ser destacado (a ressignificação do conceito de Mackinder pela geógrafa Bertha Becker, que definiu a Amazônia como Heartland Ecológico do planeta, pode ser utilizada na resposta).

– O enorme potencial natural tem que ser destacado, assim como uma ocupação historicamente predatória que começou a ser alterada com a criação da Política Nacional de Meio Ambiente em 1981, um marco para o ordenamento territorial no país. –

A necessidade de maiores investimentos no aproveitamento desses recursos, também merece análise. O ponto essencial é a conversão, ainda baixa, de nossa grande biodiversidade em biotecnologia, apesar de tentativas como a CBA

– Centro de Biotecnologia da Amazônia criado no âmbito do Programa Brasileiro de Ecologia Molecular para o Uso Sustentável da Biodiversidade – PROBEM

– Ao analisar o acesso e apropriação aos recursos genéticos, é muito útil destacar o Marco Legal da Biodiversidade, sancionado em 2015, além da situação atual do Brasil no Protocolo de Nagoia. Se o candidato não destacou essa evolução recente, é necessário ao menos, uma alusão à importância e desdobramentos da Convenção da Diversidade Biológica.

 

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Direito Interno

 

 

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Essa questão somente tinha um defeito: valia somente 20 pontos (aliás, era necessário que pessoas que já fizeram a terceira fase prestassem certa atenção, já que, em oposição ao habitual, as questões de 40 linhas eram as duas primeiras). Incorporação e hierarquia de tratados em nosso direito interno estão entre os temas mais batidos em toda a doutrina que se preocupa com o estudo do DI no Brasil. Em relação aos dois debates essenciais que o enunciado claramente requeria (fases do processo de incorporação de tratados / posição hierárquica dos tratados em nosso direito interno), considero que a resposta precisava ser organizada em torno de quatro pilares centrais, levando em consideração nossa legislação e a jurisprudência do STF sobre o tema: os artigos 49, I e 88, VIII da CF/88 (quanto à necessidade de aprovação parlamentar ou possibilidade de acordo executivo); a ADI 1480/CR 8279 (no que se refere aos passos que precisam ser desempenhados para a incorporação de tratados no Brasil); o RE 80.004/77 (que explicita a hierarquia ordinária de tratados de direitos humanos após sua incorporação); e a EC 45/04 e o RE 466.343 no que concerne à hierarquia dos tratados de direitos humanos (quem quisesse poderia também formular rápido comentário sobre o art. 98 do CTN a respeito dos tratados sobre matéria tributária, mas deveria citar nesse caso a posição do STF). Em resumo extremo, pode-se afirmar que as fases podem ser resumidas da seguinte forma: (1) quando o acordo em questão exige aprovação parlamentar, por acarretar encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional, necessita-se de negociação do acordo pelo Poder Executivo – submissão ao Congresso Nacional para aprovação, que demandará a promulgação de decreto legislativo pelo Presidente do Senado – manifestação da nossa vontade internacional – promulgação de decreto executivo pelo Presidente da República, que permitirá a publicidade e executoriedade do tratado em nosso território; e (2) quando estamos diante de acordo executivo, há negociação internacional, comandada pelo Executivo – manifestação de nossa vontade definitiva – e publicação no Diário Oficial da União, ato que conferirá publicidade ao acordo em nosso plano interno, sendo indiscutível sua vigência a partir desse momento. Quanto à hierarquia, também não acredito que o que escreverei represente qualquer novidade – tratados em geral estão em paridade normativa com nossa legislação ordinária federal (são infraconstitucionais); tratados de direitos humanos aprovados conforme a EC45/04 possuem status equivalente ao de uma emenda à Constituição e são parte integrante do nosso bloco de constitucionalidade; e os demais tratados de direitos humanos, embora infraconstitucionais, são supralegais, sendo suas normas parâmetro para a realização de controle de convencionalidade de forma a verificar à adequação do restante de nossa legislação constitucional face ao que dispõem.

 

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Abstração e realidade, luzes e sombras… é filme de terror? :P#enunciadocurioso.

Brincadeiras à parte, penso que a menção às "luzes e sombras" poderia ter sido uma forma de a banca, nas entrelinhas, chamar a atenção para o fato de que o ato de reconhecimento possui necessariamente tanto componente político quanto jurídico (o primeiro seria representado pelas "sombras", o último pelas "luzes"). É pura especulação minha, óbvio, mas esse raciocínio era fundamental na resposta.

Acredito que os debates essenciais (não mencionarei tudo que poderia ser escrito por falta de espaço) que precisavam ser travados nessa questão envolviam inicialmente a distinção entre personalidade jurídica internacional originária e derivada (a primeira titularizada pelos Estados, a última pelos demais sujeitos de DI), e, em segundo lugar, a natureza jurídica e os requisitos para que o ato de reconhecimento possa ser efetuado. Vi que pessoas mencionaram o caso Bernadotte. Ele cabia aqui? Claro. Mas precisa ser complementado.

Quanto à personalidade jurídica internacional originária, sabemos que somente os Estados hodiernamente desfrutam da mesma. Isso significa que as capacidades internacionais que titularizam decorrem diretamente da natureza e da estrutura da atual sociedade internacional. Dessa forma, os direitos e obrigações internacionais dos Estados decorrem diretamente de sua soberania, possuindo todo e qualquer Estado igual potencial de titularizar capacidades internacionais devido ao princípio da igualdade soberana. Ao contrário do que ocorre em relação aos demais sujeitos de DI, as capacidades internacionais dos Estados são inerentes à sua condição enquanto principais sujeitos do atual DI.

A consequência direta dessa realidade está no fato de o reconhecimento de Estado ser ato cuja natureza é DECLARATÓRIA. Isso significa que a personalidade jurídica internacional do Estado surge a partir do momento em que o mesmo assegura sua existência seguindo o atual DI, mediante a reunião dos elementos constitutivos. Caso objetivamente um Estado possa ser assim considerado, o fato de não ser reconhecido não permite a outros sujeitos de DIP recusar-lhe personalidade jurídica internacional, já que a mesma é objetiva. Todavia, como o ato é igualmente político, a sua personalidade jurídica internacional não exige que seus pares o reconheçam, o que na prática impede que o novo país consiga desempenhar capacidades internacionais relacionadas ao relacionamento formal com países que não o reconhecem, por exemplo.

Em contrapartida, os demais sujeitos de DIP possuem personalidade jurídica internacional derivada. Ao contrário do que ocorre com os Estados, as capacidades internacionais desfrutadas pelos primeiros não decorrem diretamente de sua existência, mas sim da atribuição, pelos Estados, de direitos e obrigações a esses últimos. Aqui cabe ressaltar que, entre todos os demais sujeitos de DIP, os únicos que possuem personalidade internacional invariavelmente derivada e objetiva (o que faz com que todos os Estados aceitem sua condição de sujeitos de DI sem exceção) são os indivíduos, embora sua capacidade de recorrer a órgãos internacionais em caso de violação de seus direitos não precise ser reconhecida por todos os países.

Além dos indivíduos, afirma-se também que as organizações internacionais de maior porte possuem personalidade jurídica internacional derivada e objetiva. O caso Bernadotte (que citei acima), além de reconhecer que OIs como a ONU possuem tal personalidade, mencionou que as organizações com mais de 50 membros, por exemplo, não poderiam ter sua condição de sujeito de DIP recusada mesmo por quem não tivesse a qualidade de membro, já que suas capacidades internacionais seriam indiscutíveis. Mas há OIs em que a doutrina ainda admite o questionamento da personalidade jurídica internacional, sendo essa qualificada – isso ocorre quando há dúvidas sobre a real autonomia da OI frente aos seus membros.

Por mais que em relação aos indivíduos haja discussões quanto à afirmação de que eles, e não os Estados, seriam os sujeitos de DI por excelência, quem leu o texto que passei sobre indivíduos na preparação para a terceira fase sabe que não é bem assim. A personalidade deles é passiva, já que eles não são responsáveis pela criação das normas internacionais responsáveis por definir seus direitos e obrigações internacionais. Da mesma forma, as OIs têm seus direitos e obrigações fixados pelos Estados para que possam atingir seus objetivos (princípio da especialidade – poderes implícitos). Nesse aspecto, o reconhecimento de personalidade a essas pessoas é  CONSTITUTIVO no que concerne às capacidades que podem titularizar, não possuindo tais pessoas capacidades que os Estados não estão dispostos a conceder. E obviamente também aqui existe componente político no ato de reconhecimento.

Por fim, quanto aos demais sujeitos de DI, como os beligerantes, a Santa Sé e o CICV, para mencionar três exemplos, além da personalidade derivada, os mesmos somente são sujeitos de DI para os Estados que os reconhecem (personalidade jurídica internacional qualificada). O componente político aqui também é fortíssimo, já que o mero preenchimento de requisitos fáticos é insuficiente para a atribuição da personalidade jurídica internacional sem a vontade política. Não vejo, entretanto, o que escrevi acima como única forma de responder essa questão. Acredito que o gabarito aqui será maleável.

 

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Tendo como referência o trecho do texto apresentado acima, disserte sobre os possíveis efeitos das decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos… Essa questão, tal como a 02, não apresentava maiores dificuldades na identificação das discussões fundamentais para que a pontuação máxima pudesse ser obtida – bastava responder aos questionamentos formulados ao final do enunciado. Passemos a eles, então:

1 – Possibilidade/impossibilidade de reconhecimento, pelo DI geral e particular, de efeitos erga omnes a sentenças de tribunais internacionais.

O que afirmarei aqui não difere muito daquilo que procurei explicar naquela aula em que comentamos o parecer consultivo da CIJ no caso Legalidade na Declaração de Independência do Kosovo – logo, se você se lembrava dessa aula, bastava recuperar alguns raciocínios que lá formulamos. Os textos do Leonardo Nemer Caldeira Brant e da Anne Peters sobre a relevância de decisões e pareceres consultivos no processo de interpretação e aplicação do DI contemporâneo também possuem argumentos interessantes que poderiam ser empregados. Basicamente, sentenças de tribunais internacionais não se destinam prima facie a gerar efeitos erga omnes, já que somente se destinam a obrigar os Estados litigantes a respeito do caso em questão (como é o exemplo clássico do artigo 59 do Estatuto da CIJ). Em outras palavras, o fenômeno da coisa julgada formal somente se verifica inter partes, já que formalmente somente os litigantes consentiram com o exercício de jurisdição. Contudo, a análise restaria extremamente incompleta se terminasse por aqui.

Em verdade, a autoridade das sentenças dos tribunais internacionais decorre da própria natureza jurisdicional dos mesmos. Por exemplo, o princípio "Kompetenz-Kompetenz", ao conferir em última instância poderes aos órgãos jurisdicionais para aferir sua capacidade em atuar em determinada disputa, exprime que o consentimento dos Estados, embora essencial, pode ser averiguado por terceiro para que seja alcançado o objetivo maior de garantir estabilidade às relações internacionais mediante a obtenção de uma solução pacífica para a controvérsia em questão. Nesse espírito de se buscar a realização dos objetivos da sociedade internacional, embora as sentenças de tribunais internacionais não sejam reconhecidas como obrigatórias a todos, não se pode esquecer que, materialmente, a mesma pode afetar a terceiros de diversas formas.

Em primeiro lugar, a formação de coisa julgada material pode vir a afetar terceiros Estados cujos litígios sejam exatamente idênticos a casos examinados no passado por tribunais internacionais. Embora a figura do precedente não seja vinculante, cortes internacionais procuram seguir uma consistência jurídica em seus julgados, recorrendo a normas empregadas no passado para fundamentar novos julgamentos no futuro. O fenômeno do diálogo entre as cortes faz com que os tribunais estejam constantemente acompanhando a jurisprudência dos seus pares, o que  facilita a uniformização na aplicação do DI, e a consequente repetição de argumentos empregados em julgamentos anteriores quando suficientemente persuasivos. Ao interpretar tratado, costume ou outra fonte do DI, ou mesmo ao revelar a atual situação de determinada norma internacional, a jurisprudência dos tribunais pode modelar a forma com o DI é compreendido na atualidade, o que certamente impingirá na forma como outras controvérsias serão resolvidas. Por fim, decisões que versem sobre situações jurídicas objetivas – como delimitações territoriais – criam de facto direitos erga omnes para o vitorioso na decisão, já que terão que ser reconhecido por toda a comunidade internacional.

2 – Aplicabilidade ou não da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos ao direito interno de Estado que não figura como parte de contencioso decidido.

Nesse diapasão, cabe inicialmente ressaltar que a Corte não tem poderes para alterar diretamente o direito interno mesmo dos Estados que são diretamente condenados por suas decisões. Ela somente verifica que o mesmo está em desacordo com o disposto na Convenção Interamericana (ou ,excepcionalmente, com o Protocolo de San Salvador), e determina que as autoridades estatais promovam mudanças para adequá-lo às obrigações internacionais do Estado em questão. Todavia, como mencionava o próprio fragmento citado no enunciado, a Corte Interamericana é a principal intérprete da Convenção Interamericana – o fato de a legislação do Estado não estar de acordo com suas sentenças pode levar a, no futuro, ser condenado devido a violação das normas contidas nesse diploma convencional. É nesse sentido que se encaixava a expressão "controle de convencionalidade ex officio", já que os tribunais internos não precisam, por exemplo, esperar uma situação que viole internamente direitos humanos chegar ao conhecimento da Corte – percebendo que sua orientação é contrária ao disposto nas normas domésticas, devem as autoridades internas em geral já tomar as providências necessárias dentro das suas atribuições para garantir cumprimento à Convenção Interamericana, sob pena de poder seu Estado ter sua responsabilidade internacional afirmada no futuro.

Obviamente a questão não exigia discussão sobre a simbiose entre o Tribunal de Justiça da UE e as cortes internas dos Estados-membros da UE, mas existe ampla doutrina sobre como o primeiro, por exemplo, se vale da cooperação dos últimos para garantir a prevalência da aplicação do direito europeu. Quando há jurisprudência da Corte Europeia, em particular naqueles casos onde atuou em sede de reenvio prejudicial, esse tribunal estimula que as cortes domésticas façam desde logo uso de suas decisões em casos que envolvem partes completamente distintas para encontrarem a melhor interpretação do direito europeu aplicável ao caso concreto que estão examinando. Isso desafoga, a um, o "workload" do TJ da UE, e, a dois, permite que, embora a decisão não seja diretamente aplicável, que todos os operadores do direito tenham plena consciência de que o direito interno é incompatível com o comunitário, e que consequentemente não possui qualquer chance de continuar a ter sua aplicação garantida.

É verdade, ainda, que esse raciocínio vale especialmente para as sentenças que versam sobre o disposto na parte inicial do art. 63, §1º da Convenção Interamericana, já que o pagamento de indenizações não se destina a promover mudanças no direito interno, mas sim a reparar mal causado. E é igualmente verdade que a Corte não possui poderes executórios para assegurar que o direito interno será de fato alterado, como bem demonstra o caso Guerrilha do Araguaia (Gomes Lund e outros x Brasil). Mas é inegável que a sentença poderá suscitar medidas internas naquelas situações onde as autoridades internas estejam suficientemente dispostas a garantir a proteção dos direitos humanos envolvidos, tal como o relatório (não-obrigatório, por sinal) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos no caso Maria da Penha provocou, no Brasil, a criação de legislação específica para proteger as mulheres contra agressões domésticas.

 

3. História do Brasil

ver modelo de recursos aqui

4. Língua Inglesa

ver modelos de recursos aqui

 

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Ranking do CACD 2016

CACD 2016: O Resultado do CACD 2016 saiu e o ranking com as notas da terceira fase do CACD 2016. Veja que nesta ferramenta é possível não só ver a colocação dos candidatos, mas também comparar o desempenho de qualquer candidato com a média obtida pelo grupo dos aprovados. Ou seja: é possível depreender qual deveria ter sido sua nota ideal em cada disciplina. Confira abaixo:

Atenção: Ranking é provisório e está sujeito a correções. Ele foi feito levando em consideração a concorrência ampla. O resultado do ranking acima não substitui o resultado oficial do CESPE. Na dúvida, calcular diretamente em http://www.cespe.unb.br/concursos/IRBR_16_DIPLOMACIA/arquivos/ED_10___IBRR_2016___RESULTADO_FIM_FASE_2_PROV_FASE_3_REV_IRBR.PDF

Créditos: Agradecimentos ao candidato Bruno Rodrigues por organizar o ranking e os gráficos. 

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Prova de Espanhol para candidatos a diplomata: Os 3 erros mais comuns dos candidatos

Prova de Espanhol para o concurso de diplomata é fácil, certo? Erradíssimo. A prova de língua espanhola para o concurso de admissão à carreira de diplomata (CACD) é, para quem ainda não sabe, onde acontecem as médias mais baixas (veja aqui nessa matéria que disciplinas tem médias mais baixas e por quê)

A Prof. Mariana Lima (FrançaisCACD) já tinha escrito ao Clipping sobre os 3 erros mais comuns cometidos na prova de Francês (veja aqui), vamos agora entender melhor como funciona a prova de Espanhol.

O texto abaixo é de autoria de Alejandra Bermudez, que há cerca de 10 anos prepara alunos exclusivamente para a Prova de Espanhol do CACD. Vale a pena a leitura cuidadadosa:

Os 3 erros mais comuns da prova de Espanhol para candidato a diplomata

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*por Alejandra Bermúdez

 

Oi, amigos do Clipping 

Nestes mais de 10 anos preparando e acompanhando candidatos à Carreira Diplomática, tenho ouvido diversas vezes o seguinte: 

Quais são as tuas “dicas” para aprovação? 

Muito legal e instigante essa pergunta! E difícil de responder…

No mês de junho deste ano, completei 11 anos neste caminho e, certamente, ainda não achei a resposta concreta, a não ser estudo e preparação constante. Você quer aprovar? Certo. Prepare-se com antecedência e dedicação; ninguém atinge um nível B2 ou C1 em língua estrangeira em seis meses, por mais “milagreiro” que o professor seja.  

Há uma lenda que diz que no Espanhol, se você arranha um bom “portunhol”, consegue interpretar e responder assertivamente. O CACD vem demonstrando, nestes anos, que não é bem assim. Essa afirmação contém grandes mitos sobre a aprendizagem de espanhol, muito significativos, aliás. Muito bem, se você pensa dessa forma, poderá ganhar um “tapinha nas costas” da Banca e um “continue participando e volte o ano que vem". Seja no estudo particular, em cursos ou com professor mediador, sua nota é o resultado de um trabalho constante que mostrará em primeira mão a sua dedicação e estratégia. 

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Então, vamos falar sobre os resultados da Prova de Espanhol de 2016 que você fez nessa última fase do concurso de admissão à carreira de diplomata (CACD). A intenção de comentar a prova e seu gabarito é fornecer alguns dados e análise de respostas para dar insights importantes sobre onde os candidatos estão errando e fazer estatísticas sobre possíveis assuntos ou conteúdos prováveis. Vamos lá!

O que você pode e não pode fazer na prova de Espanhol?

Vamos analisar a prova e o gabarito resumindo os erros mais comuns:

 

#Erro 1: Considerar unicamente uma conotação ou tradução do termo

Em qualquer prova de interpretação textual o léxico torna-se fundamental, especialmente nesta prova do concurso de admissão à carreira de diplomata (CACD) que requer um alto nível de compreensão lexical. As questões da banca de espanhol, da prova objetiva, costumam apresentar muitos assuntos LEXICAIS, isto é, de significado do vocabulário apresentado nos textos.

Veja um exemplo nesta questão da prova 2016:

 

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Toda a questão foi baseada no termo “MATE” apresentado no seu enunciado. Essa nem é tão difícil, tudo bem. O candidato consegue traduzir MATE como um tom “fosco”, perfeito. No entanto, mesmo sabendo a definição, depara-se com a dificuldade de achar a resposta na interpretação do texto. Não existe informação que indique o tom, aparentemente. Para responder esta questão é necessário entendermos o jogo de sinonímia e antonímia utilizado pela banca, o texto diz :

“Y ésta pelada, bruñida por muchos insomnios y una existencia en aviones, con algunas puntas de pelo cano que le asoman por la rampa de los parietales”

O verbo bruñir, definido pela Real Academia Española (RAE), tem mais de uma conotação:

  • 1. Sacar lustre o brillo a un metal, una piedra, etc.
  • 2. Molestar, fastidiar a alguien.
  • 3. Maquillar el rostro con varios ingredientes.

O texto refere à conotação 1  / bruñida: reluciente, con brillo/ portanto, a palavra MATE é o antônimo de BRUÑIDA. Fala da cabeça do homem (parte superior del cuerpo) e afirma que ela é fosca quando, na verdade, o texto afirma que é brilhosa (bruñida). A banca escolheu para elaborar a questão seu antônimo, portanto, todas estão ERRADAS. Esta é uma questão lexical típica da Banca de Espanhol!

Veja outra, questão 8:

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O léxico , neste caso, é sobre descrição física ,assunto que uma e outra vez indico para os meus alunos como  tema de estudo obrigatório, não é?

Isso é bem fácil, dizem eles.

Veja bem, o vocabulário em níveis avançados não resulta tão fácil. A palavra “pelada” no texto não indica ser “completamente” calvo (careca), sem cabelo; o texto compara o nariz da personagem com um “nariz de pico de quetzal” o que não indica “chata”. Também afirma que a personagem tem um “vaivén de gigantón” o que indica, sim,  que é alto, mas diz também que é um “Buda sin grasa” o que elimina “rollizo”. Veja o “rollizo”(robusto, que tiene rollos) , um adjetivo de nível C1 ou C2 que seria gordo (nível A1). 

Você necessita um nível avançado de vocabulário, o básico não dá conta desta prova!

 

#Erro 2: Responder questões de teoria gramatical como interpretação

Veja um exemplo, 

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Esta questão foi sobre Poema de Neruda (2015).

Quando a Banca questiona, o faz em relação a dois versos. Neste caso, a questão não é de interpretação, aliás seria impossível responder baseados na sua interpretação. Esta questão é teórica: refere ao contraste entre Pretérito perfecto simple e Pretérito Perfecto compuesto (1-4) , ao Presente de Subjuntivo ou ao Condicional (2), e ao Futuro Simple (3). Em cada item, define um tempo verbal, a dificuldade foi identificar quais tempos verbais estavam presentes nos dois versos do poema.

Mais uma deste ano,

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Novamente, trata-se de identificar no texto em que tempos verbais se encontram estas afirmações. Por exemplo, no texto:

“La palabra necesita respiro” indica que a 2 é errada, já que a afirmação está no presente de indicativo (necesita) e não em pretérito. Não se trata de achar dados ou afirmações em relação ao contexto ou ao assunto e sim, simplesmente, observar , neste caso, o verbo. 

As questões teóricas devem ser resolvidas com teoria gramatical aplicada (conceitos, usos, exceções,regras) , como se fosse fórmula matemática e NÃO através da interpretação!

 

#Erro 3 “Falta de conhecimento de Cultura Geral”

Algumas questões demandam conhecimentos e inferências externos, independentes ao texto. O Don Quijote foi um assunto que abordei em Simulados e que indiquei como tema certo para este ano devido aos 400 anos da morte de Cervantes (1616-2016).

Os meus alunos, com certeza, foram bem preparados em relação à obra, ao autor e ao contexto histórico, fiquei feliz em ter acertado! Conhecimento cultural é fundamental na hora de responder questões como esta: 

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A questão demanda conhecimento sobre o autor da obra e sua origem (La Macha=manchego). Aliás, você não pode se apresentar para a 3ª fase de Espanhol sem saber quem é o autor do Quijote e sem conhecer, pelo menos, o argumento da obra e suas personagens! 

 

#. Concluindo: Algumas percepções…

Em relação aos textos:

Os textos escolhidos pela Banca de Espanhol, falando em estratégias de preparação para a prova objetiva de terceira fase, os prediletos foram textos extensos, muito extensos, o registro foi principalmente textos literários. Cabe destacar que o Nível de todos os textos e questões foi, baseados no MCRE (Marco Comum Europeu de Referência), um Nivel B2 ou superior (C1-C2).

Em relação às questões, levando em consideração e priorizando sempre a predileção da banca nas provas objetivas anteriores de 2014 e 2015, se optou por questões lexicais com alto grau de dificuldade, utilizando diversos recursos (antonímia, sinonímia, substituição) e por perguntas de interpretação abertas e fechadas. 

Em relação às perguntas:

As questões apresentaram:

  • vocabulário avançado através de sinonímia, antonímia e substituição lexical.
  • propostas de interpretação textual abertas  e fechadas.
  • questões de Teoria “pura” aplicada ao texto, principalmente, teoria verbal. 
  • Léxico relacionado à teoria literária.

Espero que esta análise possa ajudar na preparação para 2017 que, é claro, já começou!

 

alejandra-bermudez-diplomataAlejandra Bermúdez é especialista na preparação para o CACD faz 11 anos. É Mestre em Lingüística aplicada a la enseñanza de español pela Universidad de Jaén (España) e Mestre em Linguística Aplicada pela Unisinos (Brasil). É Professora do Instituto Cervantes de Porto Alegre desde e Membro da Banca Examinadora D.E.L.E (Diploma Internacional de Español como Lengua Extranjera- título oficial outorgado pelo governo da Espanha). É Assessora linguística e tradutora de textos técnicos e literários.

 

 

 

 

 

 

 

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